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Aos 50 anos, Opalas desfilam garbosos pela Manchester Mineira

Clássico da GM chega ao cinquentenário com 2.051 unidades em circulação nas ruas de Juiz de Fora

Por Eduardo Valente

15/11/2018 às 07h00

Herdado do pai de Eduardo Nascimento, Opala Gran Luxo 1974 virou relíquia de família (Foto: Arquivo pessoal)

Novembro é o mês de aniversário de um dos veículos mais emblemáticos da indústria automotiva brasileira. No próximo dia 23, o imponente GM Opala faz 50 anos de história e desperta a nostalgia daqueles que ainda preservam um modelo em sua garagem. Em Juiz de Fora, aliás, não são poucos. De acordo com o cadastro do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), há emplacados no município 2.051 unidades do Opala. É bem verdade que muitos, observados nas ruas, estão bem deteriorados. Mas também é possível localizar verdadeiras relíquias, carros que, em boas mãos, venceram o tempo e se mantêm intactos com seus aspectos originais.

A história do Opala no Brasil começou no início da década de 1960. Foi quando a General Motors iniciou o chamado Projeto 676, que traduzia todo o esforço da montadora norte-americana para fabricar e montar seu primeiro automóvel em território nacional. A produção dos modelos do Opala, entre 1968 e 1992, resultou em quase um milhão de unidades comercializadas. Além disso, impulsionou toda uma indústria, direta e indiretamente. Apenas na fábrica da GM foram cerca de três mil empregos gerados, além de outras duas mil empresas contratadas para fornecer peças e serviços para o processo de fabricação.

Durante 24 anos, a GM apresentou cinco modelos de Opala em território nacional (SS, Coupé, Comodoro, Diplomata e Caravan). O primeiro deles, um sedã quatro portas, era baseado no europeu Rekord, da fabricante Opel. Mas apesar da grafia semelhante, o nome Opala tem outra origem. Trata-se de uma pedra preciosa rara, que pode ser encontrada em abundância em dois locais do planeta: Austrália e Brasil, mais precisamente no Piauí.

Opala que parece 0km em JF

Eduardo e o Opalão 74 (Foto: Arquivo pessoal)

Na cidade, um certo Opala chama atenção. Quem vê na rua parece estar diante de um carro zero, recém-saído de fábrica. Aliás, o veículo é tão preservado que, há cerca de três meses, ficou em exposição dentro da concessionária Planeta Chevrolet, em homenagem ao cinquentenário.

O Opala Coupé Gran Luxo 1974 nunca saiu da família do motorista aposentado Eduardo Nascimento, 58 anos. O veículo de 44 anos foi comprado zero quilômetro pelo pai, Joaquim José do Nascimento, já falecido. Segundo Eduardo, a escolha pelo modelo, na verdade, foi da mãe Maria da Conceição, também já falecida. “Meu pai foi motorista da Útil durante muitos anos. Quando aposentou, manteve dois carros na praça (táxis), em Santa Terezinha. E o Opala era o veículo para ele passear. Quando comprou, eu tinha entre 13 e 14 anos. Era um carinho e um zelo enorme com o carro, que ninguém mais dirigia, senão ele”, conta Eduardo.

O Opala foi parar em suas mãos quando o pai ficou doente. Ainda vivo, presenteou o filho, como herança, e passou a curtir o carro como carona. “No fim ele ficou bastante debilitado, usando cadeira de rodas. A alegria dele era quando eu chegava com o Opala e o levava para passear. Na verdade, apesar de estar comigo, eu considero um carro da família. Uma forma de preservar a memória e me sentir próximo a ele. Recebo propostas violentas para vendê-lo, mas não tem preço.”

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Não é difícil entender a paixão pelo Gran Luxo. O modelo laranja solar é, de fato, de parar o trânsito. E extremamente conservado. Não há qualquer marca de asfalto ou arranhão na lataria. Além disso, o motor original, nunca aberto, é ainda forte e resistente. O suficiente, conforme Eduardo, para subir a Garganta do Dilermando na quarta marcha, sem fazer qualquer esforço. Um detalhe: o Opala já andou muito, o suficiente para virar o marcador de quilometragem do painel.

Carro encarado com relíquia

Marcador de quilometragem do Gran Luxo já virou (Foto: Arquivo pessoal)

Apesar da boa conservação, há três anos Eduardo passou a preservar mais o veículo como uma relíquia. Deixou de fazer viagens contínuas para mantê-lo na garagem. Esporadicamente entra na rodovia BR-040 e segue do Nova Era, onde mora, até Matias Barbosa. A pequena viagem, na verdade, é quase que um remédio para um motor carburado, que precisa estar em movimento constante. Além disso, faz viagens temáticas eventuais com os amigos do Vintage Club, que promove encontros de carros antigos.

E ouvindo Eduardo, é difícil acreditar em uma das famas mais negativas do Opala, de ser um carro com alto consumo de combustível. “Eu não concordo. Se bem regulado e conduzido com zelo, é possível conseguir uma boa média. Na estrada, a 90 km/h, ele chega a fazer 12 quilômetros com um litro de gasolina, tranquilamente”, disse o herdeiro de um Opala único na cidade, com quatro cilindros e motor 2.500.

Garimpado dos escombros

Opala Coupé 1974 de Adão Madella foi achado nos escombros de uma construção (Foto: Arquivo pessoal)

Todo carro antigo tem uma boa história por trás. No caso do aposentado Adão de Assis Madella, 49 anos, não é diferente. Seu Opala Coupé, ano 1974, foi encontrado dentro de uma garagem, há cinco anos, onde estava abandonado há quase quatro. “Foi no Parque das Torres. Um amigo ficou sabendo que tinha este carro abandonado e fomos ver. Quando chegamos, era tanta poeira e areia que as rodas estavam até cobertas. Fomos descobrir que o dono era um caminhoneiro que fez uma reforma na casa, não gostou, e largou tudo lá, inclusive o carro”, contou Adão.

Ao localizar o proprietário, uma oferta foi feita e aceita. Por R$ 4 mil, a relíquia já era dele, mas era preciso remover o carro dos escombros. A ideia de um guincho foi até cogitada, mas logo descartada por um amigo que acompanhava a aventura. “Ele levou velas novas, uma bateria e um galão de combustível. Em dez minutos o carro estava pegando”, disse, acrescentando que este foi, praticamente, o único gasto com o automóvel.

Posteriormente, foi preciso trocar o tanque de combustível, que havia sido corroído pelo tempo parado, e algumas borrachas ressecadas. Além disso, o carburador foi regulado e nada mais, muito embora a pintura esteja precisando de retoques. “É o meu carro de fim de semana, não troco nem vendo. É melhor que muito veículo mais novo. Com ele vou aos encontros de carros antigos, inclusive pegando estradas. Nunca me deu problema algum. Eu posso até comprar outro carro antigo, mas deste não abro mão. Já virou herança de família.”

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