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Renata de Aragão Lopes: “Todos somos estrelas”

Por Marisa Loures

30/11/2021 às 08h00 - Atualizada 29/11/2021 às 21h58

No livro “O parquinho de mistérios”, a juiz-forana Renata de Aragão Lopes lança mão de metáforas para conversar com as crianças sobre origem da vida, morte e adoção –  Foto de Wagner Emerich

Para muitos adultos, não é fácil conversar com os pequenos sobre os mistérios da vida e da morte. Muitos também preferem não tocar no tema “adoção”. E Renata de Aragão Lopes encarou essa tarefa e a cumpriu por meio de sua já conhecida escrita recheada de lirismo. É de uma forma leve, e por meio de metáforas, que ela escreve a respeito da nossa chegada ao mundo. “Eu sou uma estrela. Você é uma estrela. Todos somos estrelas: cadentes, porque viemos à Terra pelo Tobogã invisível que desce do céu”, afirma ela em “O parquinho de mistérios” (Paratexto). E garanto, também, que não falta leveza quando ela anuncia que muitas crianças saem do  “pula-pula”, que é a barriga onde ela foi gerada, e vão encontrar “balanço” só depois, em um lugar diferente. Sobre a nossa “hora de partir da Terra”, ela é apresentada com a mesma suavidade.

“Nascimento e morte são eventos naturais que nos rodeiam a todo tempo. Toda criança, desde cedo, lida com essa realidade: a princípio, questionando, aos pais e aos responsáveis, sobre a própria origem. Em algum momento, indagando-lhes sobre o destino dos que morrem. Tamanhas a certeza e a naturalidade desses eventos, que nem mesmo era para se tratar de um assunto tão delicado, concorda?”, questiona a autora, ressaltando que há adultos que têm dificuldade em lidar internamente com tais questões. Talvez, por considerarem constrangedor dialogar sobre a origem da vida e ainda por medo de falar a respeito da morte. “Só que a pergunta de uma criança não deve ficar sem resposta. A sua demanda precisa ser atendida. Ainda mais agora, com a pandemia. Como fugir desse tema que, lamentável e drasticamente, tornou-se o mais recorrente na vida das pessoas e nos noticiários do mundo todo?”.

“O parquinho de mistérios”, com ilustrações de Fabrícia Batista,  foi contemplado, em 2020, com o Prêmio Janelas Abertas, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora. No mesmo ano, ganhou uma versão em e-book, disponível na Amazon, e agora ganha uma tiragem impressa e limitada. O lançamento vai correr no evento Arte Sublime,  programado para o dia 18 de dezembro, às 15h, no Restaurante Sublime. No entanto, a pré-venda já começou. Para adquirir um exemplar, basta entrar em contato com a autora no Instagram (@renatadearagaolopes).

Marisa Loures – Li, certa vez, que o contato com a boa literatura funciona como uma espécie de vacina, ajudando a criança a se fortalecer. Acredita que ela possa ajudar a criança a lidar melhor com o sofrimento, com a dor e até mesmo com a finitude da vida humana?

Renata de Aragão Lopes – A meu ver, a criança sempre merece a verdade. Quando ela formula uma pergunta, está ávida pelo esclarecimento. E sua curiosidade precisa ser atendida. Mais do que isso. Ela deve ser estimulada por pais, responsáveis e professores, por ser essencial ao desenvolvimento das crianças em todas as dimensões: cognitiva, intelectual, física, emocional, social e cultural. O usual desafio dos educadores em geral, em essência, deveria sempre ser, portanto, o de como lhes dizer a verdade: com linguagem acessível e com informações adequadas à idade e ao entendimento de cada criança. É também aí que a boa literatura presta valiosíssima contribuição a todos. Um bom livro infantil é aquele que conta a verdade às crianças, que lhes incita a curiosidade e a imaginação, que lhes propõe reflexões compatíveis com seu grau de desenvolvimento, que lhes possibilita a experimentação indireta das emoções. E “ainda que cresça, ninguém deixa de ser criança” – é o que afirmo em “O parquinho de mistérios”. Pois, a todos nós, crianças de todas as idades, a leitura consciente de um bom livro pode, sim, a partir de nossa disposição, até mesmo nos curar.

– E você fala sobre esse assunto de uma maneira muito poética. Usa metáforas para conversar com as crianças. Elas têm entendido bem a mensagem do livro?

Sim. As crianças acolhem e compreendem as metáforas com muita facilidade. Estão com a fantasia e o imaginário ainda muito vívidos. Elas brincam com tudo – inclusive com as palavras. Rapidamente, permitem-se voar para além do texto escrito. E a linguagem poética se serve bastante das metáforas exatamente para isso: para incentivar o leitor ao voo; para lhe criar espaço para a decolagem. E toda criança praticamente tem brevê. E, quando acompanhada por adultos durante a leitura (algo que sempre recomendo aos educadores), maior a chance de ela ter uma viagem mais extensa, rica e feliz.

– Além disso, o livro também nos faz refletir sobre família e adoção, chamando atenção para o fato de que, muitas vezes, nem sempre a “estrela-criança” vai encontrar seu colo assim que sai da barriga da mãe. Você sente falta de títulos que levem as crianças a refletir sobre esse assunto?

Tive conhecimento da escassez de títulos sobre o tema a partir do relato de uma família em 2019. E, nesse relato, ainda houve uma queixa: os livros encontrados sobre o tema não corresponderiam às expectativas das famílias que vivenciam a adoção ou o reconhecimento da filiação socioafetiva. Uma curiosidade: “O parquinho de mistérios” me veio, quase que como encomenda, a partir dessa conversa. Em dezembro de 2019, fui convidada a participar de um evento promovido pelo departamento do Mestrado em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF). Durante o evento, expus todos os meus livros já publicados até então: “Doce de lira, poesia à mesa” e os infantis “Mano amigo” e “Queria ficar por aqui”. Vivenciei encontros felizes ao longo de todo o evento, mas um deles me marcou particularmente. Após a atenta leitura dos meus livros infantis, um pai veio a mim não apenas para me parabenizar pelas obras, mas também para me falar da escassez de bons títulos infantis sobre o tema da adoção, revelando-me, por fim, que havia percebido, em minha escrita, a sensibilidade e a delicadeza ideais para a abordagem do assunto. Emocionada, assumi, ali, o compromisso de tentar escrever a respeito. E, em 2 de fevereiro de 2020, escrevi “O parquinho de mistérios”, imediatamente entrando em contato com a família para informar a novidade. Em razão da pandemia, somente agora, em dezembro de 2021, dois anos depois daquele evento, conhecerei, pessoalmente, essa família linda e inspiradora, com toda a minha gratidão. É isso: somos estrelas, estamos no Parquinho de Mistérios, e a magia acontece a todo tempo, por toda parte.

– Você já me disse que, para o público infantil, tem a meta de escrever de forma que a literatura propicie uma real aproximação afetiva entre adultos e crianças. “O parquinho de mistérios”passa a sensação de que não foi idealizado pensando em atingir apenas os pequenos, pois nos leva a reflexões bem profundas…

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Sim, é verdade. Escrevo livros infantis, a um só tempo, dirigidos a crianças e a educadores em geral. Tanto que, ao final das obras, costumo identificar os temas abordados no livro, sugerir diálogos e propor atividades lúdicas, sempre ressaltando a importância da leitura compartilhada como momento de aproximação afetiva entre adultos e crianças. Assim registrei no livro “Queria ficar por aqui”: “Um livro nunca termina. O ponto final é o de partida.” É, de fato, o que sempre espero que se realize a partir da leitura dos meus livros infantis: que eles sirvam de start para um contínuo e amoroso diálogo entre as crianças e seus responsáveis. E essa minha expectativa também existe quanto ao livro “O parquinho de mistérios”. Talvez de forma até ampliada, porque, como eu disse, também os adultos devem trabalhar em si as percepções de vida e de morte, das novas famílias e, sobretudo, da prevalência do respeito e do amor. Que “O parquinho de nistérios” possa, sim, então, conduzir crianças de todas as idades a entendimentos mais coerentes e saudáveis sobre esses temas.

– Você escreve sobre a morte ao final do livro da mesma maneira como escreve sobre a origem da vida, lá no início. O texto é leve. Não há tristeza. Qual é a principal ideia que você acredita ter o leitor ao acabar de ler a obra?

Na verdade, espero que, ao final do livro, o leitor sinta felicidade e gratidão por estar vivo; por vivenciar a magia; por fazer parte do Mistério. E que, com isso, criança ou adulto, ele retorne à sua realidade com mais consciência: ciente de que todos somos estrelas, cabendo-nos expandir o próprio brilho e respeitar o alheio. Definitivamente, eu não escrevo a partir da mente, do pensamento. Eu escrevo, porque sonho…

O parquinho de mistérios”

Autora: Renata de Aragão Lopes

Editora: Paratexto

Lançameto do livro físico: 18 de dezembro, às 15h, no Restaurante Sublime (Rua São Mateus 408 – São Mateus).

Pré-venda do livro físico: (@renatadearagaolopes)

O e-book está disponível na Amazon.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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