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Concurso com 3 mil vagas é anunciado para a Polícia Civil, mas sindicato aponta déficit de 7 mil profissionais

Editais devem sair ainda em 2026, mas ainda não há prazo para chegada dos novos policiais às delegacias


Por Pâmela Costa

08/10/2026 às 18h58- Atualizada 08/10/2026 às 18h59

mateus simoes leonardo costa
Candidato à reeleição, Simões terminou a corrida eleitoral de 2026 com a quarta colocação, tendo recebido 4,65% dos votos válidos (Foto: Leonardo Costa)

Na reta final da gestão, o governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), anunciou um novo concurso com 3 mil vagas para a Polícia Civil e a nomeação de candidatos excedentes de seleções em vigor na segurança pública. As medidas, apresentadas durante uma reunião de transição nesta terça-feira (6), foram recebidas com “reserva e cautela” pelo Sindicato dos Escrivães de Polícia Civil do Estado de Minas Gerais (Sindep), que aponta um déficit superior a 7 mil profissionais na corporação e cobra mudanças estruturais para enfrentar o problema.

Transmitida pelo YouTube, a reunião marcou o anúncio de ações que o governador pretende encaminhar antes de transferir o comando do Poder Executivo mineiro a Cleitinho Azevedo (Republicanos). Além das contratações, Simões defendeu a continuidade de programas de segurança pública desenvolvidos durante a atual administração.

Para o presidente do Sindep, Marcelo Horta, a ampliação do efetivo é necessária, mas não suficiente. “A recomposição do efetivo é indispensável, mas ela precisa estar inserida em um projeto muito maior de reestruturação da Polícia Civil”, afirma. Ele considera necessária a nomeação dos candidatos excedentes dos concursos em vigor, mas pondera que a medida, isoladamente, não será suficiente para enfrentar a falta de profissionais.

Horta defende que a recomposição do efetivo seja acompanhada de uma reestruturação das carreiras e dos processos de trabalho, conforme as diretrizes estabelecidas pela Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis. Segundo a entidade, a defasagem no quadro de profissionais reflete problemas estruturais acumulados ao longo de sucessivas gestões e que se estendem há mais de uma década.

Entre o anúncio do novo concurso e a chegada de mais policiais às delegacias, porém, ainda há etapas sem prazo definido. Nesta quinta-feira (8), a chefe da Polícia Civil de Minas Gerais, Letícia Baptista Gamboge, divulgou um vídeo informando que os editais dos novos concursos serão publicados ainda em 2026. Por enquanto, não há informações sobre a distribuição das vagas ou o calendário de nomeações.

Em contato feito pela Tribuna de Minas, a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag-MG) informou que já foram iniciados os procedimentos para viabilizar as nomeações. No entanto, não foram fornecidos detalhes quanto a quais cargos serão contemplados nem quando os profissionais poderão ingressar na corporação.

Déficit de efetivo atravessa gestão Zema-Simões

O anúncio ocorre na reta final da gestão Zema-Simões. Simões, governador desde março deste ano, após a saída de Romeu Zema (Novo) para disputar a Presidência da República, foi vice-governador durante a maior parte do período em que o estado registrou redução da participação da segurança pública no orçamento e manteve déficit no efetivo da Polícia Civil.

Para o sindicato, “uma recomposição dessa dimensão não pode ser tratada como uma medida improvisada ou como um anúncio de fim de mandato”. Entre 2021 e 2025, Minas Gerais registrou a maior redução proporcional da participação da segurança pública no orçamento estadual, que passou de 12,7% para 9,7%, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Em reportagem da edição 2026 do projeto Voto e Cidadania, servidores ouvidos sob anonimato pela Tribuna também relataram falta de pessoal e problemas estruturais que comprometem o atendimento em Minas Gerais. Em Juiz de Fora, por exemplo, as delegacias especializadas ainda não funcionam de forma ininterrupta, apesar da previsão legal. Profissionais ouvidos pela reportagem também destacaram déficit de pessoal e problemas estruturais que comprometem o atendimento.

A insatisfação com a valorização salarial também chegou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Em março deste ano, policiais civis, militares e penais, bombeiros e agentes socioeducativos cobraram do Governo de Minas um reajuste de 52,33%, índice que, segundo as categorias, seria necessário para compensar as perdas inflacionárias acumuladas entre 2015 e 2025. Conforme a ALMG, o governo estadual alegou não dispor de recursos para atender à reivindicação e manteve a revisão geral de 5,4% anunciada para o funcionalismo público.

A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) informou que a segurança pública é prioridade no Estado, de acordo com a pasta, “entre as medidas adotadas estão a valorização dos servidores, o uso de ferramentas de inteligência e análise de dados para o direcionamento estratégico das ações, operações para o enfrentamento ao crime organizado, aquisição de veículos, armamentos, coletes de proteção balística, entre outras” e que “Minas Gerais vive uma realidade de restrições devido à Lei de Responsabilidade Fiscal, mas tem promovido recomposições salariais periódicas, bem como incremento no quadro das Forças de Segurança. O investimento no fortalecimento de pessoal, por meio de concursos públicos, nomeações e formação, é contínuo”.

Em nota, a pasta da Segurança do Estado também elencou que, somente em 2026, a Polícia Militar formou 3.142 soldados, distribuídos por diferentes regiões do estado, incluindo a 4ª Região de Polícia Militar, sediada em Juiz de Fora. Na Polícia Civil, os números apresentados pelo governo incluem a formação recente de 163 investigadores, 28 peritos criminais, 12 médicos-legistas e 14 escrivães, além da nomeação de 54 delegados em maio. 

Os números mostram o ingresso de novos profissionais, mas não permitem dimensionar quanto essas incorporações reduziram o déficit. O governo informou que não poderia divulgar o número total de servidores em atividade, sob a justificativa de preservar as “estratégias de inteligência das instituições e garantir o combate e a prevenção efetivas à criminalidade”.

Mas, conforme o Sindicato dos Escrivães de Polícia Civil do Estado de Minas Gerais, a Polícia Civil opera com menos de 10 mil profissionais, diante de um quadro previsto em lei de mais de 17 mil, uma defasagem de cerca de 7 mil servidores. Para Horta, além da falta de pessoal, há dificuldades para manter os policiais na corporação diante dos salários defasados, das condições de trabalho e da falta de perspectivas de progressão na carreira. Segundo ele, profissionais recém-ingressos acabam buscando outros cargos públicos, o que dificulta a recomposição do efetivo mesmo com novos concursos.

Reforço policial entra na transição para o governo Cleitinho

Dois dias após a derrota nas urnas, Mateus Simões anunciou que a transição de governo seria conduzida com “o máximo de transparência”, com reuniões semanais transmitidas por seus canais oficiais. O governador recebeu 530.292 votos (4,65%) no domingo (4) e foi derrotado no primeiro turno por Cleitinho Azevedo, que obteve mais de seis milhões de votos.

Na primeira reunião com o secretariado após a eleição, Simões afirmou que pretende concluir a gestão com o menor número possível de pendências para seu sucessor.

“Não transferir um fluxo de caixa com compromissos. Vamos tentar entregar o governo o mais redondo possível”, afirmou.

A segurança pública entrou nessa discussão tanto pelas nomeações e pelo novo concurso quanto pela continuidade de programas desenvolvidos pela atual gestão. Simões defendeu que os resultados e os processos de implementação dessas iniciativas sejam apresentados à equipe de Cleitinho.

“É importante a gente mostrar como é que o plano de combate a incêndio foi estruturado, porque ele é um plano de quatro anos. Então, preciso que a gente tenha esse cuidado na apresentação”, frisou. O governador também citou programas como a Patrulha Maria da Penha e as visitas tranquilizadoras.

Segundo dados encaminhados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública à Tribuna em setembro, entre 2019 e 2026 foram realizadas 1.113 ações de acompanhamento pela Patrulha da Mulher e 2.457 visitas tranquilizadoras a mulheres em situação de violência doméstica. Os programas, no entanto, convivem com números de casos de violência de gênero. Em 2025, Minas Gerais registrou 177 feminicídios, o segundo maior número absoluto entre os estados brasileiros, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

A primeira reunião oficial entre as equipes dos governos atual e eleito está prevista para 23 de outubro, segundo a assessoria de Cleitinho. O encontro deve iniciar o repasse de informações sobre as secretarias e o andamento das políticas estaduais. O vice-governador eleito Luís Eduardo Falcão (Republicanos), escolhido para coordenar a Comissão de Transição Governamental, participará das discussões.

O Sindep informou que acompanhará a efetivação das nomeações anunciadas pelo Governo de Minas e apoia a realização de um novo concurso, desde que a medida esteja vinculada à reestruturação da Polícia Civil e às determinações da legislação nacional. A entidade sinalizou, à Tribuna de Minas, que, caso as mudanças não sejam implementadas, poderá recorrer aos meios legais para cobrar o cumprimento das medidas previstas em lei.