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Keka Reis: “Conflito é alimento puro para qualquer autor. É vida, trama, movimento”

Por Marisa Loures

21/09/2021 às 08h00 - Atualizada 21/09/2021 às 21h45

Finalista do Jabuti de 2018 e 2019, Keka Reis estreia na literatura juvenil com “Medley ou os dias em que aprendi a voar”, livro que explora amadurecimento infantojuvenil, luto, relacionamentos amorosos e o despertar para a sexualidade – Foto Divulgação

Dizem por aí que tem leitor que escolhe o livro pela capa. E longe de mim contestar tal hábito. Há umas duas semanas, recebi “Medley ou os dias em que aprendi a voar” (Plataforma 21, 232 páginas). Estava começando uma aula com alunos do nono ano do Ensino Fundamental. Naquele momento, só tive tempo de ler a sinopse e o release enviado pela assessoria, mas gostei muito do que vi e mostrei-o para a turma. Já que o assunto naquele dia era Resenha Crítica, imediatamente, começaram a analisar a capa e foram logo tecendo vários elogios.

A impressão que eles tiveram não me surpreendeu, pois, sem sombra de dúvidas, trata-se de um livro que foi idealizado com os ingredientes necessários para fisgar o público juvenil: as cores alegres, a ilustração na capa, a inserção de um mapa no início do livro e os pequenos desenhos superfofos a cada início de capítulo. Já considerando o texto, a narrativa em primeira pessoa faz de Lola, a protagonista da história, alguém bem próximo do leitor. Isso sem contar que a autora, keka Reis, trouxe-nos uma trama recheada de referências musicais, literárias e cinematográficas.

Keka é uma escritora, roteirista e dramaturga que começou a trajetória profissional como roteirista da MTV. Isso lá nos anos 1990, quando a emissora dominava a preferência do público jovem. Com isso, não me surpreende a afinidade que ela demonstra ter com os leitores de “Medley”.  “Outra coisa que me conecta demais com o público adolescente é o fato de eles estarem em constante conflito e transformação. Conflito é alimento puro para qualquer autor. É vida, trama, movimento. E nada melhor do que um personagem assim para criar histórias legais”, conta ela que, nesse novo livro, inspirou-se no primeiro longa-metragem adolescente que escreveu. Aliás, o texto foi premiado em festivais estrangeiros, como México Internacional Film Festival e top 10% no Bluecat Screenplay Contest, um dos mais prestigiados concursos de roteiro dos Estados Unidos.

Na história, Lola está vivendo o ano de 1990. É uma menina de 15 anos, campeã de natação e interessada em descobrir como seu pai morreu. Ela considera que a mãe é mais próxima do irmão e não consegue ficar feliz quando ganha mais uma medalha de ouro já que nunca tem alguém com quem comemorar a vitória. Sua vida muda quando vai para a fictícia Salto Bonito. Nessa cidadezinha do interior, “vão emergir não só memórias há muito esquecidas, mas novas partes dela mesma que Lola nem sabia que poderiam existir.”

Desde 2006, Keka assina como colaboradora em filmes e séries para a TV, e sua estreia na literatura ocorreu com a publicação dos infantojuvenis “O dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas” e “O dia em que a minha vida mudou por causa de um pneu furado em Santa Rita do Passa Quatro”, finalistas do  Prêmio Jabuti, em 2018 e 2019, respectivamente.

Marisa Loures – O que o adolescente de hoje quer ler? Como segurá-lo nas 232 páginas de “Medley ou os dias em que aprendi a voar”?

Keka Reis – Por mais que o mundo se transforme, a adolescência sempre vai ser uma fase muito rica e desafiadora, porque ela é uma transição. A passagem de uma fase da vida para outra. Os adolescentes de todos os tempos estão em um experimento constante de pertencimento e identificação. Eles precisam se distanciar da imagem dos pais e das projeções que os progenitores fazem para eles, para entender quem são, o que querem, para onde vão. Eu acho que isso não muda muito. Em 2021, as discussões são diferentes, o mundo se transformou demais e os adolescentes foram e serão profundamente afetados pela pandemia e por essa crise do neoliberalismo que coloca em xeque o futuro deles. No entanto, a necessidade de se identificar com um grupo ou um personagem sempre vai existir. E eu acho que a jornada da Lola pode criar nos leitores essa identificação. É o que eu espero.

– A vida da Lola muda quando ela vai para Salto Bonito. Sem dar muito spoiler, poderia adiantar um pouquinho para o leitor qual é a importância dessa cidade para ela?

Salto Bonito é o lugar em que Lola finalmente desabrocha. Ao se apaixonar pela primeira vez na vida e ficar alguns dias sozinha na casa do tio, a personagem tem a oportunidade de começar a fazer essa passagem tão normal e necessária na adolescência. A ideia que ela tinha dela mesma, muito permeada pela imagem que a mãe (sem saber) a ajudou a construir, de que era uma menina forte e responsável, uma campeã de natação madura e indestrutível, cai por terra. Ao entrar em contato com sentimentos que não conhecia, Lola vai se descobrir sensível, desorganizada e “humana, demasiadamente humana” (uma brincadeira com o nome de um livro do Nietzsche, também nome de um capítulo do “Medley”). Salto Bonito, seus moradores peculiares e a liberdade com que ela circula por essa pequena cidade também são os responsáveis diretos por essa transformação.

– “Medley” é inspirado no seu primeiro projeto de longa-metragem. Comparando essas duas produções, o que a história da Lola ganhou depois que foi parar em um livro?

Eu acho que a história cresceu muito no livro. Porque, como sempre diz a minha amiga Índigo (escritora maravilhosa que assina a orelha de Medley), o papel aceita tudo. Eu escrevo os meus roteiros de filmes e séries com a cabeça na produção, sabendo que o nosso mercado audiovisual ainda é pequeno e tem limitações de todos os tipos. Ao passar essa história para a literatura, o céu é o limite. Lola ganhou a Zoraide, a melhor amiga dela na cidade, e o acolhimento de uma família muito diferente da dela. Esse núcleo não existia no roteiro do filme. A cidade de Salto Bonito também ficou muito mais próxima da minha ideia original, coisa que eu tentei fazer no roteiro, mas não consegui. Um lugar em que coisas um pouco estranhas e peculiares acontecem, uma mistura de fantasia e realidade. Uma outra coisa importante de se dizer é que o roteiro do filme foi escrito em 2013 e o mundo mudou muito desde então. A jornada da Lola permanece a mesma, é o que falamos de identificação e pertencimento. Mas algumas questões e contextos foram transformados para que a história não ficasse parecendo antiga demais. Tive a parceria da incrível Thaise Macedo nesse trabalho, a editora da Plataforma21.

E considerando que essa história nasceu para o cinema, por que resolveu apostar na literatura?

Antes do “Medley”, eu tinha escrito os meus dois livros da série “O dia em que a minha vida mudou” e estava (estou) muito encantada com a literatura. Como a história já existia no roteiro, foi um movimento natural adaptar para a literatura. Um movimento de alguém que se descobriu autora de livros depois dos 40 anos de idade e que não quer nunca mais parar de fazer isso.

– Existe projeto de produzir o filme?

Existe projeto, desejo, sonho e muitas velas acesas aqui em casa. Os direitos do filme foram vendidos para uma produtora do RJ. Agora é torcer para os players e investidores se interessarem. Eu penso nisso pelo menos umas quarenta e duas vezes por dia. Quero ver essa história nas telas.

“Medley ou os dias em que aprendi a voar” é ambientado na década de 1990. Algum motivo especial para essa escolha temporal?

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Eu fui adolescente no começo dos anos 1990 e morei em uma cidade pequena e adorável como Salto Bonito. A história acabou saindo naturalmente naquela época. Outro dia ouvi da minha editora que os anos 1990 estão na moda. Fiquei feliz com isso, porque não foi uma escolha consciente.

– Por falar nisso, levando em conta que o livro é ambientado nos anos 1990, que caminho você percorreu para que o adolescente de hoje se identifique com a história da Lola? A ideia é dar a esse leitor a oportunidade de conhecer um universo um tanto distante dele?

Eu penso muito sobre isso, sabe? A ideia de mostrar uma época em que a tecnologia não estava presente em nossas vidas não foi mesmo proposital ou consciente, como se eu estivesse querendo dizer para os leitores jovens algo como… “no meu tempo as coisas eram assim”. Eu tenho horror desse começo de frase ou de qualquer tipo de julgamento nesse sentido. Acho que só afasta o leitor. No entanto, em conversas com a Thaise (editora), falamos que pode ser muito legal mostrar para esses jovens como eram as relações entre os adolescentes em uma época em que os encontros aconteciam de outro jeito. Tem uma cena no livro (essa também só tem no livro também, não veio do roteiro) em que a personagem telefona para a casa do crush e, quando ele atende, ela fica nervosa e desliga na cara dele. Fiz muito isso na minha adolescência, época em que os telefones eram aqueles de disco. Me parece que pode ser muito curioso para os adolescentes tomarem contato com esse mundo estranho.

– O que você espera do leitor de “Medley ou os dias em que aprendi a voar”?

Eu espero que eles se divirtam e se emocionem, como eu me emocionei escrevendo. E que eles contem para os amigos, parentes e conhecidos que leram um livro de que gostaram. Assim, valorizam a literatura juvenil, as autoras brasileiras, e, quem sabe, ajudam a colocar o drama da Lola nas telas!

“Medley ou os dias em que aprendi a voar”

Autora: Keka Reis

Editora: VR Editora, selo Plataforma21º (232 páginas)

 

 

 

 

 

Trecho de “Medley ou os dias em que aprendi a voar”

“Toda vez que alguém me pergunta a idade que eu tinha quando aprendi a voar, me lembro de uma história. Uma lembrança que eu não teria, mas que ficou na minha memória de tanto ouvir minha mãe contar: para mim, para os outros, para qualquer pessoa que tenha curiosidade a respeito das proezas de que sou capaz dentro de uma piscina. A minha mãe não é muito de falar, mas por alguma razão que não entendo direito, ela ama se lembrar dessas minhas primeiras braçadas. 

      Eu tinha pouco menos de 2 anos e estava correndo de um lado pro outro muito perto da piscina, na casa em que morávamos na época. Porque é isso que os bebês fazem: correm de um lado pro outro. Só que, no meio da correria, eu caí na piscina. Ou pulei, como vocês vão entender daqui a pouco. A minha mãe, que estava na espreguiçadeira lendo um livro gigantesco, ficou sem ação. Paralisada de medo. A única coisa que ela conseguiu foi gritar.

      “A Lola! A Lola caiu na piscina!'”

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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