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Bioconstrução: o pau a pique de volta em projetos para novas moradias

Para reduzir impactos ambientais, profissionais usam pedra, barro, bambu e madeira; Senado analisa proposta de financiar projetos pelo Minha Casa, Minha Vida

Por Gracielle Nocelli

09/08/2018 às 07h00- Atualizada 09/08/2018 às 21h26

Projetos da Taba Bambu, na Zona da Mata: Abrigo Candeia, em Santa Bárbara do Monte Verde (Foto: Divulgação)

Os materiais utilizados são velhos conhecidos: pedra, barro, bambu, madeira. As técnicas de construção também são antigas, como o pau a pique, o tijolo de adobe e a taipa de pilão. A novidade está no olhar dado aos projetos que buscam criar moradias mais sustentáveis, oferecendo maior conforto e menor impacto ambiental, além da possibilidade de redução de custos. Diante destas vantagens, a bioconstrução tem ganhado cada vez mais espaço no mercado.

Em Juiz de Fora há edificações criadas a partir deste conceito, localizadas fora do eixo urbano. Um exemplo é o Chalé Terras Altas, que está em fase de acabamento e foi construído com tijolo ecológico. O projeto é da Taba Bambu, empresa que está há cinco anos no mercado e foi criada pelos arquitetos bioconstrutores Nina Reis, Mateus Foscarini e Thiago Samico.

Casa Pôr do Sol, em Belmiro Braga (Foto: Divulgação)

“Trabalhamos com projetos e construções ecológicas e, também, com a busca da difusão desses ideais e técnicas. Priorizamos sempre o uso de materiais locais e naturais, que provoquem o menor impacto possível para o meio ambiente e que dão origem a agradáveis e duradouras construções, com um ótimo conforto térmico, respeitando a natureza”, afirma Nina.

Ela explica que devido ao aspecto ambiental da proposta, normalmente, as obras são desenvolvidas nas áreas rurais. “Acreditamos que, cada vez mais, as pessoas estão buscando formas mais sustentáveis de viver, e isso faz com que o mercado se abra. Ainda existem poucos profissionais que dominam as técnicas, mas temos diversas ecovilas no país que empregam e difundem a bioconstrução. Minas Gerais é uma região com grande concentração de comunidades nestes formatos, porém, por se localizarem quase sempre em regiões isoladas ou rurais, ainda são pouco conhecidas.”

Impactos sociais e econômicos

Na avaliação da arquiteta, além dos benefícios ambientais, a bioconstrução pode garantir impactos sociais positivos. “Como há a possibilidade da autoconstrução e do uso de materiais locais e acessíveis, a disseminação da informação e do conhecimento técnico pode contribuir para a redução do déficit habitacional e promover o acesso de construção de qualidade para as classes sociais mais baixas, que hoje, em sua maioria, vivem em moradias precárias.”

Parede de pau a pique (Foto: Divulgação)

Com relação ao aspecto econômico, ela cita que “os materiais usados são encontrados com facilidade, como barro, bambu e pedra. Por isso, são mais acessíveis economicamente ou podem ser extraídos sem custo no meio rural.”

Dentre os trabalhos da Taba Bambu na Zona da Mata também estão os projetos Casa Por do Sol, localizado em Belmiro Braga, que foi executado em madeira, pau a pique e tijolo ecológico; e o Abrigo Candeia, situado em Santa Bárbara do Monte Verde, que ainda está em execução, e teve a fundação feita de pedra.

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Falta de mão de obra é desafio

Criada em 2003, em Belo Horizonte, a empresa Biohabitate também trabalha com o desenvolvimento de projetos ecológicos e a difusão do conhecimento da bioconstrução ao redor do país. “Nós temos uma lacuna muito grande de mão de obra, pois fomos perdendo os artesãos que trabalhavam com estas técnicas antigas. Há 80 anos, substituímos as formas tradicionais de construir por este modelo de construção convencional que temos hoje”, diz o diretor da empresa, que é arquiteto e bioconstrutor, Bruno Azevedo.

Biohabitate também trabalha com o desenvolvimento de projetos ecológicos e a difusão do conhecimento da bioconstrução ao redor do país

Por enxergar na falta de mão de obra um dos principais desafios, a Biohabitate realiza cursos em vários estados. “Não temos projetos em Juiz de Fora, mas já estivemos na cidade para promover consultoria”, relembra Bruno. “Fazemos parte de um movimento que capacita pessoas para tentar resgatar esses conhecimentos antigos. É uma tentativa de mudar a cara da construção civil.” A empresa possui projetos em Minas, Rio Grande do Sul, Piauí, Mato Grosso, Roraima e Bahia.

Além das vantagens econômicas, sociais e ambientais, ele acredita que a bioconstrução garante o bem-estar dos moradores. “As técnicas são mais favoráveis às pessoas que habitam a moradia. Os espaços são construídos com menos toxinas. A parede de terra, por exemplo, tem um desempenho acústico até 40% melhor do que as de concreto. Além disso, elas interagem com a umidade do ar porque são porosas, o que nos deixa menos suscetíveis aos mofos e alergias.”

Projetos podem ser financiados  pelo Minha Casa, Minha Vida

A proposta de incluir imóveis construídos com técnicas de bioconstrução no financiamento do programa Minha Casa, Minha Vida está em análise do Senado. O projeto de lei 296/2018 foi apresentado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) a pedido de movimentos em prol da promoção da habitação popular acessível e sustentável. O projeto está em análise pela Comissão de Meio Ambiente e, posteriormente, será submetido à avaliação da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR), onde receberá o parecer final.

Em sua justificativa para a proposta, Rodrigues afirmou que “o uso dessas técnicas pode reduzir custos, especialmente nas localidades em que o transporte de materiais tradicionais, como areia, cimento e tijolos é mais caro. Além disso, as obras serão executadas com menor impacto sobre o meio ambiente e com maior engajamento da comunidade beneficiada, gerando reflexos positivos para as gerações atual e futuras”.

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