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Oficinas familiares sobrevivem por décadas

Segredo está no bom atendimento e no interesse dos filhos e netos de perpetuar o legado iniciado pelos avós

Por Eduardo Valente

08/11/2018 às 07h00

É bem possível que em todo bairro de Juiz de Fora haja pelo menos uma oficina mecânica. Em alguns pontos, aliás, dá para encher uma mão destes estabelecimentos em um raio inferior a um quilômetro. Empresas que abrem e depois fecham, por motivos diversos, existem aos montes, mas são poucas que resistem e sobrevivem após muitas décadas. Para isso, geralmente, é preciso haver a continuidade entre gerações, passando os negócios dos avós para filhos e depois os netos. O segredo para se manter no mercado por tanto tempo? Credibilidade e respeito, aos clientes e aos funcionários.

Oficinas-familiares
Vinícius, Victor e Clóvis, três gerações da família Bucheni-Sucasas, ao lado do funcionário Mateus Vilela (Foto: Olavo Prazeres)

A Tribuna não localizou uma oficina mecânica em Juiz de Fora, com essas características, mais antiga que a Molas Victor, que ocupa um privilegiado terreno entre as avenidas Brasil e Rio Branco, na altura do Bairro Manoel Honório, Zona Leste. Em setembro, o negócio iniciado pelo já falecido ex-caminhoneiro Victor Bucheni completou 70 anos ininterruptos e, agora, caminha para a quarta geração da mesma família.

O ramo de atuação da oficina foi assertivo, ainda em 1948, quando as portas foram abertas. Afinal, suspensão de veículos de carga pesados, tanto naquela época como agora no século XXI, é feita a partir de molas. Na década de 1940, o então caminhoneiro de Conselheiro Lafaiete, que começou a viajar pelas estradas com um três eixos, aos 16 anos, viu a oportunidade de abrir o negócio em Juiz de Fora, quando tinha 37. “Em 1959, meu pai, Clóvis Sucasas (hoje com 88 anos), natural de Pinhotiba (distrito de Eugenópolis), veio para cá e começou a trabalhar com o sogro. A confiança foi tanta que, em quatro meses, já era o tesoureiro da firma”, disse Victor Bucheni, de 58 anos, que representa a terceira geração da empresa.

Clóvis tinha 24 anos quando entrou na Molas Victor. Permaneceu ao lado do sogro Bucheni até 1972, quando ele faleceu, aos 74. E depois se manteve na administração e no atendimento aos clientes até 2014, quando resolveu se aposentar, aos 84 anos. Desde então, a empresa é administrada pelo filho Victor, que já trabalha na oficina desde a adolescência e atualmente tem a companhia dos gêmeos Vinícius e Virgílio, de 31 anos.

“Sempre gostei muito de trabalhar, mas nunca de estudar. Quando completei o segundo grau vim trabalhar pesado, embaixo dos caminhões. Depois de um ano resolveram me colocar no escritório, de onde não saí mais. Por um lado, toda esta experiência foi boa porque, antes de saber determinar, é preciso entender como os funcionários atuam.”

Quatro décadas e três gerações

A história da Molas Victor tem pontos em comum com a da Oficina Redentor, instalada entre a Avenida Sete de Setembro e a Rua Cesário Alvim, no Bairro São Bernardo, Zona Sudeste. Inaugurada em 1971 pelo mecânico já falecido Nelson Leonel, a empresa atualmente é administrada pelos filhos, Eduardo Terr, 62 e José Nilton, o Chuvisco, de 61 anos. Ambos começaram a trabalhar na oficina quando tinham, respectivamente, 12 e 11 anos.

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Oficinas-familiares
Pedro Leonel, José Newton e Eduardo Leonel, da Oficina Redentor (Foto: Olavo Prazeres)

“Só saí quando fui servir o Exército, e voltei no ano seguinte. Meu irmão também deixou a oficina por um tempo, em busca de outras oportunidades de trabalho. Mas em meados da década de 1970 começamos a ganhar muitos clientes, principalmente donos de carros como Corcel e Del Rey. Foi quando meu pai convidou o Chuvisco para voltar e, desde então, ele não saiu mais”, conta Eduardo. “Meu pai só parou de trabalhar em 2002, aos 74 anos, quando ficou doente.”

No caso da Oficina Redentor, a terceira geração também já se faz presente, através do filho de Eduardo, Pedro de Carvalho, 23 anos. “Ele fez curso de técnico em informática e mecatrônica e agora faz faculdade de engenharia mecânica. Se não for assim, pode parar, porque hoje as coisas são muito complicadas”, disse.

Segundo Eduardo — diferente do ofício de molas —, as mudanças na construção dos veículos foram inúmeras, sendo uma das mais emblemáticas a alteração dos automóveis carburados para os de injeção eletrônica. “Meu irmão e eu somos mecânicos práticos. Somos de uma época em que aprendíamos com a experiência de montar motor, caixa, fazer lanternagem e pintura. Hoje o que vemos é um especialista para cada área, igual na medicina”, comparou.

Entretanto, estas mudanças mais emblemáticas, observadas a partir dos anos 2000, fizeram Eduardo e Chuvisco se reciclarem. O irmão, por exemplo, é referência na cidade em manutenção e correção de câmbio automático. “No início as próprias montadoras foram dando treinamentos. Depois, com a internet, outros caminhos foram sendo abertos. Hoje só não se recicla quem não quer.”

Bom atendimento e relação com os funcionários

No caso das oficina mecânicas, o sucesso depende diretamente do bom atendimento prestado aos clientes. E para isso, é preciso ter bons colaboradores à disposição. Na Molas Victor, o neto do fundador, que hoje administra o negócio, Victor Bucheni, compreende esta máxima. Ele cita como exemplo o fato de o seu funcionário mais antigo, Mateus Vilela, ter 63 anos. Mas não de idade, e sim de trabalho prestado na oficina. “Ele tem a idade do meu pai, 84 anos, e hoje cuida de todo o almoxarifado. Não quer saber de parar”, contou, acrescentando que atender a todos bem e prestar um serviço de qualidade e confiança é o segredo para se tornar referência e garantir o retorno dos clientes.

Eduardo entende da mesma forma. “Nosso quadro de funcionários renova muito pouco, porque a gente mantém um relacionamento bom. O contato com eles é direto e precisamos saber lidar, entender as situações de cada um, até mesmo para mantermos um bom ambiente de trabalho.” Perguntando se este é o caminho, Eduardo é enfático: “Exatamente. É fidelidade. Você vive os problemas deles, e eles os seus. Se for um patrão que só quer cobrar e não quer dar direitos, não conseguirá bons resultados.”

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