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“O céu da meia-noite” perde a mão ao tentar equilibrar drama e sci-fi

Estrelado e dirigido por George Clooney, longa da Netflix mostra história de arrependimento e redenção quando a humanidade está à beira da extinção

Por Júlio Black

07/01/2021 às 07h00- Atualizada 07/01/2021 às 07h38

Augustine (George Clooney) tenta salvar o pouco que restou da humanidade em “O céu da meia-noite” (Foto: Divulgação)

George Clooney faz parte da minoria entre os astros da TV que conseguiram migrar com sucesso para o cinema, apesar de que jamais vamos esquecer de sua participação em “Batman e Robin”. O galã que fez fama em “E.R.” tornou-se, inclusive, um elogiado e bissexto diretor, incluindo produções como “Confissões de uma mente perigosa” e “Boa noite e boa sorte”. “O céu da meia-noite”, que estreou em 23 de dezembro na Netflix, infelizmente não tem a mesma qualidade de suas obras anteriores, ainda que esteja a uma galáxia de distância de ser um desastre.

A produção é a adaptação do livro homônimo de Lilly Brooks-Dalton, lançado em 2016 e que coloca no mesmo cesto ficção científica e drama ao lidar com temas como arrependimento, isolamento, redenção e crítica ambiental. A história se passa num futuro relativamente próximo: em 2049, a humanidade foi praticamente extinta depois que o planeta se tornou inabitável, com os poucos sobreviventes tentando escapar da radiação que se espalha velozmente.

Uma raríssima exceção é Augustine Lofthouse, interpretado pelo próprio George Clooney, cientista que dedicou sua vida à descoberta de exoplanetas e que prefere continuar em sua base na Groenlândia mesmo com uma doença em estágio terminal. O motivo? Avisar a tripulação da nave Aether, que retorna da primeira missão a um corpo celeste habitável _ no caso, uma lua de Júpiter _ sem saber que nosso planeta está condenado. A princípio solitário, Augustine terá uma companhia inesperada e improvável (papel de Caoilinn Springall) em sua obstinada missão de alerta. Para isso, porém, ele terá que enfrentar a desolação, o frio e os perigos do Ártico.

Duas metades que não formam um filme

Com quase duas horas de duração, “O céu da meia-noite” tem a mesma medida de erros e acertos, e muito disso se deve ao fato do longa ter duas tramas correndo em paralelo, sendo que apenas uma delas realmente funciona. O melhor do filme está na história do cientista que faz de tudo para salvar o que restou da humanidade antes que ela retorne ao planeta. A obsessão pelo trabalho fez com que Augustine se afastasse de todas as pessoas que amou, e _ sem querer entregar spoilers _ ele vê na tripulação da Aether a chance de redenção e esperança de que a humanidade possa sobreviver, assim como o legado que ele negligenciou. Neste ponto, a atuação de Clooney é essencial para entregar ao público um homem solitário, amargurado e arrependido.

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Por outro lado, quando o filme se dedica ao seu lado sci-fi, perde o fôlego com alguns dos clichês do gênero, incluindo aí chuvas de meteoros que surgem do nada e os passeios espaciais que sempre dão errado. Mesmo com um elenco muito bom (Felicity Jones, David Oyelowo, Demián Bichir, Tiffanny Boone e Kyle Chandler), o espectador só vai se preocupar com o destino dos personagens _ e mesmo assim muito brevemente _ lá no início do terceiro ato, mas essa preocupação logo retorna ao ponto de apatia. E não falta experiência do diretor na seara do sci-fi, pois ele já trabalhou em produções como “Solaris” e “Gravidade”.

Para piorar, “O céu da meia-noite” ainda tem um defeito gravíssimo: não demora muito para o espectador descobrir que a produção vai entregar dois plot twists óbvios em seus minutos finais. Bastam 20 minutos de história para qualquer observador mais atento soltar um “já entendi” em relação à primeira reviravolta; quanto à segunda, o público até pode emitir um “Oh!” de surpresa quando revelado, seguido pela sensação de que era tão óbvio que dá até raiva não ter percebido (bem) antes.

“O céu da meia-noite” tem feito sucesso na Netflix e pode até conseguir algumas indicações ao Oscar por falta de concorrência, mas deixa a impressão de que a produção, ao decidir investir igualmente nas duas tramas, acaba com dois filmes que não conseguem formar um único longa. Provavelmente, dar mais espaço ao drama de Augustine e deixar os astronautas em segundo plano renderia um filme mais “inteiro”.



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