Tópicos em alta: eleições 2022 / coronavírus / vacina / polícia / obituário

Insônia aumenta demanda por remédios para dormir

Entenda em que casos a prática é recomendável e que cuidados devem ser tomados; pandemia aumentou número de brasileiros usando remédios para dormir


Por Elisabetta Mazocoli, estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa

08/05/2022 às 07h00- Atualizada 09/05/2022 às 07h56

De acordo com a Associação Brasileira do Sono (ABS), cerca de 73 milhões de brasileiros sofrem com problemas de insônia. Durante o agravamento da pandemia, uma pesquisa do Instituto do Sono indicou que a situação se tornou ainda mais recorrente – cerca de 70% da população passou por dificuldades para pegar no sono. Isso fez com que muitos indivíduos tivessem que buscar ajuda médica, passando a utilizar remédios para dormir. Para ter segurança durante o uso, no entanto, é preciso entender em que casos a medicação é recomendável e que cuidados devem ser tomados.

Alexandre de Rezende explica que a insônia ocorre quando o padrão ou a qualidade de sono não é capaz de fazer o indivíduo descansar (Foto: Pedro Salgado)

Segundo o médico psiquiatra do Hospital Universitário (HU-UFJF/Ebserh) e professor da UFJF Alexandre de Rezende, a insônia ocorre quando o padrão ou a qualidade de sono não é capaz de fazer o indivíduo descansar. “É o que chamamos de sono não reparador. A pessoa ainda acorda cansada e tem repercussões disso ao longo do dia, com dificuldade de concentração, alteração do humor, apetite e cansaço”, explica.

Nesse sentido, o psiquiatra alerta que grande parte dos casos estão relacionados a transtornos psiquiátricos, as chamadas insônias secundárias. “Os quadros de depressão e ansiedade, por exemplo, geram a insônia como um sintoma.” A pandemia provocada pelo coronavírus, avalia, contribuiu para a redução na qualidade do sono. “O cenário da pandemia aumentou o estresse, causando preocupações, como o medo de contaminação e a perda do emprego”, explica.

Para o médico psiquiatra Glauco Corrêa de Araújo, diretor da Vila Verde Saúde Mental, há outros motivos que podem estar causando o aumento de relatos de insônia. “Nos tempos atuais, há intenso crescimento de cobranças e responsabilidades no mercado de trabalho, em termos de performance e compromissos financeiros, fazendo com que o indivíduo fique cada vez mais exposto a uma sobrecarga excessiva em diversos âmbitos de vida”, diz. Para ele, isso causa um quadro de autocobrança excessiva, que pode causar danos à saúde mental, inclusive fazendo com que o indivíduo relute em buscar ajuda.

Higiene do sono

Antes de prescrever remédios para dormir, os especialistas destacam a importância da higiene do sono, que, de acordo com Glauco, “é uma prática comportamental que inclui uma mudança de hábitos diários para preparar o corpo e a mente para o sono”. Para atingir esse objetivo, o psiquiatra explica que é preciso adotar hábitos, como manter uma rotina de sono, não ingerir cafeína ao final do dia e criar um ambiente confortável para dormir (silencioso, escuro e com temperatura agradável). Além disso, é muito importante evitar o consumo de bebidas alcoólicas, cochilar durante o dia, deitar antes da hora habitual, não usar telas antes de dormir e evitar refeições pesadas à noite, dentre outros cuidados.

Na visão de Rezende, esses cuidados costumam gerar ótimos resultados. “A atividade física, por exemplo, é um dos melhores tratamentos para insônia. Também é muito importante ter contato com a luz do sol, porque o nosso cérebro consegue identificar o que é luz (dia) e ausência de luz (noite).” Ele explica que, quando o cérebro percebe que a luminosidade está caindo, ele tem uma série de reações que induzem ao sono.

LEIA MAIS

O conteúdo continua após o anúncio

Recomendações para uso de remédios para dormir

De acordo com o psiquiatra Alexandre de Rezende, o tratamento com remédios para dormir é indicado quando as medidas de higiene do sono não estão sendo suficientes. E a insônia começa a ter impacto negativo na saúde física e mental da pessoa. Neste momento, é importante procurar um profissional especializado, como psiquiatra ou neurologista, para identificar o motivo da dificuldade de ter um sono reparador. “Quando se faz esse diagnóstico, é possível tratar a causa do quadro. Se é uma depressão, vamos tratar a depressão; se é ansiedade, vamos tratar a ansiedade”, diz.

Atualmente, os principais remédios indicados são aqueles com capacidade de diminuir a excitação e com propriedades sedativas, apresentando potencial de induzir e/ou manter o sono. Destes, existem os benzodiazepínicos, os hipnóticos não benzodiazepínicos e remédios de outras classes que apresentam potencial sedativo. Dentre eles, o especialista explica que os mais específicos e seguros para a indução do sono são os da categoria de hipnóticos. Além disso, ele acrescenta que as medicações de benzodiazepínicos, conhecidas como medicações dos “pam” (como diazepam, clonazepam e bromazepam), são menos recomendáveis pelo potencial de dependência.

Rezende ressalta que a prescrição deve ser feita por um profissional, e que o paciente “não deve fazer uso da medicação por conta própria”. O especialista ressalta que a medicação bem indicada é segura e pode ser utilizada sem maiores problemas. “Logicamente, os medicamentos não devem ser utilizado por um tempo muito prolongado”, adverte

Efeitos adversos e abuso de medicação

Glauco Corrêa de Araújo destaca que sobrecarga e autocobrança excessivas fazem com que indivíduo adoeça (Foto: Arquivo pessoal)

O psiquiatra Glauco explica que os principais remédios utilizados para insônia podem causar sedação. Ela é percebida pela lentificação psicomotora, comprometimento cognitivo, prejuízo da memória e depressão respiratória. Também são sintomas a perda do equilíbrio com maior predisposição a quedas, zumbidos, tontura, tolerância e dependência.

Ele ainda ressalta que todos esses efeitos podem ser sentidos por qualquer paciente em uso. Mas afirma: “não são ainda mais frequentes em idosos, sendo, portanto, uma população que deve evitar o uso”. Os medicamentos também devem adotados com cautela por gestantes, pessoas que têm doença renal, hepática, pulmonar e indivíduos que fazem uso abusivo de álcool.

Além disso, o especialista afirma que é fundamental avaliar a rotina, sobretudo laboral, de cada paciente. “Sendo arriscado naqueles que trabalham com atividades que exigem tomada de decisão rápida e atenção, como motoristas, operadores de máquinas e bombeiros, por exemplo”.

Glauco também destaca que a prescrição inadequada, sem acompanhamento médico, e o uso abusivo podem ocasionar diversas complicações para os pacientes. Dentre elas, é possível citar a intoxicação aguda, quando ocorre overdose, podendo até mesmo ser letal – sobretudo se estiver associada ao uso de outras substâncias. Uma pequena parcela dos pacientes também pode ter síndrome de abstinência. Isso ocorre quando são observados sintomas graves de alucinações e convulsões, e síndrome de dependência da substância. Nesse caso, os efeitos adversos citados podem ser graves, “ocasionando intercorrências irreversíveis”.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade pelo seu conteúdo é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Desenvolvido por Grupo Emedia