Ouça agora

No vinho está a música


Por Júlio Black

04/03/2017 às 07h00

 

Tiago Sarmento faz show de pré-lançamento nesta quarta-feira (Foto: Leonardo Costa)
Tiago Sarmento faz show de pré-lançamento nesta quarta-feira (Foto: Leonardo Costa)

Um violão, um bom lugar para relaxar, a companhia de uma garrafa de vinho e uma visão mais otimista da vida: estes foram os elementos que ajudaram o cantor e compositor Tiago Sarmento a gerir sua terceira cria musical. “Folk it!”, terceiro trabalho solo do artista, já está na pista para audição de quem gosta dos trovadores da folk music e a turma com pelo menos um dos pés no melhor do peso do rock dos anos 70.

Além da bolachinha prateada, produzida por meio da Lei Murilo Mendes, os novos sons podem ser conferidos nesta quarta-feira, às 19h, com um show acústico de pré-lançamento da Planet. Mais para frente, em 8 de abril, será a vez do show oficial de lançamento, devidamente eletrificado, no Maquinaria. “O repertório vai ser uma espécie de ‘tributo a mim mesmo’ (risos). Vou tocar todas do novo álbum, algumas covers e uma da cada um dos álbuns anteriores”, adianta. “Já no Maquinaria estarei acompanhado por uma banda.”

Gravado no estúdio Gigante de Pedra, no Rio de Janeiro, “Folk it!” tem produção de Nando Costa. As canções, em sua maioria, foram compostas no ano passado, mas há algumas antiguidades como “Só mais uma vez”, que ficou de fora do segundo disco, “Quando as cores acabarem” (2013); “Obrigado”, parceria com Del Guiducci, do Martiataka (e que ganhou videoclipe em 2016) e “Eu ouvi dizer”. Ao contrário dos trabalhos anteriores, “Folk it!” carrega a energia das “good vibrations”, trafegando essencialmente pelo otimismo e o romantismo.

“Diria que o romantismo presente no disco não é apenas de duas pessoas que se gostam, mas de ‘pessoas que se gostam'”, filosofa. “É sobre o amor entre pessoas, que une amigos. Não se trata apenas do amor romântico. É um contraste com o disco anterior, que era mais pesado nas temáticas, agora eu já me resolvi com meus demônios pessoais.”

Sob as boas influências etílicas

Muito da leveza que se descobre à medida em que as melodias e letras se tornam reais aos ouvidos se deve a um elemento que, no caso de Tiago Sarmento, serviu para esquentar a acalentar a alma: o vinho, mas com moderação. “Quando a gente passa dos 30 tem que tomar conta da saúde, o fígado já não é mais como antes. Eu diminuí a cerveja e descobri que o vinho me relaxa, deixa aquele sorriso de Guy Fawkes no rosto (risos). Aí eu estou em casa, com o violão, tomo um vinho, e as letras ficam mais otimistas. O vinho, aliás, foi tão importante quanto o violão no processo de composição, mas não num sentido alcoólico, não vou sair daqui direto para os Alcoólicos Anônimos (risos). Foi uma musa inspiradora.”
Se músicas como “Segure a onda” e “Uma adega para o fim do dia” deixam transparecer essa felicidade que transborda das taças, embalado pelo folk, o álbum também tem seus momentos de peso, em que a paixão pelo rock dos anos 70 – em especial o Aerosmith – serve para falar de coisa séria. “‘Totem e tabu’ foi a última a entrar no disco, insisti para que entrasse porque remete ao ‘antigo Tiago’, meio ácido. Fiquei apaixonado pelo riff de guitarra, é uma canção com um ritmo pesado, e não poderia ter um tema ameno. É uma crítica aos tabus que existem na sociedade e numa cidade conservadora como Juiz de Fora.”

Outra que também destoa do clima positivo é “Descida para o inferno”, que ironicamente antecede a otimista “Se Deus quiser tudo vai melhorar”. “Todo mundo pergunta por que colocar o Inferno antes de Deus, mas a verdade é que os dois estão ligados nesta dicotomia. Todo mundo vê o Diabo como um cara do mal, que castiga, mas o Deus do Antigo Testamento castigava também. Como ele poderia agir igual ao Demônio?”, questiona Tiago, que se declara “um ateu não praticante”. “Acho que você tem que ir ao fundo do poço, passar pelo Inferno antes de chegar ao Céu. Todo mundo tem Deus e o Diabo dentro de si.”

Quanto a “Se Deus quiser tudo vai melhorar”, que segue a tradição dos antigos folks e blues de títulos longos, o que importa é a fé, não importa de onde ela surja. “Ter fé é preciso. É uma fé diferente, que não perpassa pela religião. É preciso ver que são duas coisas diferentes. A religião é intermediada por homens com tantas qualidades e defeitos como nós. Se você acredita em Deus, Diabo, na ovelha ou na árvore, basta procurar diretamente por eles, e não por um intermediário.”