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Dandara: uma luta por si, pelas que vieram e pelas que virão

Primeira transexual negra na diretoria da CUT e na pós-graduação da UFJF, Dandara Felícia compartilha a dor e a glória de sua trajetória: ‘Meus protagonismos nada mais são do que o retrato da doença da nossa sociedade’


Por Mauro Morais

05/01/2020 às 07h00

 

Dandara Felícia escolheu para as fotos o vestido com imagem de Angela Davis, professora e filósofa socialista estadunidense integrante dos Panteras Negras. (Foto: Fernando Priamo)

“Num país onde a expectativa de vida de pessoas trans é de 35 anos, fazer 39 anos é um significado de sobrevivência”, responde Dandara Felícia Silva Oliveira quando perguntada sobre sua idade. Dandara faz aniversário em fevereiro. E também em 21 de novembro, quando os documentos lhe garantiram o nome que escolheu para si, numa afirmação da própria identidade e das próprias raízes. O segundo nome homenageia a avó paterna, dona Felícia, sindicalista das tecelãs em Juiz de Fora já nos anos 1940. Numa visita de Getúlio Vargas ela xingou o político e acabou presa, depois solta. Constantemente perseguida, tornou-se sinônimo de histeria, o que a fez ser internada durante um tempo no Hospital Colônia, em Barbacena.

O primeiro nome reverencia a líder de Palmares que, junto do companheiro Zumbi, subverteu a ordem do lugar defendendo a liberdade de seu povo. “Venho de uma família interracial, minha mãe é negra com toda a sua descendência negra e meu pai é branco, com sua descendência branca. Embora por parte da minha mãe eu tivesse várias figuras que poderiam ser homenageadas, elas não foram conhecidas por mim porque a escravidão nos trouxe, inclusive, a morte de nossa ascendência. No Brasil procuramos fazer certidões, cidadanias italianas ou portuguesas, mas não fazemos cidadania africana. Não temos nem documentos que garantam isso”, lamenta ela, criticando a branquitude.

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“O branco quando é confrontado como raça fica apavorado porque já entende estar num conceito de hegemonia em que racializados são os outros”, explica ela, que em casa era percebida como branca e, na escola particular onde estudou, era a única negra. “Não é a consciência que cria a realidade, mas a realidade que cria a consciência. Se temos uma realidade onde pessoas brancas são melhores que pessoas pretas, as pessoas pretas vão querer ser pessoas brancas para não sofrer com o racismo estrutural que diferencia as pessoas.”

Dandara Felícia: “Não é a consciência que cria a realidade, mas a realidade que cria a consciência. Se temos uma realidade onde pessoas brancas são melhores que pessoas pretas, as pessoas pretas vão querer ser pessoas brancas para não sofrer com o racismo estrutural que diferencia as pessoas” (Foto: Fernando Priamo)

Sua própria sobrevivente

Nascida e criada no Furtado de Menezes, Dandara vivia com a mãe, que cuidava da casa, o pai, técnico em eletrotécnica da Rede Ferroviária e vendedor de produtos importados, e dois irmãos mais novos. Aos 5, a professora chamou sua mãe na escola para apontar para sua feminilidade exacerbada. Aos 8, encantou-se por Tieta, protagonista da novela homônima da Globo, uma mulher infeliz numa cidade pequena que decide sair, ganha dinheiro e retorna transformada, com calças altas, salto, unhas vermelhas e maquiada. “Aos 13 eu já sabia que gostava de meninos e fui abusada psicologicamente”, conta. Três anos depois, descobriu o grupo “GLS JF”, no mIRC, uma espécie de chat bastante popular no final dos anos 1990. E assumiu para a família. “Minha mãe me pediu que prometesse para ela que eu não fosse uma travesti”, lembra ela, que pequena usava, escondida, as roupas e os saltos da mãe. “Essa promessa me trouxe anos de amargura. Como se a gente pudesse prometer não ser o que a gente é”, diz. Já trabalhava como operadora de caixa, em cafeteria e outros serviços semelhantes quando, aos 23, recebeu a proposta de Tieta, sua personagem-inspiração. “Ir para a Europa. Nada era muito nítido do que aconteceria, a não ser a questão da prostituição. Não sabia do tanto de violência que estava junto disso, dentro dos lugares em que a gente morava e fora deles também. Fui traficada internacionalmente. Eu ainda não tinha feito a transição, mas fui para fazer isso”, narra. Desembarcou em Torre del Lago, a 20 minutos de Pisa, na Itália. Falando a língua, adentrou numa casa de três quartos onde viviam 25 pessoas. Os riscos eram grandes. A dívida, igualmente. Por quase um ano e meio ela acordou e dormiu na casa. “Quando tinha três dias que eu estava lá fui sequestrada e largada num lugar que eu não sabia onde era. Estava sem um documento, sem nada. Os italianos são pessoas muito solidárias e eu encontrei um senhor que parou o carro, perguntou o que tinha acontecido e me levou até a casa. Era um cotidiano de violência”, lamenta. “Sobrevivi.”

Técnica em saúde, Dandara também é graduada em gastronomia, cursa ciências sociais e acaba de ser aprovada no mestrado em serviço social da UFJF.  (Foto: Fernando Priamo)

Sua própria razão

Sem a transição e sem o dinheiro, sem as roupas e sem o luxo de Tieta. “Voltei acabada e deprimida”, afirma. De volta à casa dos pais, fez curso técnico em saúde. Atuando na área, passou a morar sozinha. Cursava gastronomia quando resolveu fazer a transição, começando a tomar hormônios e implantando cabelo. “Dois meses depois fui mandada embora”, conta ela, que ouviu como justificativa o fechamento do lugar, ainda hoje aberto. A situação financeira ficou difícil e Dandara voltou atrás. “De quantas maneiras, nós, seres humanos, precisamos nos violentar para podermos ser aceitos na sociedade?” Formada em gastronomia, tornou-se maitre num restaurante na área central, depois foi operadora de telemarketing. “Lá eu podia ser viado, podia dar pinta”, brinca ela, que há pouco tempo retornou ao mesmo espaço para participar de uma roda de conversa sobre o combate à transfobia. Quando conquistou um novo trabalho como técnica em saúde num grande hospital local, Dandara uniu-se à ex-mulher de um tio para estudar para o concurso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que faz a gestão do Hospital Universitário da UFJF. As duas passaram. Pouco tempo depois ela conheceu Thiago, também funcionário público. Menos de um ano depois, casaram-se. “Passamos um mês de férias fora do Brasil e quando voltei comecei a imaginar que estava enganando ele, porque eu era uma pessoa trans e nunca havíamos conversado a respeito. O sofrimento mental foi o maior que já tive em todos os tempos”, lembra. Procurou um terapeuta e encarou a questão. Naquele ano vestiu-se como uma mulher para ir ao concurso Miss Brasil Gay. Meses depois dividiu com o marido sua angústia. Como resposta recebeu uma mão estendida. Dandara, então, retomou a transição.

Militante social, Dandara prepara-se para iniciar pesquisa sobre a trajetória das pessoas trans no mercado de trabalho de Juiz de Fora. (Foto: Fernando Priamo)

Sua própria luta e de tantas outras

Logo após tornar-se servidora, Dandara passou a atuar como delegada sindical e, ano passado, tomou posse como a primeira travesti preta diretora sindical da base nacional da Central Única dos Trabalhadores, a CUT. Militante, participou da fundação do Centro de Referência LGBTQI+ da UFJF, ao lado do professor da Faculdade de Serviço Social Marco José de Oliveira Duarte, que a orienta no mestrado em serviço social, que ela inicia este ano. Já aluna do curso de ciências sociais numa instituição particular da cidade, Dandara é a primeira trans negra na pós-graduação da UFJF, pesquisando a trajetória das pessoas trans no mercado de trabalho local. “Meus protagonismos nada mais são do que o retrato da doença da nossa sociedade. Conheço travestis maravilhosas e inteligentíssimas que vieram antes de mim e que morreram se prostituindo porque não tiveram jeito de fazer outra coisa. Conheço mentes brilhantes que morreram numa cadeira de cabeleireiro sem se aposentar. Ser cabeleireiro não é ruim, mas toda atividade que você faz compulsoriamente é ruim. É preciso ter o mínimo de satisfação no trabalho e que ele não seja só a última chance. Noventa por cento das mulheres trans no Brasil estão compulsoriamente inseridas ou na precarização do trabalho, sem carteira assinada, ou na prostituição”, diz ela, que hoje vive com o marido e duas gatas – Manu e Santa Maria. “Fiz minha transição e estou fazendo minha transição de carreira. Quero ajudar a construir novas epistemologias pretas e trans, para mostrar que existe um conhecimento que vem dessa população e um modo de viver que só pode ser modificado se damos acesso para que essas pessoas construam um novo modo de viver. A vida cria consciência. Essa construção não é individual. Só estou aqui e só sou pioneira porque outras estiveram antes de mim e morreram.”

“A vida cria consciência. Essa construção não é individual. Só estou aqui e só sou pioneira porque outras estiveram antes de mim e morreram”, afirma Dandara Felícia (Foto: Fernando Priamo)

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