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Tenho comorbidade: posso ser vacinado agora? Médicos esclarecem

Condições cardíacas e respiratórias têm gerado busca por atestado médico para vacinação


Por Leticya Bernadete

11/05/2021 às 07h38

Nesta segunda-feira (10), a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) iniciou a vacinação contra a Covid-19 em pessoas com comorbidades e deficiências permanentes. Em meio aos diferentes grupos previstos no Programa Nacional de Imunizações (PNI), há incertezas entre os juiz-foranos sobre quais fatores de risco justificam o recebimento do imunizante, especialmente relacionados a problemas cardíacos e respiratórios. A Tribuna conversou com especialistas para esclarecer dúvidas sobre quem poderá se vacinar a partir desta semana, e eles relataram uma alta demanda por laudos que comprovem as comorbidades ao longo da última semana.

No caso das condições cardíacas, o principal questionamento está em relação à hipertensão arterial. Conforme apontado pelo cardiologista e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), José Dondici, e previsto na descrição dos grupos de comorbidades da PJF, para o paciente ser considerado grupo de risco para a Covid-19, é necessário que ele tenha hipertensão arterial resistente, ou seja, aquela em que há maior dificuldade de tratamento. “Ela é classificada como resistente a partir do momento que o paciente toma, pelo menos, três medicamentos para pressão na dose máxima recomendada. Esse é considerado grupo de risco. Se ele controla a pressão com um medicamento, não é considerado grupo de risco.”

Entretanto, os pacientes hipertensos que possuam uma lesão de órgão alvo – comprometimento renal, cerebral ou cardíaco – também são candidatos à vacinação contra a Covid-19. De acordo com Dondici, outras doenças associadas à hipertensão, como diabetes e obesidade, também justificam a imunização. O mesmo ocorre no caso da arritmia cardíaca, onde também é preciso ter uma cardiopatia associada.

As demais doenças, como insuficiência cardíaca, cor-pulmonale, cardiopatia hipertensiva, síndromes coronarianas, valvopatias, miocardiopatias, pericardiopatias, doenças da aorta, cardiopatia congênita, ou portadores de próteses valvares e dispositivos cardíacos, também estão previstas no plano de imunização contra o coronavírus. “São doenças, por si só, mais graves, então sozinhas justificam a vacinação”, aponta o cardiologista.

Na página onde é realizado o pré-cadastro de pessoas do grupo para vacinação, a Prefeitura disponibiliza um quadro com o detalhamento de cada comorbidade atendida a partir desta segunda.

Prevenção

Como destacado por José Dondici, a vacinação contra a Covid-19 previne os pacientes de doenças cardíacas. No caso, quando há o acometimento pelo vírus, ocorre um aumento de incidência de doenças clínicas caso a pessoa possua uma tendência para tal. “O coronavírus não precisa afetar o coração, como ocorre eventualmente, mas o processo inflamatório sistêmico gerado facilita a eclosão de uma doença que o indivíduo já apresenta. Então a vacina é importante, porque como ele não tem a virose, ele não tem esse fenômeno inflamatório depois”, destaca.

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Imunização prevê pacientes com asma grave

Outro fator que tem gerado dúvidas é sobre os pacientes asmáticos. O PNI prevê que, neste caso, são apenas pacientes com asma grave, ou seja, que fazem uso recorrente de corticoides ou que já tenham sido internados por crise asmática. De acordo com o alergista e imunologista Aristeu José de Oliveira, a Sociedade Brasileira de Pneumologia prevê que, no país, há cerca de 20 milhões de asmáticos. Já dados do Datasus apontam que, por ano, ocorrem 350 mil internações devido à doença.

“Em um universo de 20 milhões de pacientes, você tem 350 mil internações por ano. Embora esse número de internações seja importante, a porcentagem de asma grave é uma porcentagem menor. Hoje, as pessoas têm mais acesso à medicamentos de asma, medicamentos que estão na farmácia popular, e os próprios profissionais de saúde estão mais bem informados sobre a doença, conseguindo um controle maior”, explica o médico. “Quando o Ministério da Saúde fez essas diretrizes para vacinação e falou de comorbidades, ele colocou asma grave com histórico de internações e uso de corticóide oral. O corticóide é uma droga que, quando você começa a usar muito, tem efeitos colaterais importantes.”

Procura por atestado

De acordo com Oliveira, houve uma generalização quanto à comorbidade prevista pelo plano de imunização, sem um esclarecimento de que, no caso, o que justifica a vacinação é a asma grave. Com isso, tem acontecido uma corrida nos consultórios médicos para solicitação de atestado da doença. O imunologista explica que esse pedido é um direito do paciente, mas como o documento será utilizado, é responsabilidade de quem solicitou. “Os pacientes pedem o atestado achando que vão poder tomar a vacina, mesmo que nós explicamos que a vacina é só para os casos graves”, diz.

Desta forma, o profissional manifesta uma preocupação sobre possíveis problemas durante a semana a respeito das comorbidades previstas para a vacinação da Covid-19. “É preciso ter uma campanha explicando o tipo de asma, o tipo de hipertensão, o tipo de diabetes, ou o tipo de problema que realmente tem direito, porque vai ficar muito difícil para aquela pessoa que está lá aplicando a vacina”, diz.

PJF garante checagem de documentação comprobatória

Em contato com a reportagem, a Secretaria de Saúde (SS) da PJF garantiu que “há doses suficientes para aplicar no público definido”, mas que a ampliação dos grupos vai depender da entrega de mais vacinas pelos governos federal e estadual. Questionada sobre o número de pessoas com comorbidades que realizou o pré-cadastro no portal da PJF, a secretaria preferiu não divulgar “pois esse cadastro ainda está aberto. Qualquer informação é um retrato de momento e poderia gerar interpretações erradas sobre o total de pessoas”, justifica, em nota.

A pasta ainda lembrou que as comorbidades que permitem acesso à vacinação estão especificadas no site e nas redes da Prefeitura, bem como a documentação necessária para comprovar que o indivíduo está no grupo prioritário atendido. Por fim, a pasta municipal destacou que “a vacinação se dará mediante entrega de atestado médico ou declaração, informando a comorbidade; receita de um medicamento de uso contínuo, usado no tratamento ou outro documento que identifique o acompanhamento da condição crônica ou comorbidade listada. Todos eles têm que ter sido emitidos há, no máximo, 12 meses. A documentação será checada no momento da vacinação”, garante.

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