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“É importante se reconhecer nas vozes de outras mulheres”, dispara Fernanda Vizian

Por Marisa Loures

29/03/2022 às 17h00 - Atualizada 29/03/2022 às 18h14

A jornalista e editora Fernanda Vizian está à frente de “Dona de mim”, antologia de contos, poemas e relatos produzidos só por mulheres – Foto de Mariana Masse

Um livro escrito e produzido só por mulheres foi a proposta lançada, no início de 2020, pela editora Paratexto. E, por meio de um concurso, 19 vozes femininas foram selecionadas para fazer parte de “Dona de mim” (136 páginas). E, afinal, “o que querem as mulheres?” Esse é o questionamento que causou tanta inquietação na jornalista, editora e fundadora da Paratexto Fernanda Vizian e que a fez investir no novo projeto. A obra acaba de nascer. Tem lançamento agendado para o próximo sábado, a partir das 17h, no Moinho Zona Norte. E pode ser encarada como um espaço de fala, de desabafo. Por meio de poemas, contos e relatos, essas mulheres usam a escrita para expressar o que sentem.

“Todas essas 19 mulheres foram atravessadas pela arte e encontraram, nas páginas desta antologia, espaço para sobreviver além do tempo, expondo, de maneira crua, apenas um pedaço do que as toca. Há textos que abordam temas relacionados a dor, solidão, machismo, preconceito e abusos praticados contra a mulher. Mas, nestes mesmos textos, assim como na vida de toda mulher, o leitor também encontrará relatos de coragem, força, superação, empoderamento e amor”, conta Fernanda.

Maria Aparecida Rezende Lacerda, Adriana Lunardi, Alice Gervason, Beatriz Costa, Carla Letícia Oliveira Figueiredo, Carolina Magaldi, Débora Santos Travnik, Flávia Cadinelli, Gisele Gemmi Chiari, Jéssika Frizzero, Lígia Brito, Tânia Maria Machado, Thaís M. Resende, Andrea Lima de Paula, Carol Canêdo, Carolina Miranda, Júlia Jacomini Sampaio, Luciane Fontes e Val Honório são as autoras de “Dona de mim”, que ainda conta com prefácio da jornalista juiz-forana e Miss Brasil de 2019 Júlia Horta. Aliás, ela avisa o que as mulheres que estão por trás dessa nova empreitada desejam a você, leitor e leitora. “Que, ao fechar este livro, vocês se sintam mais forte, capazes, empoderadas e tenham coragem de também contar e espalhar suas histórias por aí.”

Nesta entrevista, Fernanda Vizian volta a março de 2020, momento em que, de todos os lados, o que se via era incerteza diante de uma pandemia que tomava conta do mundo e que paralisava nossos planos. Ela também reflete sobre feminismo, mulheres no mercado editorial e desigualdade de gênero.

Marisa Loures – A ideia da antologia surgiu no início de 2020, quando o mundo parou por causa da pandemia do coronavírus. O que, naquele momento, te fez questionar “o que querem as mulheres”?

Fernanda Vizian – Assim como todo empreendedor, no início da pandemia, eu me vi surpreendida por uma onda de incertezas. Com a editora fechada e a maioria dos trabalhos suspensos, não sabia se teria fôlego para gerenciar a empresa. Pensava: “quem vai querer publicar um livro em meio a essa pandemia?”. Era março de 2020, o mês das mulheres, e comecei a me questionar sobre o que eu queria enquanto profissional naquele cenário nebuloso. Entretanto, esse questionamento se abriu para algo maior. Se eu, mulher e empreendedora, estava em quarentena pensando sobre as possibilidades futuras, será que também não haveria outras mulheres nesta mesma situação? Foi assim que surgiu a ideia de pensar uma publicação que desse voz a diferentes mulheres, que desse espaço para aquilo que nem sempre é dito e que sequer conseguimos encontrar palavras para descrever.

– Esses textos foram selecionados por meio de um concurso que contou com participantes de várias partes do Brasil. O que, nesses 19 textos selecionados, chamou a atenção de vocês?

Durante a chamada para o concurso, fizemos o seguinte questionamento às escritoras: “quem são as mulheres que as inspiram?”. Parece, a princípio, uma pergunta simples. Mas a nossa intenção era gerar uma coletânea de textos que trouxesse à tona mulheres – reais ou fictícias – que inspirassem outras mulheres a serem “donas de si mesmas”. Quando nos deparamos com personagens femininas protagonistas de suas próprias histórias, conseguimos enxergar quem de fato somos. Diante dessa situação, conseguimos chegar a 19 histórias inspiradoras.

– Você escreve, no livro, que para a Paratexto, “o feminismo é feito de pequenas ações de apoio, incentivo e reconhecimento” e ressalta que toda a obra foi pensada e executada por mulheres. “Dona de mim” é um livro feito para leitoras feministas?

A antologia também é para leitoras feministas, mas não só. Este é um livro para todos que estão dispostos a conhecer histórias e afetos de personagens reais, cujas narrativas acabam se esbarrando nas histórias de tantas outras pessoas, como a mulher que enfrenta o preconceito em um esporte majoritariamente masculino, como aquela que descobre o amor próprio ou aquela que ampara a vizinha após violência doméstica. Queremos que esta obra traga uma outra visão sobre a realidade feminina. Em “Dona de Mim”, apenas ouvimos e contamos histórias, sem cartilhas ou manuais.

– Há quem despreze o termo “feminismo”; há também quem prefira não se assumir feminista para não correr o risco de ser repelida. Você acredita que esse viés pode afastar os leitores homens?

A literatura é um espaço que ecoa os costumes e valores da sociedade na qual está inserida. Dessa forma, a decisão de se publicar uma obra exclusivamente escrita por mulheres é por entender a necessidade intrínseca de mudança na forma como o mundo se relaciona com o que é feminino. E não é fácil falar sobre essa questão. Muita gente ainda acha que livros escritos por mulheres são feitos só pra mulheres, enquanto outros dizem que livros escritos por negros são “literatura negra”. As pessoas se sentem desconfortáveis, às vezes, até irritadas. Seria mais fácil, talvez, fazer uma antologia sobre direitos humanos, mas essa seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Nosso intuito não é o de afastar leitores homens, e sim trazê-los para uma conversa sobre questões particulares do universo feminino.

– Ainda que haja avanços, é fato que o preconceito de gênero também esbarra no mercado editorial. Como mencionei acima, há quem repudie um livro se ele for escrito por uma mulher, principalmente se essa mulher se assume feminista. Você, que atua na linha de frente de uma editora, como avalia a realidade na qual as mulheres escritoras estão inseridas? 

Há alguns anos, era praticamente impossível uma mulher encontrar apoio financeiro e editorial para efetivar a publicação de suas obras. Muitas eram obrigadas a usar pseudônimos masculinos na esperança de ver suas obras sendo comercializadas. Autoras nacionais como Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus recebem pouco ou quase nenhum reconhecimento, e suas obras são ignoradas nas salas de aula. A desigualdade de gênero é uma problemática discutida e confirmada em várias áreas da sociedade e um dos espaços que ela afeta é, sem dúvida, o do mercado literário. Mesmo ao serem publicadas, muitas escritoras não ganham prestígio pelo seu trabalho, o que fica claro ao observar a lista dos ganhadores dos prêmios literários mais estimados. Quando incentivamos a publicação e leitura de livros escritos por mulheres, estamos promovendo reflexões de forma a ampliar o espaço de fala do gênero feminino. No cerne dessa desigualdade de gênero, já estão iniciativas como o movimento #LeiaMulheres que foi disseminado através das redes sociais e alcançou diversos países e tem o objetivo de incentivar a leitura de obras assinadas por mulheres, além de divulgar novas escritoras.

– E de que forma publicações como “Dona de mim” podem contribuir para a promoção da igualdade de gênero? A literatura tem o poder de atuar no fortalecimento da voz feminina?

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Como qualquer outro campo, a literatura ainda é um espaço predominantemente masculino. Segundo uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, um coletivo de pesquisadores vinculado à Universidade de Brasília (UNB), mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras, entre 1965 e 2014, foram escritos por homens. Aos poucos, esse cenário vem mudando. Já existem editoras voltadas exclusivamente para produção de obras escritas por mulheres, por exemplo. Por isso, falar sobre a importância da representatividade da mulher na literatura torna-se tão importante, como é o caso da antologia “Dona de Mim”. Entretanto, para que possamos atuar no fortalecimento da voz feminina, é preciso que mais obras sejam incentivadas e produzidas. Precisamos refletir sobre a condição feminina no meio literário e lutar por representatividade não só por trás das histórias, mas dentro delas também.

– Há projetos de novos livros da Paratexto seguindo nessa mesma direção?

Sim. Já tivemos retorno de algumas autoras da antologia que desejam publicar livros solo incentivadas pela participação em “Dona de Mim”. Enquanto mulher à frente de uma editora, acredito que é importante se reconhecer nas vozes de outras mulheres . Nessa posição, é importante que a Editora apoie trabalhos de diferentes autoras e revele a força da escrita feminina. Meu trabalho busca inspirar mulheres através da literatura e na literatura.

– No início de 2020, por causa da pandemia, a Paratexto parou, vários projetos foram suspensos. Por outro lado, tenho a impressão de que a editora também cresceu muito nesse período. Como foi esse momento para vocês? O que foi preciso fazer para se reinventar? 

Assim como os demais campos da economia e da cultura, a literatura sofreu os abalos da Covid-19. O conjunto de setores envolvidos com essa área de expressão – desde os escritores até as editoras, as livrarias e os eventos literários – teve de se adaptar e não foi diferente comigo. A boa notícia foi que o consumo e a produção dos textos literários cresceram nesse período. Fechadas em casa, as pessoas passaram a ler e a escrever mais. Passamos a desenvolver os eventos literários na internet, como a segunda edição da Feira do Livro de Juiz de Fora (FLIJUF), os lançamentos passaram a ser virtuais. Sem dúvida, a pandemia revelou que a cultura e as artes têm um papel fundamental na reimaginação do mundo em momentos de crise.

“Dona de mim” 

Editora Paratexto, 136 páginas

Autoras:Maria Aparecida Rezende Lacerda, Adriana Lunardi, Alice Gervason, Beatriz Costa, Carla Letícia Oliveira Figueiredo, Carolina Magaldi, Débora Santos Travnik, Flávia Cadinelli, Gisele Gemmi Chiari, Jéssika Frizzero, Lígia Brito, Tânia Maria Machado, Thaís M. Resende, Andrea Lima de Paula, Carol Canêdo, Carolina Miranda, Júlia Jacomini Sampaio, Luciane Fontes e Val Honório

Lançamento: 02 de abril, às 17h, no Moinho Zona Norte

Programação aberta a público, com palestras e sessão de autógrafos

17h – Abertura

17h30 – “Por que uma antologia feminina?”, Com Fernanda Vizian (Editora Paratexto)

18h –  “Mulheres à frente do seu tempo são incomparáveis”, com Cláudia D´Mesquita  (Mulheres do Brasil)

18h40 – “Momento reconexão”, com Flávia Cadinelli (Movimento Zen)

19h – Sessão de autógrafos.

“Dona de mim” já está à venda no site da editora Paratexto.

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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