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Parangolé Valvulado reverencia a pluralidade da Getúlio Vargas

Avenida central de Juiz de Fora é tema do frevo-enredo do desfile do bloco neste domingo


Por Mauro Morais

04/02/2018 às 07h00

Do caos no trânsito aos prédios históricos, Getúlio Vargas é resgatada como inspiração para a cultura local. (Foto: divulgação)

Em uma mesma avenida moram muitas outras. O que não falta à Getúlio Vargas são as saídas. Literais ou não. Construída a pedido de Mariano Procópio, formando um ângulo de 45º com a Rua da Direita (Avenida Rio Branco), a via servia como trecho da Estrada União e Indústria. Banhada pelo Rio Paraibuna durante fortes enchentes, passou a chamar-se Rua do Imperador, em 1880. Com menos de um quilômetro de comprimento, desenvolveu-se como a cidade. Proclamada a República, tornou-se Rua XV de Novembro. Homenageando o político que por tantas e tantas vezes passou pela via e contribuiu para que obras fossem feitas no rio, impedindo seu transbordo, carrega no nome um presidente-ditador e na forma a liberdade. Plural desde o princípio, guardava em sua extensão a cadeia pública, hoteis, bancos e o curioso cinema de João Carriço, que dividia lugar com a funerária e a empresa de carruagens de aluguel de seu pai. Hoje preserva antigas e novas construções e negócios, numa mistura que dá samba, como confirma o Bloco Parangolé Valvulado, que neste domingo (4) desfila, pela segunda vez, na via que resolveu tornar tema de seu frevo-enredo. “Minhas Getulhão é o coração/ da diversidade e tolerância/ carro e busão, camelô e confusão/ é uma canção em dissonância”, canta “Getúlio of my life”.

Segundo um dos fundadores, o músico Angelo Goulart, que comanda a bateria do bloco, a reverência surgiu ainda no carnaval passado. “No final do desfile do ano passado, terminamos com o tema praticamente escolhido, porque foi a avenida que nos permitiu voltar a andar”, diz, referindo-se, também, à ideia de Walter Benjamin acerca do flâneur, tipo frequente numa rua onde deslocar-se a pé pode ser mais rápido do que sobre rodas. “É meu caminho de quase todos os dias. Não tenho carro, sou um pedestre, e a Getúlio é sempre opção do meu trajeto. Se posso escolher entre ela e a Rio Branco, escolho a Getúlio. No meu modo de ver, é uma avenida discriminada. Ela recebe pouca atenção do Poder Público, justamente porque por ali circulam as pessoas mais pobres. Ela está sempre cheia porque tem um fluxo de consumidores, está sempre pulsando”, confirma Roger Resende, um dos vocalistas do Parangolé.

Nas lembranças de Roger está uma receptividade diferente da que se vê em bairros como Alto dos Passos e São Mateus, cujas associações de moradores recusaram a presença dos blocos Come Quieto e Meu Concreto Tá Armado, respectivamente. “Uma coisa que marcou muito o desfile do ano passado, depois de dois anos parado na Praça da Estação, foi ver os moradores da Getúlio descendo dos prédios para receber e acompanhar o público. Foi muito emocionante. Não vejo lugar melhor do que esse, porque temos um bom espaço para concentrar, que é a Praça dos Três (Podres) Poderes, com a estátua do Getúlio Vargas com uma cara feia danada”, observa o cantor e compositor. “Foi amor à primeira vista”, reforça Dani Brito, também, uma das fundadoras e integrante da bateria, que concentra às 12h, executando composições antigas e, às 14h, começa a desfilar, concluindo o trajeto na Praça Antônio Carlos, às 17h30.

‘A Getúlio não tem frescura’

São muitas as cores. Em busca de uma palheta que representasse a Avenida Getúlio Vargas, a responsável pela identidade visual do Parangolé Valvulado, Dani Brito, deparou-se com muito mais do que cinquenta tons de cada cor. “A própria logo se inspirou em vários elementos, com a roupa como se fosse o asfalto, comércio e sinalização. Os parangolés, com tiras de tecido, enfoca a multiplicidade de estampas e brilhos, com um visual bem eclético. As maquiagens faciais vão ser como uma aquarela de cores”, pontua ela, que identificou o padrão justamente na ausência dele.

“De tanta informação, ela (a avenida) acaba ficando harmônica. Os prédios antigos acabam combinando com o mix de variedades. Isso está colocado na identidade estética da rua. O contraste ajuda a manter um estilo peculiar. Não é uma rua programada visualmente. Ali transparece o movimento da cidade”, comenta Dani, que também é coordenadora do curso de design gráfico do Centro Universitário Estácio de Juiz de Fora e professora do Instituto de Artes e Design da UFJF, além de assinar a marca própria Mercado da Salvação.

Para Angelo Goulart, a identificação entre os artistas que formam o grupo e a via vai além da “loucura de ver o Mc Donalds, a Subway, um camelô em seguida, a loja do candomblé mais à frente”. O belo está sempre observando o caos. “É uma avenida com uma arquitetura muito bonita, e isso pesou muito na nossa decisão”, diz, referindo-se ao trecho da cidade que preserva todos os principais estilos arquitetônicos de Juiz de Fora. Expoente do ecletismo, o prédio do extinto Banco de Crédito Real, projetado pelo engenheiro-arquiteto Luiz Signorelli, fronteia a edificação modernista assinada por Oscar Niemeyer onde, no térreo, está uma agência do Banco do Brasil. Dois bens imóveis protegidos pelo município no mesmo encontro entre Getúlio Vargas e Halfeld. No total, a via possui 11 imóveis tombados, o equivalente a mais de 5% dos prédios cuja preservação é assegurada por lei na cidade. Outros dois, inclusive, conservam a história da arquitetura e também cultural de Juiz de Fora.

Ser ponte ou ser divisa

O punk não seria o mesmo na cidade se não tivesse encontrado o DCE, na esquina da Floriano Peixoto com a Getúlio, como casa. “Foi um espaço para a cultura alternativa da cidade e para a noitada, também. Era um lugar da boemia, onde as ideias fluíam. A primeira fase, como bar, nos anos 1980, foi importante para o nascimento do movimento punk. O bar era do Chico Amieiro (chamou Bar DCE e depois NAC – Núcleo de Ação Cultural), com aquela galera da Virgínia (Loures) e da Márcia (Carneiro). Era um espaço que reunia a galera do punk e do pós-punk, do dark. O (grupo) I.D.R. ensaiava no DCE. Ao longo das várias gerações, ele foi sede de outros espaços, como o Efeito Laranja e, nos anos 1990, ficou ligado ao metal e à galera do hip hop”, resgata Edson Leão, vocalista do Eminência Parda e do Parangolé Valvulado. “Um dos primeiros shows do Eminência, que tocava pós-punk e MPB, foi num evento chamado Quinta Maldita, juntando outras bandas como Corrente Sanguínea, de Leopoldina. Vieram bandas alternativas de outras cidades tocar no DCE, como o Liberdade Condicional e a Crucifix.”

Décadas mais tarde, o mesmo Eminência Parda decidiu gravar seu primeiro DVD num prédio na mesma avenida, o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, cuja trajetória de luta para que a fábrica de tecidos transformasse em espaço da cultura inscreveu-se na história da urbe. “Talvez tenha sido um dos mais fortes movimentos por agregar um número grande de pessoas do meio cultural. Vieram pessoas de peso, como o Affonso Romano de Sant’Anna. Era uma expectativa grande de que aquele lugar se transformasse numa fábrica de cultura. Depois de criado, ele teve grandes momentos, recebeu eventos de porte nacional. O Chico Buarque se apresentou no pátio. Os festivais de rock eram realizados lá. Onde hoje é o estacionamento, era utilizado para shows. DeFalla, Picassos Falsos e outras bandas de vanguarda também tocaram lá”, recorda-se o jornalista e músico.
Para Roger Resende, o que a Getúlio Vargas produz como experiência é substrato para a produção artística. “Como compositor, me inspiro muito no cotidiano. O som urbano é como o de outros lugares. É barulho de ônibus, de camelô, de muita conversa. O que me chama atenção é que a Getúlio não tem frescura”, ri. “Vemos uma senhora de salto toda arrumada e outra de chinelo de dedo, todo mundo fazendo compras nas lojas e nas barraquinhas dos camelôs”, reforça Angelo Goulart. União ou diáspora? “A Getúlio é muito interessante como a faixa que divide a cidade socioeconomicamente privilegiada e uma outra área, mais real”, responde Edson Leão, chamando atenção para as muitas avenidas que a Getúlio tem: “Ali é tanto um divisor que significa o apartheid da cidade como um espaço de encontro das várias faces de Juiz de Fora, o lugar onde quebra a dicotomia.”

Letra do frevo-enredo do Parangolé Valvulado 2018

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Getúlio of my life

Parangolé
Hoje tem lugar pra desfilar o carnaval
Na Getúlio Vargas
O babado é doido, mas a escola é Normal

E no DCE, mosh e birita
Na noitada rock and roll
Ninhos de amor por toda a avenida
Aqui não tem pecado, o carnaval já começou

Válvulas vão afinando nossa vibração
Apoteose entre a Halfeld e a São João

Minhas Getulhão é o coração
Da diversidade e tolerância
Carro e busão, camelô e confusão
É uma canção em dissonância

Todo mundo passa
Nessa babilônia que recebe os caminhos
Solidariedade
Todo mundo junto tolerando seu vizinho

E o nosso frevo
É um arco íris colorindo a cidade
Do chapelão até Mascarenhas
Nós vamos transbordando alegria, paz e amor

Avenida Getúlio Vargas
É no asfalto queimando agora
Inesquecível com seus monumentos
Ôh que Gloriosa

Uh! Uh! Parangolé! Uh! É noix aqui! (4X)

Na praça cercada por podres poderes
Vem nosso grito a todo vapor

De bloco em bloco em bloco
A tristeza vai embora (3X)

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