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Outras ideias com palestino Mahmud Adel Hassan Mozahem


Por Mauro Morais

02/04/2017 às 03h00

mahmude leo

“Sabe o que significa islã?” O autor da pergunta é quem dá a resposta: “A raiz dela é salam, que em árabe significa paz. Sabe o que significa o cumprimento dos mulçumanos? Salaam Aleikum? Significa ‘Que a paz de Deus esteja contigo!’. Sabe o que significa muçulmano? Pacífico.” Aos 29 anos, Mahmud Adel Hassan Mozahem (o segundo nome é o do pai, o terceiro, do avô e o último, sobrenome de família) faz do discurso pacificador seu sentido maior. Vítima de opressão, sujeita-se a ser visto como algoz justamente para difundir a bandeira branca que o Ocidente insiste em não enxergar no Oriente. “Será mesmo que quero guerra? Quando abre o Alcorão tem um versículo que diz: se um crente matar outro crente intencionalmente, planejando matar, sua recompensa será o inferno e a ira de Alá será sobre ele, e ele será uma pessoa amaldiçoada. Aquelas pessoas do Estado Islâmico, que matam muçulmanos, não são islâmicos”, sustenta o homem de feições incapazes de negar sua origem palestina.

Há quase três anos morando no Brasil, Mahmud encontrou num povo de cultura tão distinta da sua o valor que persegue dia a dia. “O Brasil nunca entrou numa guerra contra outro país. Esse país quer paz mesmo. O povo brasileiro não leva a vida tão a sério. (Ele pensa:) não quero saber se está acontecendo lá fora, quero ver sábado chegar para eu me divertir, fazer festa e churrasco. Gosto disso. O povo brasileiro quer ser feliz, mesmo com muita dificuldade de viver, com o salário mínimo muito baixo. Ele só quer felicidade”, sugere ele, apontando, ainda, a informalidade como esse acréscimo à leveza brasileira. “Quando cheguei, percebi que eles chamam o Lula de Lula mesmo. Nem senhor, nem senhora. Não falam Senhora Dilma, Senhor Temer. É um povo simples, que diz: Somos iguais!”

Al fath – O triunfo

Hubb, em árabe, é amor, palavra que, hoje, Mahmud conjuga com saudade. “Minha noiva vai vir ano que vem. Queria fazer o casamento neste ano, mas tenho o documento de refugiado e, nesse governo novo todas as coisas foram desfeitas e eu não posso mais sair e voltar com o mesmo documento. Tenho que fazer o casamento em Palestina, com minha família. Falei com ela para esperar até ano que vem para saber o que vamos fazer. Ela me gosta muito. Se fosse outra pessoa, acho que não ficaria”, diz ele, apontando para as relações amorosas como fator de maior impacto cultural. “Adorei o Brasil, o povo, a cultura. Mas tive problemas. É natural, porque quando se sai de um país, tudo é diferente no outro. Quando cheguei não sabia o que significava namorar”, ri. “Não entendia, porque em nossa cultura no noivado não pode fazer relação com a mulher. Aqui, namorado pode até ter filhos”, critica. “Namorar e depois ter filho e depois separar. Esse filho vai sobrar para quem? Quem vai criar ele? A responsabilidade é para ela e para ele. No islã, a gente casa não só para ter uma relação sexual, mas para criar uma família, para um ajudar o outro, para criar filhos para serem as melhores pessoas e defender o país”, acrescenta, pontuando que “beleza não é tudo, tem que ter comportamento, educação, nível de ensinamento”. Adultério é pecado, adverte, chamando atenção, também, para a noção de que namorar é como “experimentar a mulher”. Ainda que sejam cinco as orações às quais Mahmud se dedica como profissional e como islâmico, a religião é norte, mas não é cela, garante. “Você deve ter uma hora para sua família, uma hora para você e uma hora para Deus”, enumera o homem que guarda tempo para fazer as próprias receitas culinárias. Como não come carne de porco, as refeições na rua são sempre arriscadas. E o xeque prefere seu diversificado cardápio. “No primeiro mês de Brasil, na casa da família do amigo, todo dia tinha arroz e feijão. Falei para eles: ‘Desculpa, mas vocês não tem dinheiro para comprar outra comida?’ Na minha cultura, a gente faz uma comida e depois fica sem fazer por um mês. Se eu comi feijão hoje, não vou comer amanhã. Não gosto de rotina para comer”, brinca, mostrando as fotografias de seus pratos, todos partilhados. “Para nós, é falta de respeito colocar num prato e comer sozinho.”

Al haij – A peregrinação

Ramalá, a cidade onde Mahmud nasceu, significa “Monte de Deus”. “Fica a quase uma hora longe da cidade de Belém, onde Jesus nasceu”, conta. “Somos uma família com sete irmãos, todos formados, cada um com uma especialidade. Estudei teologia e ciência islâmica, a comparação entre as religiões. Três religiões: islamismo, cristianismo e judaísmo. Tenho uma irmã advogada, outra professora de física, outra é contadora, outro é professor de matemática. O povo palestino gosta de estudar. O povo palestino sempre tem na cabeça quem dominou o país e pensa: não vou parar de lutar, seja com arma, seja com caneta”, comenta o homem que em 2008, formado, saiu da casa dos pais para trabalhar em mesquitas de seu país. “Sabe, irmão, tenho paz na minha casa, mas Israel está circulando o povo palestino em toda a possibilidade dele. Israel construiu um muro ao nosso redor. É como se fizessem um muro ao redor de Minas Gerais e, para sair de São Paulo, é preciso esperar duas horas nesse portão para entrar. Olha quanta humilhação do povo israelense para o povo palestino! Eles atacaram a Faixa de Gaza quatro vezes, matam crianças por nenhum motivo”, lamenta ele, que, sufocado, procurou refúgio no Brasil. “Eu pensava: aqui na Palestina não vou avançar. Eles (os israelenses) colocaram limites, e eu não vou passá-los. Quero fazer um futuro.” Com o que chama de “o pior passaporte do mundo”, Mahmud conseguiu um convite e um fiador e, em 2014, desembarcou em Porto Alegre. “Comecei a trabalhar de segurança, em estoque. Comprei livros, fui estudar. Em um mês, consegui sair da casa da família que me recebeu”, recorda-se ele, que também dava aulas de árabe e religião, o que acabou lhe fazendo conhecido na capital gaúcha. Daí o convite para assinar contrato de três anos com a Mesquita Islâmica de Juiz de Fora, na qual é o xeque (cheikh).

Al falac – A alvorada

Aihtiram e respeito significam o mesmo. Mas nem tudo que se assemelha, segundo Mahmud, é percebido. “Você está criticando a roupa das meninas (islâmicas), mas sua freira, na igreja, está usando uma roupa igual. A imagem de Maria não está usando regata, está usando lenço. O povo critica sem consciência”, reclama o xeque, demonstrando que injustiça é o mesmo que desrespeito. “Os Estados Unidos, desde o domínio do Iraque até agora, você sabe quantas pessoas mataram? Quase um milhão de iraquianos. Na prisão de Abu Ghraib castigam o povo, jogam água quente, estupram homens e mulheres, colocam cachorros para estuprar, cortam as partes íntimas, matam de frio e de calor. Já mataram quase 50 mil. E a mídia não mostra nada”, indigna-se o homem que, na mesquita, oferece aulas de árabe e religião, além das orações diárias. O xeque, porém, é apenas uma pessoa informada, defende. “Não sou a pessoa mais abençoada da cidade. Sou uma pessoa errante também. Não fui escolhido por ninguém, eu é que escolhi a mim mesmo para ser assim. E isso é uma responsabilidade. Somos iguais, seres humanos.” E com o que sonha o líder religioso que desde sua chegada a Juiz de Fora converteu cinco novos fiéis? “Não quero ser presidente, não quero ter mais responsabilidades. O que tenho é a maior coisa que posso imaginar: ensinar uma pessoa. Quero ficar aqui, quero ajudar as pessoas, quero fazer uma família, ter uma vida normal, como uma pessoa normal.” O que ser normal significa? Paz, nada mais.