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Pedro Carcereri lança o curta “Trabalho é campo de guerra”

Produção filmada com o apoio da Lei Aldir Blanc apresenta uma visão pessimista das novas configurações do mercado de trabalho


Por Júlio Black

08/08/2021 às 07h00

O motoboy Ramon é a “pessoa digital” no curta-metragem de Pedro Carcereri (Foto: Daniel RDZR/Divulgação)

O mercado de trabalho tem passado por um processo de precarização em que o lado mais fraco _ o do trabalhador, claro _ se encontra numa situação em que a dupla jornada, a perda de direitos ou de amparo legal, a “uberização”, a falácia do empreendedorismo e a subserviência do “é melhor do que nada” têm sucateado as formas de trabalho convencionais. É sobre essa realidade sombria, talvez distópica, que trata o curta-metragem “Trabalho é campo de guerra”, produção da Old Man Artes dirigida por Pedro Carcereri com apoio da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais. A produção fez sua estreia no Exexex _ Festival de Vídeo Experimental, da Galeria Airez, em Curitiba (PR), e pode ser assistido on-line no site do evento (exexex.art.br). A produção também vai fazer parte, pelos próximos dois anos, da grade de programação da Rede Minas.

A produção foi rodada entre fevereiro e março deste ano em Juiz de Fora e Goianá e acompanha um dia na vida de cinco pessoas: o vigia Marcos Vinicius, o motoboy Ramon, a dona de casa Maria Aparecida, a agricultora Priscila e o ambulante Luemerson. Adotando um formato híbrido entre documentário e videoarte, Carcereri faz uma crítica ao sucateamento do trabalho em forma de ficção científica, como se o curta fosse um manual futurista de como o trabalho se comporta no corpo das pessoas, em que os indivíduos se encontram divididos em um grupo de castas de acordo com o ofício que exercem: são as “pessoas digitais” (o motoboy), “pessoas tempo” (o vigia), “pessoas casa” (a dona de casa), “pessoas máquina” (a agricultora) e as “pessoas livres” (o ambulante).

Pedro Carcereri conta que a ideia do curta-metragem é fruto, inicialmente, da interseção entre suas pesquisas acadêmicas e artísticas, junto ao choque da realidade que vivemos quando o assunto é mercado de trabalho. “Uma das questões que me despertaram o interesse foi a ‘uberização’ do trabalho, o advento dos aplicativos que fazem a propaganda do trabalho sem patrão e a falsa venda de que você é quem faz o seu horário de trabalho, sendo que a pessoa só trabalha mais”, diz o cineasta, que começou a pensar no projeto em 2019 e tem baseado sua atividade nas questões de trabalho, lazer e memória, tanto na pesquisa acadêmica quanto na arte.

“Meu próximo filme deve ser sobre o lazer, seguindo nesse formato hibrido de documentário e videoarte. A proposta do ‘Trabalho é campo de guerra’ era mostrar um dia de trabalho deles, a rotina, e agora pretendo mostrar a parte do tempo livre das pessoas, que muitas vezes é negado a elas ou demonizado.”

 

O ambulante Luemerson foi o escolhido como o representante das “pessoas livres” no curta de Pedro Carcereri (Foto: Daniel RDZR/Divulgação)

Trabalho com não-atores

Sobre a escolha pelo formato híbrido de documentário e videoarte com toques de ficção científica, Pedro diz que tem muito a ver com a proposta do filme. “Quando pensei no projeto imaginei essa ficção científica futurista usando as imagens de hoje para construir esse discurso distópico. Às vezes vivemos em situações tão absurdas que vejo a ficção científica já aí, com os aplicativos mandando nas pessoas, e que já estamos vivendo uma distopia”, filosofa. “O absurdo já está aí, só precisamos configurá-lo. Eu sempre trabalho nessas interseções entre a realidade e ficção, o que é absurdo e comum, a normalização do absurdo, essa ‘uberização’ do trabalho que é absurda, mas é vista como normal”, analisa.

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O curta-metragem tem como protagonistas não-atores em seu cotidiano. Pedro Carcereri explica que começou a trabalhar com atores não profissionais em “Maria Cachoeira”, lançado por meio da Lei Murilo Mendes em 2017, e gostou da experiência a ponto de repeti-las em produções posteriores como o documentário “Último toque”.

Para a produção, o diretor relata que a única personagem que conhecia era Maria Aparecida. “Eu gravei uma coisa anteriormente com a Cida e me encantei por ela, pela sua religiosidade. Ela mesma diz que sua profissão é dona de casa. Quase todos os outros foram por meio de pesquisas com a minha produtora, a Mariana Martins, sendo que o Ramon foi por meio de uma pesquisa pela internet, em que perguntamos se algum motoboy tinha interesse em participar.”

Já o caso de Luemerson, a “pessoa livre”, foi diferente. “Estávamos atrás de um ambulante, e ao andar pela cidade com a (assistente de produção) Esther Assis vimos o Luemerson. Ele topou na hora e foi uma grande surpresa. Foi interessante porque no dia da gravação com ele choveu, e pudemos ver as dificuldades enfrentadas por ele com as intempéries”, relembra, acrescentando a importância das leis de incentivo que permitiram que o elenco e equipe técnica pudessem ser remunerados.

Pedro Carcereri também destacou a reação dos não-atores à possibilidade de ter suas vidas levadas para a tela. “Todos estavam curiosos e muito abertos a participar, colaborar e dialogar sendo personagens daquela narrativa, independentemente de estarem satisfeitos ou não com o trabalho, pois sabemos que 90% dos brasileiros trabalham muito e ganham pouco”, pontua. “São pessoas que sabem que estão trabalhando de forma digna, e procuramos mostrar essa dignidade em nossa abordagem.”

O Vigia Marcos Vinicius interpreta a “pessoa tempo” de “Trabalho é campo de guerra” (Foto: Daniel RDZR/Divulgação)

O trabalho como ele é

Na visão de Carcereri, as gravações foram uma experiência impactante por mostrarem, entre outras questões, como muitos dos personagens do curta estavam sendo prejudicados pelo atual contexto do mercado de trabalho, principalmente em tempos pandêmicos. “Muitos deles estavam cumprindo horários mais extensos de trabalho, menor disponibilidade de ônibus, e notei que nenhum deles teve o privilégio de poder parar de trabalhar, o que era pedido a todos no início da pandemia. Eles tiveram é que trabalhar mais”, observa.

“A pandemia acelerou e normalizou essa precarização, cristalizou a ideia de que ‘pelos menos vocês estão trabalhando’. A pessoa está feliz por ter emprego, mas puta porque trabalha demais. Falta conscientização de classe para o trabalhador brasileiro, que ainda enfrenta o fim do Ministério do Trabalho, as mudanças nas leis trabalhistas, a falta de informação. Claro que há diferenças, a militante do MST tem uma realidade diferente da enfrentada pelo motoboy, que está sozinho na selva de pedra do trabalho. Quanto mais você está sozinho, mais fica prejudicado.”

O sentimento de se aproximar da realidade de um país com quase 15 milhões de desempregados _ sem esquecer dos milhões de desamparados _ é de tristeza, diz ele. “Encaro minha arte como trabalho, assim como a do carpinteiro, do cara que corta cana, e estou sendo prejudicado, mas muito menos que eles. O grande problema é a falta de perspectiva de mudança a curto e médio prazo, o que traz um pouco de conformismo a essas pessoas. Hoje eu faço filmes, mas muitas vezes na minha vida tive subempregos como garçom, entre outros, e estar mais próximo de perspectivas diferentes da minha acaba por moldar novas formas de ver o mundo”, diz. “Fico muito emocionado pela oportunidade de ter feito esse filme, que é um processo muito difícil. Eu me sinto privilegiado por poder contar essas histórias e por estar perto deles. É para isso que servem os documentários; se não puder ajudar a mudar o mundo a ser um lugar um pouco melhor, nem precisaria ser feito.”

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