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Contardo Calligaris, psicanalista: “Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante”

Contardo Calligaris propõe abandonar o mito da felicidade e defende uma vida mais autêntica, intensa e interessante.


Por Leticia Florenco

16/07/2026 às 16h05

Contardo Calligaris, psicanalista: “Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante”
Contardo Calligaris - Foto:Rodrigo Cancela/CPFL Cultura

A felicidade é frequentemente apresentada como o maior objetivo da vida moderna.

Livros, palestras, campanhas publicitárias e as redes sociais reforçam diariamente a ideia de que uma vida bem-sucedida é aquela marcada por satisfação constante, estabilidade emocional e realização permanente.

No entanto, o psicanalista Contardo Calligaris ofereceu uma visão oposta a esse pensamento e provocou um amplo debate ao afirmar que preferia ter uma vida interessante a buscar uma felicidade idealizada.

A declaração se tornou uma das mais conhecidas do intelectual ítalo-brasileiro e continua despertando reflexões sobre a maneira como a sociedade encara o sucesso, o sofrimento e o sentido da existência.

Felicidade como obrigação é alvo de críticas

Na entrevista que ganhou grande repercussão, Calligaris afirmou que não gostava da palavra “felicidade” da forma como ela passou a ser utilizada na sociedade contemporânea.

Para o psicanalista, criou-se uma expectativa de que as pessoas deveriam estar felizes o tempo inteiro, como se tristeza, frustração ou perdas representassem fracassos pessoais.

Segundo essa análise, o problema não está em desejar momentos felizes, mas em transformar a felicidade em uma obrigação permanente.

Essa pressão pode gerar frustração constante, já que emoções desagradáveis fazem parte da experiência humana e não podem ser completamente eliminadas.

Bem-estar depende de fatores diferentes da felicidade idealizada

Ao abordar o tema, Calligaris diferenciou felicidade de bem-estar.

Na sua avaliação, pesquisas mostram que fatores como sentir competência no trabalho, desenvolver boas relações e encontrar significado nas atividades diárias contribuem mais para o bem-estar do que a simples busca por prazeres momentâneos.

Essa perspectiva questiona a ideia de que consumir mais, acumular bens ou conquistar determinados objetivos seja suficiente para produzir satisfação duradoura.

Sociedade estimula desejos que nunca terminam

Outro ponto destacado pelo psicanalista envolve o funcionamento da sociedade de consumo.

Ele argumentava que o desejo humano dificilmente encontra um ponto final. Assim que uma meta é alcançada, outra passa a ocupar seu lugar.

Um novo carro, uma viagem, uma promoção profissional ou qualquer outra conquista pode proporcionar satisfação temporária, mas dificilmente encerra a busca por novas realizações.

Segundo essa visão, o próprio modelo econômico contemporâneo é sustentado pela permanente renovação dos desejos.

Uma vida interessante inclui alegrias e também grandes dores

Uma das ideias centrais defendidas por Calligaris é que viver plenamente significa aceitar todas as dimensões da experiência humana.

Para ele, uma vida interessante não é formada apenas por momentos de felicidade, mas também por:

  • Perdas;
  • Lutos;
  • Fracassos;
  • Mudanças inesperadas;
  • Desafios pessoais;
  • Recomeços.

O psicanalista afirmava que tentar eliminar completamente o sofrimento representa um equívoco, já que essas experiências também ajudam a construir identidade, maturidade e significado.

Sofrimento faz parte da construção da vida

Na avaliação de Calligaris, sentir dor diante da perda de alguém, sofrer após um fracasso ou enfrentar períodos difíceis demonstra o quanto determinadas experiências tiveram importância.

Em vez de interpretar essas emoções como sinais de fraqueza, ele defendia que elas representam aspectos naturais da existência.

Essa abordagem contrasta com discursos que prometem fórmulas para eliminar qualquer sofrimento emocional.

Redes sociais reforçam a aparência de felicidade

Outro tema abordado pelo psicanalista diz respeito ao impacto das redes sociais.

Segundo ele, as plataformas digitais ampliaram a necessidade de construir uma imagem pública baseada em sucesso e felicidade.

Fotografias de viagens, comemorações e conquistas tendem a destacar apenas momentos positivos da rotina, criando a impressão de que a vida das outras pessoas é constantemente satisfatória.

Essa comparação pode aumentar sentimentos de inadequação e alimentar expectativas irreais sobre a própria existência.

Busca pela escolha perfeita gera ansiedade

Calligaris também refletiu sobre a dificuldade de tomar decisões.

Para ele, muitas pessoas acreditam que existe uma escolha perfeita para cada situação, seja na carreira, nos relacionamentos ou em outros aspectos da vida.

Essa busca constante pela decisão ideal acaba produzindo insegurança e medo de errar. Na prática, o excesso de dúvidas pode impedir que oportunidades sejam aproveitadas.

O desafio está em dar sentido às próprias escolhas

Em vez de procurar uma alternativa perfeita, o psicanalista defendia que cada pessoa deveria transformar suas escolhas em experiências significativas.

Isso significa investir tempo, dedicação e interesse no caminho escolhido, construindo uma trajetória que faça sentido ao longo dos anos.

Sob essa perspectiva, o valor de uma decisão depende menos da opção inicial e mais da forma como ela é vivida.

Entre estabilidade e aventura

Outro aspecto recorrente nas reflexões de Calligaris é o conflito entre segurança e liberdade.

Segundo ele, grande parte das pessoas deseja estabilidade financeira, relacionamentos duradouros e previsibilidade, mas também sente necessidade de aventura, novidades e mudanças.

Administrar esse equilíbrio faz parte dos desafios da vida adulta e não existe uma solução definitiva para esse dilema.

O maior risco é perder o interesse pela vida

Para o psicanalista, mais preocupante do que não alcançar a felicidade seria perder o desejo de viver novas experiências.

A curiosidade, os projetos, os sonhos e a capacidade de se interessar pelo mundo seriam elementos fundamentais para manter uma vida ativa e significativa.

Na sua visão, a ausência desse interesse representa um dos maiores desafios da sociedade contemporânea.