Tópicos em alta: coronavírus / vacina / tribuna 40 anos / polícia / obituário

Casa D’Italia: o que contribuiu para a suspensão do leilão

‘Casa nostra’: Governo italiano recua e, segundo senador e subsecretário de relações internacionais, venda da Casa D’Italia está suspensa


Por Mauro Morais

14/10/2020 às 06h55

O leilão da Casa D’Italia de Juiz de Fora está suspenso. O processo que culminaria com a venda do imóvel no dia 3 de dezembro foi interrompido, segundo o senador italiano e subsecretário de Relações Internacionais da República Italiana, Ricardo Merlo. O político, representante da América do Sul no Senado, publicou a informação na manhã desta terça-feira (13), em sua conta no Twitter. “Confirmo oficialmente: acabamos de suspender a venda da Casa D’Italia de Juiz de Fora. Uma associação que deve permanecer para nossa comunidade italiana no Brasil”, escreveu Merlo.

A medida, contudo, ainda não foi anunciada pelos órgãos oficiais. Na página do Consulado da Itália em Belo Horizonte, o aviso de leilão segue acessível e nenhuma notícia referente à suspensão foi publicada até o início da noite desta terça. Contatado via e-mail pela Tribuna, o órgão não se manifestou. Segundo Paulo José Monteiro, presidente da Associação Ítalo-Brasileira San Francesco di Paola de Juiz de Fora, a entidade também não foi notificada da interrupção, o que ele espera acontecer até a manhã desta quarta (14), bem como o cancelamento da reunião que aconteceria nesta quinta (15), entre a associação e o cônsul Dario Savarese, em Belo Horizonte, para tratar do despejo e da possível venda do imóvel.

“O clamor popular foi de uma importância incrível. Foi enviado para o ministro (de relações internacionais) e para a vice-ministra a relação dos nomes do abaixo-assinado. Em segundo lugar devo isso à intervenção da Silvia Alciati, representante do Brasil no Conselho Geral dos Italianos no Exterior (CGIE), que ligou para todos os órgãos competentes da Itália para segurar esse leilão. Ela é uma pessoa que respeita a cultura e briga pelos italianos”, pontua Monteiro.

Luto: Fachada do imóvel nesta terça (13) contava com três faixas na cor preta em protesto pelo leilão. (Foto: Fernando Priamo)

Um seminário no meio do caminho
Ao longo da última semana, Silvia Alciati esteve à frente de um dos mais importantes eventos sobre a imigração italiana no Brasil. Coordenadora geral, ela também mediou importantes mesas do 10º Seminário da Imigração Italiana em Minas Gerais, que aconteceu em formato on-line este ano. O evento reuniu acadêmicos, gestores e relevantes figuras da política italiana, como o embaixador da Itália no Brasil, Francesco Azzarello, e a vice-ministra das Relações Exteriores e Cooperação Internacional, Marina Sereni, ambos integrando a conferência de abertura. Palco para o debate acerca do legado dos italianos no estado, o seminário acabou por sediar, também, discussões acerca da relevância da Casa D’Italia de Juiz de Fora.

O conteúdo continua após o anúncio

“A decisão do leilão aconteceu uma semana antes da realização do seminário. Foi um evento que fez o intercâmbio e a interlocução entre o Estado de Minas e a própria Itália, membros do Governo e das universidades. A questão da venda da Casa D’Italia assumiu uma visibilidade muito grande, e acho que isso ajudou no processo que culminou com a suspensão do leilão”, avalia Marcos Olender, professor do curso de história da UFJF e vice-coordenador do comitê científico do seminário. Bilíngue, o evento também permitiu que italianos vivendo em outros territórios compreendessem a situação e se envolvessem com a defesa da casa.

“Sempre que havia possibilidade, a questão da Casa D’Italia era colocada”, recorda-se Olender sobre o evento que, patrocinado, dentre outros, pelo Consulado da Itália em Belo Horizonte, não poupou nem mesmo o cônsul Dario Savarese durante sua fala na mesa de encerramento. Na gravação, disponível no YouTube na conta do seminário, é possível ler diferentes mensagens destinadas a Savarese, contestando a venda do imóvel, enquanto ele falava sobre diplomacia. O evento também possibilitou que o fluxo de informações alcançasse rapidamente instâncias superiores. E a indignação que se viu nas redes, solicitando a interrupção do processo, estendeu-se para os bastidores da política italiana. “As coisas sempre têm um plano político e o plano administrativo”, alerta o ex-deputado italiano, representante da América do Sul no parlamento por dois mandatos, Fabio Porta, o primeiro a se reunir com a vice-ministra Marina Sereni para solicitar o recuo do Governo italiano.

Salão da Casa D’Itália: arquitetura ajuda a contar história da Itália e dos imigrantes que escolheram viver em Juiz de Fora. (Foto: Fernando Priamo)

Decisão de funcionários
A decisão da venda, segundo Porta, foi tomada por funcionários do Ministério Exterior e repassada ao consulado em Belo Horizonte sem um debate interno em Roma. “Os ministros não tinham noção, tanto que quando souberam da situação, acabaram suspendendo o ato”, conta. “Eu mesmo conversei com a autoridade máxima nessa questão, que é a vice-ministra, e até aquele momento ela não tinha ciência. Imagino que a intervenção dela e o papel do subsecretário Merlo, que foi ativado pela comunidade italiana de Minas e pelo Conselho Geral dos Italianos no Exterior, teve um forte papel ao sinalizar a gravidade da situação. E mesmo a comunidade italiana, que assinou massivamente o abaixo-assinado que circulava nas redes sociais, ajudou bastante. Quero, também, enfatizar o papel da mídia. Tudo isso criou uma grande sensibilização. E quando a comunidade se une em volta de um objetivo e cada um faz a sua parte, os resultados são evidentes. Este não é um sucesso de uma pessoa só, mas de um coletivo que se mobilizou”, comemora Porta.

Gestão de todo o complexo, que engloba terreno com saída para a Rua Henrique Surerus, pode ser debatida e aprimorada. (Foto: Fernando Priamo)

Próximos capítulos do imbróglio
Vídeos publicados na redes sociais, com depoimentos de descendentes de italianos de diferentes gerações, dão o tom de um mobilização que ultrapassou a revolta e sensibilizou pela emotiva defesa de um símbolo histórico. Criado pela Associação Ítalo-Brasileira San Francesco di Paola de Juiz de Fora, o abaixo-assinado virtual destinado ao ministro de Relações Internacionais da Itália Luigi di Maio reúne cerca de 8 mil pessoas, de nacionalidades distintas. “Não podemos subestimar a mobilização da comunidade de descendentes de italianos de Juiz de Fora e outras pessoas da sociedade que articularam para salvar esse espaço tão importante na cultura da cidade. Não haveria a sensibilização da comunidade internacional e de autoridades políticas italianas, mesmo até do pessoal no seminário, se não houvesse uma mobilização que mostrou a importância dessa Casa D’Italia para a cidade, para Minas e para o Brasil”, acentua Marcos Olender, pesquisador que dedicou um capítulo de seu livro “Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri” ao imóvel.

A amplitude do debate em defesa da Casa D’Italia, no entanto, impõe novos capítulos para a questão. De acordo com Fabio Porta, vencida a demanda pela permanência do imóvel, ganha relevo a importância do projeto que deve se voltar à promoção da cultura, da história, da língua e da tradição italiana. “Agora precisamos enfrentar e resolver outras questões, em primeiro lugar a da propriedade, esclarecendo se a casa pode passar para uma entidade local de Juiz de Fora, se pode haver uma transação entre o Governo italiano e a associação, talvez fazendo uma compensação entre o que foi gasto e investido. Outra questão é que precisa ser esclarecido melhor a relação entre a Casa D’Italia, as instituições italianas, a comunidade italiana, o consulado italiano e o consulado honorário em Juiz de Fora. Seria bom aproveitar esse momento para definir melhor o papel de cada um”, observa Porta, defendendo, ainda, a transparência e a participação coletiva na utilização dos espaços do terreno. Paulo José Monteiro assegura ter o mesmo interesse: “Vamos deixar a poeira baixar e ver quais são os interesses por trás disso (da venda). Se há erros, vamos corrigi-los e implementar ainda mais a cultura italiana na Casa D’Italia.”

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade pelo seu conteúdo é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Desenvolvido por Grupo Emedia