Novos papéis em um país não tão diferente assim
O Festival Primeiro Plano apresenta, no quarto dia de exibições, nesta quinta-feira, o longa-metragem “Deserto”, estreia do diretor teatral, ator e roteirista Guilherme Weber no ofício de cineasta. O filme, que será exibido no Palace 1, às 21h, é adaptação livre do romance “Santa Maria do Circo”, lançado pelo mexicano David Toscana em 1998, com roteiro escrito pelo próprio Guilherme e Ana Paula Maia.
A história deixa o deserto mexicano e passa a ser localizado no sertão nordestino, com a trupe mambembe de palhaços sendo trocada por velhos comediantes. Ao localizar um vilarejo abandonado, eles discutem suas opções e decidem ficar por lá, fundando uma nova comunidade – ou país. Neste novo lar, porém, eles passam a interpretar novos arquétipos, decididos por sorteio, que vão revelar aos artistas alguns dos piores vícios e modo de agir da chamada “vida civil”.
Para a gravação do longa, a equipe ficou um mês na cidade de Patos, na Paraíba, e mais 24 dias no vilarejo de Vila de Picotes, que serviu de cenário para a comunidade imaginária pertencente a lugar algum. Para o elenco, o diretor Guilherme Weber contou com nomes como Lima Duarte, Everaldo Pontes, Cida Moreira, Everaldo Pontes e Magali Biff, e já coleciona algumas premiações. “Deserto” conquistou cinco prêmios (filme, roteiro, figurino, caracterização, ator para Everaldo Pontes e atriz para Magali Biff) na Mostra Parada de Cinema, no Piauí; o Festival de Brasília deu o prêmio de melhor direção de arte para Renata Pinheiro e melhor direção no Los Angeles Brazilian Film Festival.
A cara do Brasil
Representante do filme no Primeiro Plano, Magali Biff trabalha com Guilherme Weber desde 2005 na Sutil Companhia de Teatro e comentou sobre suas impressões a respeito do primeiro trabalho do colega por trás das câmeras. “O Guilherme é um apaixonado por cinema. Se você faz algo com muita paixão, aliado a talento e inteligência, as chances de dar certo são bastante grandes. Penso que ‘Deserto’ é um filme muito acima do que se costuma ver no cinema brasileiro, um filme de arte que reuniu uma equipe de primeira, como Renata Pinheiro, Kika Lopes, Ruy Poças… Um elenco muito bom, um filme de arte que continuará sendo apreciado daqui a dez anos ou mais. E o Guilherme é muito aberto a sugestões, mas foi para o set sabendo muito bem o que queria”, elogia.
Magali demonstra um carinho todo especial por sua personagem, Alma. “Ela é toda interessante. De todos os personagens, é a única que no sorteio dos papéis – que ocorre na fundação da cidade – não consegue assumi-lo cem por cento. Ela não se desliga totalmente do seu papel de artista, que carrega muitos desafios na sua execução.”
O processo de filmagens inclui uma longa temporada no árido calor do sertão nordestino. “Tivemos uma imersão absoluta nesses personagens, nessa fundação dessa cidade para chegar à conclusão, pelo menos para mim, do quanto a arte é fundamental na sociedade como instrumento de reflexão”, analisa. “Quando esses artistas deixam de ser artistas e passam a viver apenas como civis, eles vão reproduzir ou encenar as mazelas dessa sociedade civil doente, desumanizada, desigual; eles se matam, perdem o rumo. É um filme que engrandece nosso ofício, um grito de alerta sempre bem-vindo e necessário.”
E o quanto esse país é parecido com o nosso Brasil? “Pois é, o país do filme não é idealizado; ele é esse com que nos deparamos todo dia: cruel, desigual, preconceituoso. O filme fala desse Brasil.”










