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Gente como a gente- até nas transgressões


Por Michele Meireles

09/11/2016 às 08h27- Atualizada 09/11/2016 às 08h38

Léo Bomfim se inspira no ídolo Nelson Rodrigues para contar histórias de pessoas comuns (Foto: Fernando Priamo)
Léo Bomfim se inspira no ídolo Nelson Rodrigues para contar histórias de pessoas comuns (Foto: Fernando Priamo)

Marino é um corretor de seguros casado com Laurinda, com quem tem um casamento feliz. Ao mesmo tempo, sente falta dos tempos em que o sexo com a esposa era intenso, e isso o faz lembrar do seu passado de conquistador. Para piorar, Isabela, esposa de um dos seus clientes, demonstra um interesse para o qual ele não consegue resistir. Já Roberto é um bancário com uma carreira promissora, igualmente “pegador”, mas que guarda um passado de estripulias com outros rapazes do mesmo sexo e que se apaixona por Katiuscia, mineira criada no Sul, que o colocará em uma trilha onde a tragédia é o ponto final. São essas histórias de gente comum, mas capaz de quebrar as regras, ir além do que é considerado “normal”, para ceder às suas tentações, que marcam as páginas de “Histórias e segredos 2”, de Léo Bomfim, que será lançado nesta sexta-feira, às 17h, na sede do Sindicato dos Auditores Fiscais, com direito ainda a exposição de obras do artista plástico Raul Brandão, responsável pelas capas dos dois livros.

Publicado por meio da Lei Murilo Mendes, o trabalho é a sequência invertida de “Histórias e segredos 2”, lançado em 2013 também pela Murilo Mendes. De acordo com Léo, o livro contém a primeira história que escreveu (“Desejo cego”) há mais de uma década, mas que acabou saindo depois da sua continuação por questões alheias a sua vontade. “Tentei publicar o ‘Histórias em segredos 1’ pela primeira vez em 2011, mas não fui selecionado pela Lei Murilo Mendes. Em 2012, tentei o segundo livro e fui aceito, por isso ele foi publicado antes. Aí em 2015 voltei a tentar o primeiro, e logrei êxito.”
Além da arte, o novo trabalho de Léo é marcado pelo caráter beneficente, já presente no primeiro livro. “Vinte e cinco por cento do que for arrecadado com a venda serão doados para o Instituto Bruno, que atende a crianças surdocegas e com paralisia cerebral.”

Sob a influência de um certo ‘anjo pornográfico’

Quem tiver a oportunidade de ler “Histórias e segredos 1” pode observar em suas páginas a influência de Nelson Rodrigues no trabalho de Léo Bomfim, que não esconde ter o escritor e dramaturgo pernambucano – mas de alma carioca – como ídolo, influência e referência. São pessoas comuns, como os contínuos e funcionários públicos de Nelson, que surgem nas histórias do escritor carioca radicado em Juiz de Fora desde 1999. Gente comum, em que ninguém prestaria atenção na fila do mercado, no ônibus lotado, com seus desejos, segredos, fantasias; gente comum de quem ninguém jamais suspeitaria ser capaz de transgredir os limites daquilo que chamamos de moral e bons costumes.
“Eu costumo dizer essa frase: ‘Gosto de olhar o ser humano comum, aquele transeunte incógnito que passa pelas ruas. Nele há um coração prenhe de segredos, que bate no compasso do desejo’. Isso mais ou menos sintetiza a minha obra”, enumera. “O cara que transgride, esse que sai da normalidade é que se torna matéria-prima do que eu gosto de escrever. Mas não é aquele porralouca de quem todo mundo já espera por isso, e sim o pai de família, trabalhador, que vai à igreja, mas que acaba cometendo sua transgressão.”

As verdadeiras donas da história
Morando em Juiz de Fora há quase 20 anos, Léo Bomfim já escreve seus contos e romances tendo a cidade como cenário. Mas as histórias do livro, por terem sido escritas quando era pouco conhecedor das ruas e bairros da nova terra, são situadas no Rio de Janeiro em que viveu boa parte da vida. Ele vê, aliás, muitas semelhanças entre a Juiz de Fora de hoje (“a mais carioca das cidades de Minas”) com o subúrbio da Leopoldina, onde viveu na década de 70.
Apesar de os personagens principais das duas novelas serem homens, quem parece ditar o ritmo dos destinos de ambos são as figuras femininas presentes nas novelas. Para o autor, isso é consequência do que observa no cotidiano. “Ao escrever sobre sexo, você invariavelmente vai bater de frente numa questão que considero primária: a mulher é quem comanda no sexo. O homem veste sua melhor roupa, sai barbeado, perfumado e diz que vai conseguir algo, mas sempre vai depender da mulher. Ela, ao sair com seu melhor vestido, arrumada, e disser que vai conseguir alguém, ela consegue. Essas questões da vida são capitaneadas pela mulher, acredito nisso e coloco isso nas minhas histórias, em que elas são determinantes na vida sexual e nas escolhas dos homens.”

HISTÓRIAS E SEGREDOS 1

Lançamento nesta sexta-feira, 11, às 17h
Sindicato dos Auditores Fiscais (Rua Sergipe 8 – 8º andar) – Manoel Honório