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“Tudo o que escrevo tem o rastro de uma conversa imaginária com Derrida”, confidencia Luiz Fernando Medeiros de Carvalho

Por Marisa Loures

26/01/2021 às 07h00 - Atualizada 26/01/2021 às 18h16

Luiz Fernando Medeiros de Carvalho organiza “Retrato do outro/Lugar de conversa”, livro escrito com alunos, amigos e parceiros de afeto – Foto Márcia Carneiro

“Retrato do outro” (Uboro Lopes, 194 páginas) é um “Lugar de conversa”. Um livro que o professor Luiz Fernando Medeiros de Carvalho escreveu em diálogo com alunos, amigos e parceiros de afeto. Fui aluna dele no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Por isso, não é difícil imaginar como se deu essa troca com os autores (a aula dele é uma conversa constante), sempre inspirados por Jacques Derrida. Luiz Fernando fez um pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, sob a supervisão do filósofo francês, morto em 2004, e, com ele, aprendeu muito do que leva para a sala de aula e também para a vida.

“O primeiro ensinamento de Derrida que uso como método de construção desse livro é buscar sempre mais de um ponto de vista. Nunca permanecer na unidade fechada de uma crença. Para a vida, trago a experiência da meditação sobre o dom, que é um movimento de despossessão incondicional e sem retorno, sem a lógica dos relacionamentos pautados pelo custo e benefício, característicos do troquismo, do toma lá-dá-cá. E a questão da promessa enquanto um dizer entusiasmado, meio cômico, porque sempre incompleto, e que não se configura como contrato culposo. Ouvir e seguir Derrida nos seus seminários e por intervalos salteados, ao longo de dez anos, e entrevistá-lo por 15 vezes, foi uma experiência de hospitalidade e gentileza da parte dele que se inscreveram, no meu coração, como orientação do caminho a seguir. Tudo o que escrevo tem o rastro de uma conversa imaginária com Derrida”, conta o professor, que respondeu às minhas perguntas e colocou-se prontamente à minha disposição para mais uma rodada de conversa.

Conversamos mais e poderíamos estender nosso colóquio por horas e horas. Como carioca, ele ama o mar. Vejo-o naquela praia onde, em geral, os protagonistas de Luc Besson sonham estar quando estão em um momento de perigo existencial. A praia apresenta-se para eles como um paraíso, o lugar ideal para encontrar alguém e conversar. Aliás, foram as obras de Luc Besson que instigaram Luiz Fernando na escrita do prólogo de “Retrato do outro”. E foi o texto do professor que serviu de inspiração para a fotografia que Maria Alejandra Rojas Garavito fez especialmente para a capa do livro. A fotógrafa, formada pela Escola International de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños, em Cuba, registra, na imagem, uma mulher que observa, da janela, outra pessoa, em outro prédio. O cenário é latino-americano, e elas estão longe uma da outra, separadas pela rua, ilustrando a resistência das relações humanas no contexto pandêmico.

Em “Retrato do outro”, encontramos reflexões sobre artes plásticas e cinema. Para essa conversa, Luiz Fernando convidou Thiago Berzoini, professor de artes plásticas do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e doutorando do PPG: Letras da UFJF; Luana Martins de Arruda, mestranda do PPG Letras da UFJF; Nícolas Candido Rodrigues, roteirista e cineasta, formado pela Escola International de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños; Dermeval Netto, jornalista, crítico de cinema e professor; Adriano Moura, doutorando do PPG Letras da UFJF e professor do IFFluminens;  Márcia Carneiro, jornalista e especialista em literatura brasileira; Marchon Coube, mestre em filosofia pela UFRJ e professor da Unilagos; Volmir Cardoso Pereira, doutor em estudos literários pela Universidade Estadual de Londrina e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul; e Luciana de Oliveira Rodrigues, doutoranda do PPG Letras da UFJF e professora de Apoio Educacional Especializado na Rede Estadual de Minas Gerais.

Como se vê, há uma profusão de diálogos, o que evidencia a inquietação de Luiz Fernando. Mesmo na pandemia, ele não para. Faz muitos e muitos planos, os quais envolvem literatura e cinema. Lê até meia-noite. Depois, assiste a filmes até as 3h. Se o filme estiver muito bom, ele segue sem hora de parar. Enquanto não pode pular e dançar rock, atividades que ele adora, equipa-se com máscara e sai para caminhar. Bem protegido, ele garante. Tenho certeza de que, em suas andanças, nascem as inúmeras ideias que ele tem em mente. Tudo a ser realizado dentro do possível, levando em conta o momento em que vivemos. “Temos que trabalhar com a reserva do possível. Está tudo asfixiado, estamos num movimento de asfixia criado por um sistema extremamente cruel. Correndo riscos. O possível é a brecha da ação.”

Os interessados em adquirir “Retrato do outro/Lugar de conversa” devem entrar em contato com o professor Luiz Fernando através do e-mail: [email protected]

Marisa Loures – Você é um professor que gosta da conversa, sempre aberto à troca em sala de aula. E aí lança um livro com essa proposta. É uma obra com textos acadêmicos, mas o título dela parece desconstruir aquele rigor das publicações científicas. A ideia era essa? Desconstruir?

Luiz Fernando – Esse é um livro que nasceu da necessidade de reunir muitos trabalhos em parceria não só com alunos, mas com amigos, filho cineasta, namorada e colegas de trabalho de outros lugares. É também um livro que registra quatro trabalhos escritos em parceria com os alunos do PPG  Letras: Estudos Literários no período em que fui professor visitante da UFJF (2018/2019), período muito feliz e profícuo e que este livro testemunha. O método de construção seguiu um pouco o modelo da corporação de ofício: eu escrevia metade das páginas e entregava aos parceiros e parceiras a finalização. Esses alunos toparam dividir comigo a construção dos ensaios. A pró-reitoria estimulava a produção de trabalhos em parceria com alunos. A minha experiência nesse período definiu o meu modo de agir para os próximos anos. É um livro todo pensado por mim enquanto projeto arquitetônico de livro, mas me coloquei como organizador e não como autor único. O sumário torna visíveis os parceiros, além de constar uma página somente para os parceiros. Acho que, visualmente, o livro realiza a ideia de parceria. Respondendo à sua pergunta, acho também que o livro é uma forma de saída do narcisismo da autoria e a tentativa de desenhar a atividade fundamental da conversação como constituinte do comum. Sempre conversei muito e exercitei ouvir muito. Aprendi com Murilo Mendes o exercício da conversação através do livro testemunho das conversas do poeta com o pintor Ismael Nery, o “Nijinsky da conversação”. O livro é um primeiro gesto nessa direção. Na introdução, tem um trecho que é esclarecedor do método:

“Nos filmes de Luc Besson em geral os personagens protagonistas sonham com uma praia onde possam descansar suas mentes atribuladas. Essa imagem da praia não vem nunca separada de uma boa conversa. Praia e conversa. Ou qualquer outro lugar aprazível onde se possa abrir mundos de possibilidades, em instantes de satisfação onde se desfrute a delícia da conversa. Para saborear pontos de vista. Sem a ameaça do desconforto da fala discordante ou competitiva. Um outro lugar. O lugar da troca sem maiores inquietações. Assim nasce a proposta desse livro. Ser um motivador de conversas múltiplas que serão retomadas em outras ocasiões com maiores desdobramentos”.

– Você disse que a sua experiência nesse período definiu o seu modo de agir para os próximos anos. E como vai ser o seu agir?

A minha experiência com vocês, alunos, como professor visitante na UFJF, foi radical para mudar a minha vida, porque ser professor é uma intensidade mental violenta e exige uma concentração enorme. Acho que eu me concentrei muito e, de alguma forma, decidi que preciso escrever livros. E estou com projeto de três a cinco livros neste ano como forma de me preparar para, num futuro próximo, voltar a lecionar, mas com os livros como uma espécie de reserva de pesquisa. É engraçado, tenho relido alguns textos de um livro que lancei em 2004 sobre Derrida, chamado “Cenas derridianas”, e tenho achado ótimo. Então, os livros são reservas de pesquisa para eu voltar a falar numa intensidade mental violenta, que é a docência. Você precisa recuar, para escrever e voltar. Voltar e recuar. Recuar e agir. É um movimento duplo. Neste momento, estou mais interessado em escrever ensaios, escrever poesias, escrever ficção, dirigir filmes com meu filho. Conversar com os parceiros vivos de Derrida, como Michel Deguy, Jean-Luc Nancy e Serge Margel. Nancy aceitou fazer um filme comigo. Vamos começar o projeto em julho. Mandei para ele no Natal o vídeo de entrevista que fiz com o Michel Deguy, e ele adorou. Vai ser um filme sobre a obra do Nancy. Uma conversa inquieta em que vou disparar 15, 20 perguntas em cima dele. Vai ser uma conversa entre nós dois.

– Quais são as questões que você e os parceiros com quem dialoga levam para “Retrato do outro/lugar de conversa”?

O título do livro nasce de um dos artigos intitulado “Retrato do outro” que escrevi em parceria com o doutorando Thiago Berzoini. Estive em Amsterdã visitando o Museu Van Gogh, fiquei por oito horas dentro do Museu, e um quadro me fascinou em particular, um dos autorretratos do pintor com chapéu. Tinha lido um ensaio de Jean-Luc Nancy (filósofo francês) sobre autorretrato, e o ensaio nasceu dessa conversa com o livro de Nancy. Escrevi uma parte e o Thiago, que é professor de artes plásticas, escreveu outra. Já fizemos juntos várias apresentações desse ensaio em eventos acadêmicos. Eu transportei a ideia de retrato para o encontro com a promessa da conversação, porque a conversa pressupõe alguma viagem, alguma mudança de perspectiva. E a pintura de Van Gogh é a encarnação de uma viagem da mente ao pincel. Assim o livro nasceu tratando de assuntos ligados às artes plásticas, à poesia, à ficção, e ao cinema. Há no livro três ensaios sobre artes plásticas e três ensaios sobre cinema.

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– E quem é o público-alvo deste livro? O que você espera provocar em quem o lê?

O público-alvo será inicialmente o leitor de ensaios acadêmicos, mas inclui todo leitor curioso em acompanhar, por exemplo, os movimentos de uma personagem protagonizada por Juliette Binoche, no filme “Cópia conforme”, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, por quem tenho enorme admiração. Meu filho, Nícolas Candido, entrevistou o diretor em Cuba e, para essa entrevista, eu fiz muitas perguntas que ele respondeu com tradução para o inglês e ainda disse que se sentia conectado comigo. Veja até onde chega o projeto da conversação. Esse ensaio intitulado “Viagem à Toscana” foi escrito em parceria com o jornalista e diretor de TV, Dermeval Netto. Quem lê o artigo, fica com vontade de ver ou rever o filme. Já houve depoimentos de leitores manifestando o desejo de conhecer a obra. Eu espero provocar no leitor uma parada, um momento para se refletir melhor sobre cada plano, cada nuance construída pelo filme.

“O cinema é uma máquina desejante de romper a função escópica do olho. Todos os fascismos e orientações autoritárias querem normatizar o modo de olhar do cidadão.”

– Já me disse que, para você, cinema não é entretenimento. “É uma máquina desejante de romper a função escópica do olho”. Conversamos sobre isso, porque você revela que gostaria de escrever como quem filma. Em “Retrato do outro/lugar de conversa”, o cinema está ali. As ligações entre o cinema e a política podem ser exploradas a partir de diversos pontos de vista. Podem ser abordadas questões sobre produção, distribuição, regulamentação, enunciados das obras fílmicas e do cinema como forma de pensamento político. Como enxerga as relações entre o cinema e a política?

Como você mesma citou, o cinema é uma máquina desejante de romper a função escópica do olho. Todos os fascismos e orientações autoritárias querem normatizar o modo de olhar do cidadão. A indústria cultural já entrega a imagem com a sua correspondente interpretação discursiva. Em geral, as televisões não deixam a imagem livre à interpretação. O cinema dos grandes mestres, como Pasolini, Visconti e Godard, não deixam o espectador entregue aos seus hábitos oculares condicionados. Há um ensaio inédito especialmente escrito para o livro, feito em parceria com um professor de literatura, da Universidade Estadual de Campo Grande (UEMS), Volmir Cardoso Pereira e com a jornalista Márcia Carneiro. O filme analisado é o “Youth”, do cineasta italiano Paolo Sorrentino, um dos maiores interpretes da crise existencial do mundo de hoje. Eu pedi a especial intervenção de Marcia Carneiro para uma crítica ao patriarcalismo arraigado num dos personagens principais do filme. Cinema é sempre político quando faz o olho do espectador escapar do automatismo da percepção, e, portanto, do senso comum.

 – A política tem uma fundamentação no mundo sensível, assim como a expressão artística. A seu ver, a política tem a capacidade de influenciar as manifestações estéticas?

Tudo gira em torno da política. A arte responde a seu modo aos movimentos sociopolíticos. De modo direto pela arte participativa em suas várias modalidades, ou de formas indiretas, extremamente nuançadas, ou metamorfoseadas. As grandes obras estão sempre respondendo ao seu tempo político. Impossível dissociar toda a obra de Visconti do seu contexto, ou de Pasolini, ou de um filme do pós-guerra alemão de Christian Petzold, “Phoenix”, por exemplo. No nosso cinema, Bacurau, com a sua contundência metafórica antifascista.

– É o momento que o instiga a produzir?

A filosofia é o que me sustenta na vida. Eu fico lendo e fazendo curso de filosofia. Faço três cursos de filosofia com um discípulo de Gilles Deleuze, o Mário Bruno, professor da UERJ. Ele é meu interlocutor para a filosofia e para a vida também. Dia 26 de abril de 2020, eu entrei no hospital com 41 graus de febre e fui direcionado para o setor de isolamento. Dez minutos depois, a médica que me atendeu viu que eu não tinha problema nenhum com respeito à Covid, eu estava com oxigenação perfeita. Fiz exame de sangue e fiquei esperando duas horas para fazer a tomografia e constatou-se que eu estava com Apendicite fora da idade. Eu desci as rampas com a médica me levando no carrinho, e eu transformei aquela descida num plano-sequência, curtindo como se estivesse filmando tudo e sendo filmado. Era o cinema me ajudando a viver naquele momento. Quando cheguei em casa, eu falei: “Tenho que escrever um livro para dizer a mim mesmo que eu existo.” Aí eu escrevi a primeira edição do “Retrato do outro” e fui exagerado demais, porque coloquei meu nome em tudo. Depois que o livro ficou pronto, vi que estava demais, exagerado. Então, fiz a segunda edição e doei a autoria mais visível para os parceiros, porque aí eu já estava equilibrado. Já estava menos necessitado de ego. A primeira edição é a sobrevivência; a segunda edição é a experiência com o outro, a experiência com a conversa, é realmente a afirmação da parceria.

“Retrato do outro/Lugar de conversa”

Organizador: Luiz Fernando Medeiros de Carvalho

Editora: (Uboro Lopes, 194 páginas)

Para adquirir “Retrato do outro/Lugar de conversa”, entrar em contato com o professor Luiz Fernando através do e-mail: [email protected]

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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