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Sonhos que ergueram paredes


Por Tribuna

06/10/2016 às 07h00- Atualizada 06/10/2016 às 07h49

Construída em 1864, Capela de Santana é fruto de promessa feita por imigrantes da região austríaca do Tirol durante a viagem para o Brasil

Construída em 1864, Capela de Santana é fruto de promessa feita por imigrantes da região austríaca do Tirol durante a viagem para o Brasil

A vinda de imigrantes europeus no século XIX marcou Juiz de Fora de diversas formas. Foram trabalhadores braçais ou especializados, agricultores, empreendedores, empresários, que ajudaram a transformar a cidade em pouco mais de 150 anos, seja na cultura, costumes e em diversas construções que até hoje estão de pé por todo o município. Este é o caso da Capela de Santana, a mais antiga construção religiosa da Cidade Alta, tema do livro da jornalista e escritora Rita Couto. Em “Santana: Uma capela tirolesa na colônia alemã de Juiz de Fora”, ela vai além da construção em si, mostrando como o sonho de vencer em um país então desconhecido fez com que mais de mil europeus viessem até o Novo Continente em busca de melhores condições de vida.

Segundo Rita Couto, o livro – que terá todo o valor arrecadado com a venda destinado à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima – é fruto de uma pesquisa iniciada há três anos e pode ser considerado um dos ramos do seu trabalho sobre a imigração alemã para a cidade, iniciada ainda em 2005. Ela destaca que a capela foi a primeira construída pelos estrangeiros, vindos de localidades que hoje pertencem à Alemanha e à Áustria. Vieram para o país em 1858 em cinco embarcações diferentes. Do total de 1.200 imigrantes, cerca de 300 eram austríacos da região do Tirol, que se reuniram em Innsbruck e partiram dali para Hamburgo, de onde saíram as embarcações rumo ao Brasil.

Para a pesquisa que resultou na publicação, a jornalista viajou até a Áustria, onde encontrou jornais e documentos que registram a saga dos europeus. “Vários jornais locais do século XIX contaram a história da viagem desses imigrantes em cada cidade que passavam. Quando chegaram a Colônia, por exemplo, o jornal publicou a respeito dos imigrantes que se dirigiam para o Brasil, que eles passavam cantando, vestindo trajes típicos. Localizei ainda muitas cartas enviados do Brasil para a Áustria, em que contavam sobre a viagem e também a relação com os empregadores”, conta, ressaltando que a alegria pelo desafio de viver em outro país tinha seus motivos. “A região do Tirol passava por grandes dificuldades na época, com muitas pessoas com fome.”

A felicidade por fugir da pobreza, porém, teve um custo altíssimo, e foi um dos motivos para a cidade ter, hoje, a capela construída pelos então novos moradores. “Foram cinco embarcações a vela que trouxeram os imigrantes para Juiz de Fora. A terceira delas, a Gundela, foi a que enfrentou as maiores dificuldades. Muitos estavam doentes quando embarcaram, e ela foi a que teve a viagem mais longa. Foram 80 dias devido a uma calmaria. Eles sofreram não só pelo mar, pois nunca tinham feito uma viagem do tipo, mas também por uma epidemia de tifo que matou muita gente.”

Passando por um momento dramático, David Larcher e sua família fizeram a promessa de construir uma capela quando chegassem ao Brasil caso sobrevivessem à jornada, e a promessa foi cumprida mesmo com as perdas de entes queridos. “A família Larcher tinha nove filhos, mais uma décima que nasceu no meio do mar. O filho mais velho morreu no dia da chegada ao Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 25 de julho de 1858 (véspera da festa de Santana), e nos dois meses seguintes mais três morreram, incluindo a que nasceu no barco. Mesmo assim eles cumpriram a promessa e construíram a capela.”

Preservação

De acordo com Rita, não há informações documentadas sobre a capela, construída em 1864 e que permaneceu particular até 1954, quando foi doada para a Arquidiocese. O templo foi tombado como patrimônio municipal em 2007. Construída em estilo germânico, com paredes de tijolos aparentes e teto no estilo chalé, ela mantém boa parte do aspecto original. “O interior é que foi mais modificado. As janelas não são as mesmas, o piso de madeira precisou ser trocado por um de ladrilho hidráulico, e o pequeno altar que existia foi perdido por causa de cupins. A porta original se perdeu, mas a atual também é de madeira. E as paredes internas são pintadas de branco, um costume da época.”

No livro, a jornalista conta que uma das descendentes dos Larcher, Josefa Klotz, comprou toda a herança dos irmãos e, ao morrer, seus filhos lotearam e venderam as terras, que geraram o loteamento de Santana. A exceção foi o terreno onde fica a capela e mais quatro ao redor, que foram repassados para a Igreja Católica. “Foi então que começou a se formar o vínculo da comunidade com a capela. Antes ela era aberta apenas na missa no Dia de Santana (26 de julho), quando havia uma confraternização durava o dia inteiro. Aí começou a se celebrar a missa toda semana, e surge o movimento que gera toda uma comunidade católica.” O local atualmente é utilizado para orações e o catecismo, entre outras atividades, devido a seu pequeno tamanho. Para abrigar a comunidade, a Arquidiocese construiu uma igreja maior nos terrenos cedidos.

A vida em um novo país

O livro sobre a construção da Capela de Santana também conta algumas histórias sobre a vida em Juiz de Fora após a chegada dos imigrantes. Eles vieram para a cidade contratados por Mariano Procópio Ferreira Lage, para formar uma colônia germânica por aqui. “Ele fundou a empresa União Indústria, que tinha por objetivo construir a estrada de mesmo nome. Os imigrantes tinham várias qualificações: agricultores, sapateiros etc.”, explica Rita, ressaltando que os contratos que eles assinaram para vir para o Brasil tinham regras específicas, como morar na colônia e seguir as regras estabelecidas. Todos tinham, ainda, que comprar a terra onde iriam morar, e os que não tinham condições financeiras receberam empréstimos de Ferreira Lage para custear as viagens. “Encontrei um documento raro, que é um contrato de trabalho especificando os deveres de cada um, e lá vinha descrito como seria a forma e prazo de pagamento.”

“SANTANA: UMA CAPELA TIROLESA NA COLÔNIA ALEMÃ DE JUIZ DE FORA”

Lançamento do livro de Rita Couto, nesta quinta-feira, às 19h

Capela de Santana

(Rua Herman Toledo 85 – São Pedro)