Ouça agora

Pesquisa mostra quem mais está deixando de pagar as contas no Brasil e revela a relação entre renda familiar, dificuldade financeira e aumento da inadimplência

Apesar da queda na inadimplência, as dívidas atrasadas permanecem mais tempo sem pagamento e comprometem quase 30% da renda familiar mensal.


Por Bernardo Teixeira

09/10/2026 às 17h08

Pesquisa mostra quem mais está deixando de pagar as contas no Brasil e revela a relação entre renda familiar, dificuldade financeira e aumento da inadimplência
Foto: Nicola Barts/Pexels

A proporção de lares brasileiros com dívidas a vencer recuou de 82% para 81,7% entre agosto e setembro, dado da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. É a primeira retração registrada pelo levantamento desde dezembro de 2025. Entre as famílias com renda superior a 10 salários mínimos, porém, o movimento foi inverso: a inadimplência subiu.

Na faixa de renda de até 3 salários mínimos, cujas famílias costumam ter menos folga no orçamento, o percentual de inadimplentes recuou de 38,8% para 38,5%. Na faixa de 3 a 5 salários mínimos, o indicador recuou de 28% para 27,8%. Entre as que ganham de 5 a 10 salários mínimos, caiu de 20,3% para 20,2%.

A única exceção ocorreu entre as famílias com renda acima de 10 salários mínimos. Esse foi o único dos quatro grupos em que a inadimplência aumentou.

Mãos usando uma calculadora rosa para gerenciar despesas entre vários recibos e documentos.
Foto: https://kaboompics.com//Pexels

Dívida não é sinônimo de crise financeira

Endividamento e inadimplência são conceitos distintos que costumam ser confundidos. Quando uma pessoa parcela uma compra no cartão ou paga um financiamento em dia. Ela entra na estatística de endividamento, o indicador capta qualquer família com algum compromisso ativo, seja crédito pessoal, cheque especial ou carnê de loja.

A inadimplência marca apenas quem deixou de honrar a dívida no prazo acordado.

Desde dezembro de 2025, o endividamento havia crescido continuamente, atingindo pico de 82,2% entre abril e maio. A queda de setembro sinaliza uma pausa nesse movimento. A Confederação Nacional do Comércio estima que o ano termine com o indicador em torno de 81,5%, relativamente controlado em comparação aos níveis mais altos registrados.

Atrasos crescem apesar da melhora numérica

A proporção de famílias com contas vencidas caiu de 29,9% para 29,6% entre agosto e setembro, abaixo dos 30,5% registrados um ano antes. O percentual de quem declarou não ter condições de pagar débitos atrasados manteve-se em 12,5%, também abaixo dos 13% de setembro de 2025. A proporção de famílias muito endividadas recuou de 17,9% para 17,3%.

Um dado preocupante, porém, contradiz esse quadro: o tempo de atraso cresceu. Em setembro, as dívidas permaneciam sem pagamento por uma média de 65,3 dias, o período mais longo desde novembro de 2024, quando ficou em 65,5 dias. Além disso, 48,9% das dívidas em atraso ultrapassavam 90 dias, o que dificulta a recuperação desse crédito pelos credores.

Close-up de uma nota com a inscrição 'Pagar dívida' ao lado de uma caneta vermelha sobre um tecido xadrez, enfatizando lembretes financeiros.
Foto: Towfiqu barbhuiya/Pexels

Quem se livra das dívidas e quem segue apertado

A parcela de brasileiros conseguindo ficar sem compromissos financeiros aumentou de 17,4% em agosto para 18,1% em setembro. Essa expansão sugere que parte das famílias recupera espaço no orçamento, possivelmente impulsionada por um mercado de trabalho que continua resiliente.

Programas de renegociação, como o Desenrola Brasil 2, que permitem alongar prazos. E reestruturar pagamentos, também podem estar contribuindo para essa melhora ao transformar dívidas de curto prazo em compromissos de longo prazo.

Ainda assim, o alívio é limitado para a maioria, e em média, as famílias destinam 29,6% da renda mensal ao pagamento de dívidas, o que deixa pouco espaço para outras necessidades. Para 19,4% das famílias, mais da metade do rendimento fica comprometida. É o maior nível desde fevereiro, quando chegou a 19,5%.

Mesmo as famílias com emprego regular sentem essa pressão sobre o orçamento.