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Jamila Almas lança coletânea de contos eróticos que aborda o amor entre mulheres

Por Marisa Loures

26/05/2020 às 10h21 - Atualizada 26/05/2020 às 10h44

Jamila conta que suas experiências amorosas serviram de inspiração para “Entre os lençóis do prazer” – Foto Arquivo Pessoal

A autora que hoje apresento a vocês sempre se aventurou pela poesia. Era figura constante dos saraus literários e microfones abertos do Eco Performances Poéticas, realizado aqui em Juiz de Fora. Normalmente, flertava com a poesia romântica. Até que, um dia, foi desafiada a escrever o primeiro poema erótico. Tudo mudou. De sua pena, passaram a surgir mais e mais versos com essa temática. No entanto, “as métricas e rimas da poesia já não eram suficientes”, conta ela, resolvendo arriscar-se na prosa.

A primeira produção erótica em prosa surgiu depois de uma conquista. Ela conheceu uma menina hetero que tinha muita curiosidade de saber como era ser amada por uma mulher. E aí teve uma ideia: “Perguntei se eu poderia fazer um conto erótico contando como seria a minha forma de fazê-la ser amada”, confidencia Jamila Almas, destacando que nasceu assim o primeiro texto da coletânea de contos eróticos “Entre os lençóis do prazer” (97 páginas), disponível em formato e-book na Amazon. A partir daquele momento, as experiências amorosas de Jamili foram rendendo contos e mais contos que demonstram o amor entre duas pessoas do mesmo sexo.

“Saí com a conquista no dia seguinte e pus em prática tudo que havia colocado em minha arte. Eventualmente, mostrava para um ou outro amigo e amiga que elogiavam e diziam ser excitante, sensual, bonito e que eu deveria fazer mais e mais. Nesta vertente, percebi que cada experiência que eu tive, na verdade, tinha sido um laboratório e que era só traduzir em palavras a minha forma de encarar e viver o meu jeito de amar”, relata a autora, fazendo um convite aos leitores e leitoras do Sala de Leitura.

“Convido todos a se deleitarem comigo ‘Entre os lençóis do prazer’. Um livro que tem como objetivo não ser um clichê de amores ou banalizar o sexo entre pessoas do mesmo sexo. É um livro que pretende mexer com a imaginação de cada um de vocês, independente de sua orientação sexual, pois acredito que a imaginação seja palco para sanar curiosidades e tabus ainda envoltos nessa forma de amar e que seja instrumento de excitação para aqueles que já sabem o que esperar. É uma obra que traduz a forma de amar de duas mulheres trazendo, por meio de Valentinas, Beths, Claudias, Jaquelines os desejos, os instintos, as curiosidades mais secretas de cada mulher. É um livro que deseja tocar não o corpo, mas a alma de todos de forma delicada, intensa e vívida, trazendo cada leitor para dentro dos contos e produzindo uma catarse repleta de encantos e libertando os mais audaciosos desejos de amor”.

Jamila Almas é formada em Ciências da Computação e em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Recentemente, concluiu o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Letras/Estudos Literários, na mesma instituição. Também escreve romances espíritas (programa o lançamento de um livro nesse gênero para o mês de junho) e é compositora. Dá para acreditar que alguém que tem uma relação tão íntima com a palavra trava uma luta diária contra a sua insuficiência? Nossa conversa, hoje, começa, justamente, por esse ponto.

“O fato é que conseguir entrar numa seara de emoções em que tantas válvulas de escapes nos são apontadas todos os dias é, sim, uma luta incessante e cotidiana. A palavra, muitas das vezes, perde a eloquência diante do apelo da cultura de massa banalizada em expressões sem sentido ou sem ter um objetivo real além de ser popular.”

Marisa Loures – “Jamila Almas, romancista, contista e poetisa que luta contra a insuficiência da palavra”. É assim que você é apresentada no site da Amazon. O que você, escritora, faz, quando a palavra é insuficiente? Como é a sua luta diária?

Jamila Almas – Pode parecer estranho alguém que utiliza das palavras, visando tocar à alma e aos corações das pessoas, dizer que luta contra uma insuficiência da palavra. Mas o fato é que conseguir entrar numa seara de emoções em que tantas válvulas de escapes nos são apontadas todos os dias é, sim, uma luta incessante e cotidiana. A palavra, muitas das vezes, perde a eloquência diante do apelo da cultura de massa banalizada em expressões sem sentido ou sem ter um objetivo real além de ser popular. As palavras, para mim, são sedutoras, são armas, são acalantos e são perdições, porém acredito que todo escritor, seja de verso ou prosa, vive, nos tempos atuais, uma insuficiência da linguagem quando o que se deseja expressar não atinge o verbo, não alcança a frase certa para trazer ao seu público ou para si mesmo a nitidez dos sentimentos. Então a minha luta contra essa insuficiência que habita em nós é ter a consciência do poder que a palavra detém e tentar transcrever em minha obra, ainda sem seu total domínio, a lucidez, a eloquência, a imensidão do verbo para que, assim, essa palavra tome corpo dentro de mim e seja refletida em meus poemas, em meus contos, em minhas composições. Colocar o coração, a alma e o corpo na ponta dos dedos é a luta contra essa insuficiência contemporânea.

– No prefácio, você diz assim: “Esta coletânea de contos é a expressão mais válida e libidinosa dos desejos mais secretos ou de fatos vivenciados pela autora.” Não deve ser nada fácil levar para um livro nossos desejos mais secretos. Ou é? Teve receio da exposição?
Não chego a considerar difícil expressar os meus desejos nem o que vivi nesses contos. Julgo a arte de amar como algo natural que não deve ser vista como tabu, vergonhoso ou profano, afinal, todos nós, cedo ou tarde, acabamos fazendo amor, todos nós temos fantasias, desejos e vontades que nem sempre podemos colocar em prática. De maneira nenhuma tive receio da exposição, pelo contrário, eu quis muito que a forma como eu vejo e sinto em amar uma mulher pudesse chegar ao meu leitor da mesma forma como eu a contemplo: linda, delicada, sensual, envolvente. Para mim, fazer amor com uma mulher, mesmo que de maneira lasciva e quente, se equivale a quando Deus fez a mulher. Costumo dizer que, quando Deus desenhou a mulher, a sua forma de amar e de ser amada, ele estava fazendo poesia e foi um dos intentos desse livro, mostrar a beleza do sexo entre duas mulheres.

– Literatura Erótica tem que ter uma boa história de amor para prender os leitores?

Depende muito do leitor e o que ele busca. Há leitores que vão buscar apenas o ato sexual em si. Esses leitores, eu julgo não quererem o erótico e, sim, o pornográfico. O leitor do erótico, esse sim, quer uma história, quer poder recriar em sua imaginação a cena, se excitar com cada detalhe e se imaginar sendo um dos personagens. Mas no final das contas o que prende o leitor numa literatura erótica, sobretudo lésbica, é a curiosidade de saber e entender como o sexo entre mulheres funciona e, também, a imaginação que fica solta e liberta os desejos mais sacanas de cada um.

– Gosta que descrevam sua literatura como lésbica? Ou prefere que ela seja vista apenas como literatura?

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Não gosto de rótulos, definitivamente, não gosto de rótulos. Não gosto nem de ser chamada de lésbica. Eu gosto de pensar e de expressar que sou uma mulher que ama amar outra mulher e vejo assim a minha literatura. Não creio que ela seja lésbica, pois meu público alvo não é só homoafetivo, e, sim, qualquer leitor que se interesse por literatura “Hot”. Acredito que minha obra não deva ser limitada, mesmo porque não escrevo só temática erótica e lésbica, tanto que será lançado, acredito que até o final do outro mês, mais um livro meu que é um romance espírita também baseado em um dos meus amores (neste caso, ter um casal lésbico como protagonista, não foi o foco). Esse livro, por não ter a vertente erótica e, sim, espiritual, acaba demonstrando que limitar minha escrita a rótulos não será o ideal, pois, consigo transitar por vários gêneros, o importante é gerar uma literatura que envolva.

“Achei interessante esses participantes verem como um lançamento de um livro com o teor do meu ser uma luta. Confesso que não foi a intenção, eu não sou militante que anda de bandeira colorida e tem que afirmar minha sexualidade para causar, mas percebi ali que, de certa forma, eu estaria alimentando forças para os que lutam sendo a voz desse clã e sendo um dedo na ferida da homofobia, e isso me deixou plena, afinal, perceber que você, com sua obra e seus pensamentos, fazem a diferença, é no mínimo engrandecedor.”

– Cassandra Rios, pseudônimo de Odete Rios, é considerada a precursora da literatura erótica lésbica no Brasil. Ela é uma autora de cerca de 50 livros, com tiragens de cerca de 300 mil exemplares e, mesmo assim, muitos não a conhecem. Ela foi alvo de censura, mais de 70% dos seus livros foram proibidos até 1974. Vivia-se a ditadura militar no Brasil e, com isso, tentaram calá-la. O Estado considerava o conteúdo pecaminoso. Quase meio século depois, houve avanço? Ou ainda tentam calar a voz de quem quer produzir literatura erótica que aborda o amor entre mulheres no Brasil?

Olha, acredito que, em certa medida, houve um avanço. Nada muito expressivo, mas já é um começo. Escuto com frequência, senhoras, heteros, que, quando lancei o livro, disse: “minha filha, parabéns pela sua conquista, achei incrível a sua coragem de escrever, tenho curiosidade para ler, mas não posso ficar clicando nessas coisas, vão achar que eu sou o quê?”. Nessas falas, eu percebo que o tabu do erótico, sobretudo o erótico lésbico, ele incendeia a curiosidade, mas, ao mesmo tempo, ainda coage os que têm a mente limitada seja pelo motivo que for. Há alguns dias, eu estava em um grupo em uma rede social de leitura coletiva, e, quando divulguei o livro na Amazon, uma integrante reagiu de forma surpreendente. Ela colocou em caixa alta as palavras: “Adm, que pouca vergonha é essa?”, e, em seguida, ela saiu do grupo. Lamentei, pois, em seguida, os outros participantes disseram: “nossa, que mente pequena, literatura é literatura, adorei o tema e estou curiosa, parabéns e continue a sua luta”. Achei interessante esses participantes verem como um lançamento de um livro com o teor do meu ser uma luta. Confesso que não foi a intenção, eu não sou militante que anda de bandeira colorida e tem que afirmar minha sexualidade para causar, mas percebi ali que, de certa forma, eu estaria alimentando forças para os que lutam sendo a voz desse clã e sendo um dedo na ferida da homofobia, e isso me deixou plena, afinal, perceber que você, com sua obra e seus pensamentos, fazem a diferença, é no mínimo engrandecedor.

– Quais são, a seu ver, os principais nomes da literatura lésbica no país e que devem ser lidos por quem gosta desse gênero literário?
Bom, impossível não falar em Cassandra Rios, a paulistana, foi a pioneira nesse tipo de literatura. Sem dúvidas, Rios é o grande divisor de águas no país, afinal, lá fora temos muitos nomes como o de Alice Walker, que escreveu “A cor púrpura”. Porém, no Brasil, ainda não temos muitas autoras nesta vertente. Mas acredito que Rios seja o nome que não pode faltar pelo pioneirismo, pela luta contra a perseguição que ela vivera e sua obra. Outro nome que acredito ser importante nessa vanguarda é Natália Borges Polesso. A escritora ganhou o prêmio Jabuti, um dos mais importantes prêmios do Brasil, pelo Livro “Amora” que são contos que trazer as relações amorosas entre mulheres de diversas perspectivas, dando uma visão ampla que vai da descoberta da sexualidade até a percepção de ser lésbica. Acho que de forma substancial seriam esses os nomes que eu indicaria e quem sabe, sendo ousada ou não, um dia meu nome não estará nessa pequena lista (risos).

– Aonde sonha chegar com a sua literatura?

Bem, ao contrário do que todos acreditam, não quero chegar aonde meus pés não possam tocar, no caso, só na academia brasileira de letras (risos). Bom, o fato é que, todo autor deseja chegar com a sua literatura ou a um prêmio que dê uma visibilidade, a um estudo dentro de uma sala de aula preparatória para o vestibular, ou ser um nome a ser estudado para uma critica literária nas salas de aula da faculdade de Letras. Mas, hoje, em primeiro lugar, aonde eu quero chegar com a minha literatura é na alma humana, fazer com que o meu leitor se reconheça nos meus versos, na minha prosa, na minha estória, nas minhas músicas, na minha forma de colocar minha voz. Depois disso, ser uma autora conhecida por ser a escritora que tocava a alma, o corpo e o coração, já está lindo. Mas, se eu chegar a uma visibilidade legal que me leve a algum lugar onde eu mereça estar, já me fará surpreendentemente feliz.

Sala de Leitura: Segunda-feira, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,3).

“Entre os lençóis do prazer”

Autora: Jamila Almas

Disponível na Amazon (97 páginas)

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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