Tópicos em alta: coronavírus / vacina / tribuna 40 anos / polícia / obituário

“Precisamos falar sobre abuso”, afirma a jornalista Ana Paula Araújo

Por Marisa Loures

22/12/2020 às 10h16 - Atualizada 16/02/2021 às 08h52

A jornalista da Rede Globo Ana Paula Araújo fala sobre  “Abuso – a cultura do estupro no Brasil’, livro que demandou quatro anos de pesquisa, entre entrevistas com vítimas, especialistas e criminosos – Foto: Leo Aversa

De acordo com a jornalista, apresentadora do “Bom Dia Brasil”, da Rede Globo, Ana Paula Araújo, “toda mulher convive com o fantasma da violência sexual.” Portanto, é necessário falar sobre isso. Em 2019, a cada 8 minutos, foi registrado um estupro aqui no país, sendo a maior parte das vítimas do sexo feminino, conforme mostram os dados compilados, em 2020, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, baseados em informações das Secretarias Estaduais de Segurança Pública e/ou Defesa Social dos estados. No total, foram 66.123 boletins de ocorrência de estupro de vulnerável registrados em delegacias de polícia só no ano passado, e, em 84,1% dos casos, o criminoso era conhecido, sendo um familiar ou uma pessoa de confiança da vítima.

“Desde muito cedo, desde a adolescência, há uma preocupação constante com ser vítima de algum ataque sexual, de alguma investida indesejada. Há, também, as pessoas que, de fato, passam por violências sexuais graves, casos de estupros contra crianças dentro de casa. Isso vira um trauma para sempre, e é um assunto sobre o qual a gente não fala muito, né? Fica ainda muito por baixo do tapete. Por isso, a campanha do livro é ‘precisamos falar sobre abuso’. Acho que, quanto mais a gente fala, mais a gente ajuda as vítimas e mais a gente provoca reflexão, o debate, para que esse tipo de violência comece a não fazer mais parte das nossas vidas”, reforça a jornalista. Durante quatro anos, ela percorreu o país colhendo depoimentos para o livro “Abuso – a cultura do estupro no Brasil” (Globo, 320 páginas), recentemente enviado para as prateleiras.

Ela ouviu mais de cem pessoas, entre vítimas, especialistas e criminosos. O primeiro caso narrado na obra é o de quatro meninas que foram, em 2015, agredidas, estupradas e jogadas de um penhasco de mais de dez metros de altura na cidade de Castelo, no Piauí. Uma delas morreu. “Vou sobreviver?” Esse é o título do texto que nos deixa tocados e sem palavras diante de tantas atrocidades e que, de certa forma, prepara-nos para as próximas histórias relatadas. Para proteger a identidade das vítimas, a jornalista cria um nome fictício para cada uma delas. Aliás, como ela aponta no livro e volta a repetir nesta entrevista à coluna Sala de Leitura, estupro é o único crime que deixa a vítima envergonhada, logo, o nome fictício é necessário.

Ana Paula é mãe de uma menina adolescente, de 14 anos, e enfatiza, nesta entrevista, que uma das maneiras de colaborar para que crimes desse tipo não aconteçam mais é investir em educação desde muito cedo. Nascida no Rio de Janeiro, ela veio com a família para Juiz de Fora ainda pequena. Começou a fazer o curso de Comunicação Social na UFJF, e, aos 18 anos, conseguiu estágio na Rádio Globo, do Rio, transferindo-se para a Universidade Federal Fluminense.

Marisa Loures – Durante a pesquisa para o livro, conversou com várias mulheres que sofreram abuso sexual. O que os casos relatados por elas possuem em comum?

Ana Paula Araújo – O perfil das vítimas de violência sexual é muito variado, tem de todas as idades. Os crimes acontecem em todos os tipos de ambiente, em todas as regiões do país, em todas as classes sociais. É realmente um perfil muito variado, mas o que tem em comum entre todas as vítimas é o sentimento de culpa, de vergonha. Eu digo que o estupro é o único crime que a vítima é que se sente culpada. E, mesmo aquelas vítimas que sabem que a culpa não é delas, ainda sentem uma certa culpa. Isso é algo que tem que ser trabalhado por algumas delas. Algumas conseguem isso melhor do que outras.

– Enquanto lia sua conversa com a Jéssica, que foi vítima de um estupro coletivo junto com outras três amigas, fiquei muito tocada e pensando em como o encontro de vocês deve ter sido triste e difícil. Como fez para conseguir que as vítimas se abrissem com você? Como foram os encontros com elas? 

Por incrível que pareça, o encontro com a Jéssica foi um dos encontros que me deixou mais aliviada, porque ela estava bem, apesar da violência absurda que ela sofreu junto com as amigas, apesar de ter presenciado a morte de uma das vítimas. Ela conseguiu se refazer, ela tinha todo o apoio da família. Já estava namorando. Soube depois que já casou, teve filho, entrou para a faculdade. Isso deixou, para mim, muito claro que, quando há uma rede de apoio em volta, da família, da polícia, da justiça, das instituições, a recuperação da vítima é muito melhor. Os encontros com as vítimas em geral foram muito catárticos, eu acho. Muitas delas ali, ao contrário da Jéssica, não tinham tido apoio nenhum, em momento nenhum. Pelo contrário, foram recebidas com desconfiança, com descrédito. E algumas estavam, pela primeira vez, conseguindo contar o que aconteceu para alguém sem serem julgadas, sendo minimamente acolhidas. Eu recebi retorno de uma filha de uma vítima dizendo que a mãe virou outra pessoa depois da nossa entrevista, porque foi como se, finalmente, ela tivesse conseguido receber algum tipo de acolhimento, ser ouvida, sem ser desacreditada, e isso fez diferença para ela, e eu sinto que esse efeito o livro traz em muitas pessoas também.

 – Seu livro traz um dado preocupante. Apenas 10% dos casos de estupro são denunciados no nosso país.  Quais são as possíveis causas e como mudar essa situação?

Realmente, é assustador a gente pensar numa estatística de mais de 66 mil estupros ao longo de um ano no Brasil e saber que isso é apenas 10% do total, né, que 90% dos casos não são notificados para a polícia, nunca chegam para a justiça. E isso se dá, principalmente, por essa dificuldade de acolhimento das vítimas. Geralmente, quando as pessoas vão à delegacia, não é raro que elas sejam recebidas com deboche, com descrédito. O mesmo se repete depois na justiça. É uma verdadeira via crucis, um constrangimento ter que passar por determinados exames, ter que contar tudo o que aconteceu, e saber que, no fim, por ser um crime que fica ainda muito com a palavra da vítima contra a palavra do agressor, há uma grande chance de não dar em nada, não ter nenhuma punição, e a vítima ainda acaba se expondo, revivendo aqueles momentos dolorosos. Então, eu digo sempre que é importante a denúncia, tem que denunciar, mas a gente tem que trabalhar muito ainda no que é que essa vítima vai encontrar quando ela for denunciar. Menos de 7% dos municípios brasileiros têm delegacia da mulher. A concentração maior, inclusive, é em São Paulo. Há desertos de atendimento especializado à mulher em várias regiões do país. Então, acho que o principal, para isso, é a gente aprender a acolher melhor as vítimas. Isso é o que pode fazer com que as denúncias aumentem e com que se tenha mais punição.

– Como você escreve, infelizmente, é comum culparem a vítima pelo estupro, seja por causa da roupa que ela veste ou por causa de um batom vermelho. Com base na sua pesquisa pode responder o que faz a sociedade agir assim?

É nossa cultura machista, que tende a botar a culpa por uma violência sexual em cima da vítima. E o pior é ver que essa cultura machista, também, está dentro das próprias vítimas. Por isso muitas delas se sentem culpadas, ficam achando que, se tivessem agido de uma maneira diferente, se tivessem com outro tipo de roupa, se tivessem em outro tipo de lugar, se tivessem gritado, que algo poderia ser mudado, que elas poderiam ter evitado, quando, na verdade, a gente sabe que isso não existe, vide o grande número de casos em que crianças são vítimas. Isso acontece dentro de casa, acontece em espaços de trabalho de ensino. Então, é um erro enorme culpar as vítimas, mas, infelizmente, a nossa cultura machista faz com que ainda mais essa carga recaia em cima das vítimas.

O conteúdo continua após o anúncio

– No livro há entrevistas não só com vítimas, mas também com criminosos. Você conta, inclusive, que não foi fácil estar cara a cara com quem comete esse tipo de atrocidade. Qual o perfil você traçou desses homens? Pelo que seu livro traz, não existe um padrão, não é mesmo? Como foram essas conversas?

As entrevistas com os criminosos foram todas muito difíceis, seja porque muitos, apesar de terem várias condenações pelo crime, várias vítimas, continuam negando terminantemente o que aconteceu, acho que não assumem nem pra si mesmos. Há, também, os que assumem, que contam tudo, e são relatos, às vezes, muito chocantes, muito revoltantes. E o perfil dos criminosos, assim como das vítimas, também é extremamente variado. O que posso dizer é que não é aquele perfil do monstro que fica escondido numa rua deserta, esperando para atacar a mulher sozinha. Esses criminosos estão dentro de casa, estão nos ambientes de trabalho, nos ambientes de ensino. São pessoas, muitas vezes, acima de qualquer suspeita, que circulam tranquilamente entre nós e que, em determinado momento, em vários momentos, se acham no direito de abusar sexualmente de uma mulher ou, pior ainda, de uma criança.

– Muitas vítimas que sofrem abusos na infância guardam traumas e levam sequelas para a vida toda. A vítima do estupro coletivo, por exemplo, precisou mudar de cidade, ela não aguentou conviver com a possibilidade de encontrar com pessoas que sabiam do ocorrido. Com isso, a família dela se dividiu. O que os especialistas ouvidos por você dizem sobre isso? É possível superar esses traumas? Como lidar com essas questões?

O que mais vai determinar se a vítima vai superar ou não o trauma é a rede de apoio em torno dela. Se essa vítima conta para a família, para amigos, e ela tem o apoio, e as pessoas saem em defesa dela, não ficam questionando, botando em dúvida o depoimento dela; se ela chega a uma delegacia de polícia e é tratada com dignidade, com respeito, é bem acolhida, no serviço médico, ou mesmo na justiça… Quando essas instâncias todas de apoio funcionam, isso é determinante para que a vítima possa superar o trauma. Para isso, há também, claro, outros mecanismos, como terapia, tratamentos, muitas vezes com medicamentos. Tudo isso sendo ministrado da maneira adequada ajuda, e muito, mas o principal é, realmente, a rede de apoio em torno dessa vítima.

– Nunca se falou tão abertamente sobre esse assunto como tem acontecido agora. Você escreve isso. Suas redes sociais são uma prova disso, visto que vários artistas vestiram, literalmente, a camisa. A seu ver, o que tem encorajado as mulheres? Estamos caminhando para uma mudança positiva?

 – Acho que exatamente o que tem encorajado as mulheres é ver que elas não estão sozinhas. Quando começou aquela campanha do MeToo e quando começou aqui no Brasil a campanha do primeiro assédio, acho que as pessoas foram falando, e aí outras foram se encorajando a falar, e aí fomos vendo que isso, na verdade, é uma praga que está presente na vida de todas nós, mulheres, seja de maneiras mais graves, ou de maneiras menos graves, aqueles abusos dentro de transporte público, piadinhas machistas no trabalho. Eu acho que isso é o que está encorajando as mulheres, é sentir que é uma injustiça muito grande que permeia a vida de todas nós. Acho, sim, que, por esse debate, pela luta das mulheres, e pelo posicionamento cada vez maior das mulheres de não aceitarem mais conviver com esse tipo de violência no nosso cotidiano, estamos, sim, caminhando para uma mudança positiva.

–  Vou devolver para você um questionamento seu: “O que todos nós, homens e mulheres, podemos fazer para que coisas assim não aconteçam mais?”

O principal que todos nós, homem e mulheres, podemos fazer eu acho que se divide em dois aspectos: na prevenção e, depois, no acolhimento às vítimas. Já falei aqui bastante do acolhimento. Acho que é algo que todos nós temos que mudar e não receber a vítima com desconfiança, acreditar na vítima, apoiar as vítimas. E, na prevenção, é educação. Investir em educação desde muito cedo. Crianças, meninos e meninas, têm que saber o que são partes íntimas, têm que saber que não podem ser tocadas, que, se houver algum toque inadequado ou incômodo, que isso tem que ser falado para um adulto de confiança. Informação previne os crimes, informação protege as crianças. E, mais à frente, nossos agentes públicos que lidam com as vítimas têm que receber, também, uma educação de gênero para não reproduzirem os preconceitos da nossa sociedade machista nesse atendimento. Acho que assim se constrói um ambiente mais saudável para todos.

“Abuso – A cultura do estupro no Brasil”

Autora: Ana Paula Araújo

Editora: Globo Livros (320 páginas)

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade pelo seu conteúdo é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia