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‘Nós estamos no mundo para viver a vida e não experienciar a morte’, reflete Luiz Fernando Medeiros

Por Marisa Loures

Luiz Fernando Medeiros de Carvalho
O professor Luiz Fernando Medeiros de Carvalho fala sobre ‘Alguma Chance: pensamento poético e discurso filosófico’, livro escrito em parceria com o suíço Serge Margel (Foto: acervo pessoal)

Vinicius de Moraes faz sonhar. Foi o Poetinha, com sua “Tarde em Itapoã”, quem “salvou” o professor Luiz Fernando Medeiros de Carvalho há três anos, quando, em uma noite pós-cirurgia, não havia remédio que o fizesse dormir. “No intervalo de vigília, ainda acordado, sem me apagar, me vem Vinicius de Moraes cantando ‘Tarde em Itapoã’, que é, digamos assim, uma utopia do amor feliz, da cidade feliz, da praia feliz, do poeta feliz. Aí eu consegui dormir com aquela música sonhada. E, de manhã cedo, acordei com o meu filho Ulisses me entregando um copo de água de coco. Então, era como se a água de coco tivesse sido doada pela canção de Vinicius”, disse ele.

Ouvi essas palavras na última quarta-feira, enquanto conversávamos sobre seu novo livro, “Alguma Chance: pensamento poético e discurso filosófico” (TextoTerritório, 84 páginas), fruto de mais uma parceria intelectual com o filósofo suíço Serge Margel. Na obra, os dois autores revisitam, em ensaios, não só o poeta e compositor carioca que embalou o professor, mas também Georges Bataille, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Armando Freitas Filho. É nesse encontro entre filosofia e poesia que está a proposta central da obra. A poesia, explica Luiz Fernando, “não é só emoção. É reflexão pensante a partir do reino do poema. O livro inteiro é essa proposta de hibridizar, de aproximar, de trazer Homero, poeta, para ‘A República’, de Platão.”

“Alguma Chance: pensamento poético e discurso filosófico” está disponível no site da editora TextoTerritório. Também pode ser adquirido na Planet (Rua Moraes e Castro 218 – São Mateus) e diretamente com o autor ([email protected]).

Marisa Loures — Há alguns anos, você me disse em entrevista que os livros nunca são um ponto de chegada, mas “um ponto de partida para outros saltos”. Em que medida “Alguma chance” é um novo salto? E para onde ele aponta?

Luiz Fernando — Qualquer novo livro se tornou um sucedâneo, uma nova área próxima da minha experiência de mais de 50 anos de magistério público e da minha experiência de professor titular em Literatura Brasileira na UFF, que me deu a oportunidade de fazer pós-doutorado por três vezes, com o filósofo Jacques Derrida e com a filósofa Sarah Kofman. Hoje, eu continuo como herdeiro dessas experiências de troca de mensagens, de escuta dos seminários, das entrevistas que os dois me deram. E eu transformo esses ensinamentos em experiências de escrita. Isso é muito interessante porque, depois de um certo tempo, releio e descubro que tem muita coisa ali que, apesar do esforço despendido, vejo que vale a pena, e que continuam a brilhar para mim e me fazem continuar escrevendo. Então, o livro, para mim, é um objeto artístico, um objeto sagrado, no sentido de que eu me inscrevo ali para o futuro. Nesse sentido, Alexandre Faria, editor e professor de Literatura da UFJF, deve inscrever esse livro em concursos que virão no ano que vem, como o Jabuti. Lancei o livro no dia 6 de fevereiro, lá na Blooks Livraria, na Praia de Botafogo, e recentemente aqui, no Espaço Manufato, que é uma galeria de arte. E foi uma integração total, porque eu estava inserindo o livro na comunidade dos artistas plásticos, porque eu considero esse livro uma obra de arte. A capa tem jogadores de dados em movimento. Todo ele foi muito bem trabalhado.

— E você está repetindo a parceria intelectual com Serge Margel. Como vocês dividiram a construção de “Alguma chance”?

Essa parceria já tem 25 anos de amizade. Eu conheci o Serge Margel em 1997, fui aluno dele. Eu o convidei para vir ao Brasil dar o mesmo curso sobre tragédia grega e, a partir daí, ele fundou uma paixão pelo nosso país. Tornou-se professor visitante lá em Brasília e agora vem fazendo conferências aqui, sem parar, no Rio de Janeiro e por todo o Brasil, e pela África. E gosta muito de trabalhar comigo como parceiro. O meu primeiro livro é sobre o sambista Ismael Silva. E o samba tem uma tradição de parceria, de obras em parceria. E eu trago essa experiência do samba, de conviver com sambistas, para esses livros que estou escrevendo. Já estou me preparando para um novo livro que vai se chamar “Oxímoros da paixão”, que faz uma crítica ao livro “A educação sentimental”, de Flaubert, porque nós estamos no século XXI, mas pensando como o século XIX. A gente precisa de uma nova educação sentimental. Através dos movimentos libertários, através do feminismo, a gente vai aprendendo a renovar a nossa capacidade de viver e de se relacionar. E esse livro, “Alguma chance”, já é uma inscrição nesse processo. Escrevi um capítulo em homenagem ao meu querido amigo Armando Freitas Filho e escrevi um ensaio sobre Derrida e Heidegger, um ensaio sobre a chance, que acabou dando o título ao livro. Margel desenvolve o conceito de “chance” na perspectiva da filosofia, e eu desenvolvo o conceito de “chance” na perspectiva de um leitor de filosofia, de um aprendiz da filosofia, mas um especialista, um professor de literatura. Então, eu entro a partir da minha experiência com a filosofia.

— Em “Alguma chance”, especialmente no capítulo “Canto ao Redor da Chance”, você retoma o diálogo entre Derrida e Heidegger. Como esse diálogo contribui para a construção do conceito de chance que você desenvolve no livro?

Para o capítulo chamado “Canto ao redor do dom e da chance”, eu li o volume 2 do livro que representou um seminário que o Derrida deu lá em Paris, mas do qual ele só havia publicado sete capítulos em vida. E, recentemente, saíram outros sete capítulos daquele seminário que ele deu em 1991. Eu li esse livro, em que ele revisita Heidegger, que é uma espécie de assombração para ele. Ele está sempre voltando a conversar com Heidegger. E, a partir desse livro do Derrida, eu consegui escrever sobre o que ele dizia a respeito de Heidegger. Fiquei dois anos escrevendo esse texto e tive a coragem de publicar esse ensaio, que nasceu de um seminário que ofereci na UERJ, há dois anos. Esse ensaio é fundamental nesse livro, porque Heidegger escreve um livro chamado “Que Significa Pensar?”. E, nesse livro, ele diz que nós não pensamos em toda a história da filosofia. E tem razão, porque, a partir de Nietzsche, uma outra abertura filosófica se deu. A chance nunca foi pensada pela filosofia tradicional antes de Nietzsche. A chance é a possibilidade de ultrapassar essa experiência de controle do tempo, administrada pelo capitalismo. Tempo é dinheiro, tempo é controle, e isso gera uma angústia, depressão e vários efeitos psíquicos na humanidade. A chance é a possibilidade de ir além e superar a angústia do telos. Esse é o miolo do pensamento que eu escrevi no capítulo chamado “Canto ao redor da chance” e que Margel desenvolveu no campo filosófico, para além da filosofia tradicional.

— Em vários momentos vocês aproximam poesia e filosofia. E muita gente pensa que a filosofia explica e a poesia emociona. Por que vocês acreditam que essas duas formas de pensar podem caminhar juntas?

E elas podem. O pensamento, e aí eu estou muito ligado ao grande filósofo francês, muito amigo do Jacques Derrida, que é o Jean-Luc Nancy. O Jean-Luc Nancy vai falar que a poesia é uma abertura ao ser. Ela é uma abertura, uma possibilidade. Então, ela está muito próxima da chance. Ela não é descritiva, não é realista, não é mimética. E ela, de alguma forma, inspira os novos filósofos, porque eles também querem pensar a clareira, esse intervalo de indeterminação entre o ôntico e o ontológico. A poesia está sempre ligada a uma abertura ao ser, ao ontológico. Mas não é sublimação, não é só emoção. É reflexão pensante a partir do reino do poema. O livro inteiro é essa proposta de hibridizar, de aproximar, de trazer Homero, poeta, para ‘A República’, de Platão.

— Por falar nisso, você escreve que “o pensamento é poema”. O que essa frase significa para alguém que nunca escreveu um poema na vida?

Eu recomendo para essa pessoa que leia o meu último capítulo, que é sobre Vinicius de Moraes. Vinicius de Moraes viveu escrevendo, cantando e fazendo letras de canções em torno da promessa e em torno da chance que ele tem, que ele teve, nos relacionamentos. Mas são relacionamentos que têm a promessa e a ameaça o tempo todo. Ele tem uma dramaturgia entre entrar no campo, jogar o jogo, abrir as brechas, viver a chance, ainda que assombrado pela ameaça. É a visão de um relacionamento. Isso é muito bonito no cancioneiro de Vinicius de Moraes. Então, eu recomendaria para essa pessoa ler o meu último capítulo e tentar escrever um poema. Um poema pode ser escrito por qualquer um. E, aos poucos, ir convivendo com os poetas. E agora há inúmeros. Dezenas, milhares de grandes poetas no Brasil, principalmente mulheres.

— O que os poetas enxergam que, às vezes, a filosofia sozinha não alcança?

Os filósofos estão centrados no conceito. O conceito é sempre fechado, é sempre delimitado por um núcleo, que é um núcleo com o qual eles buscam definir as coisas do mundo. E os poetas, se ficarem definindo do mesmo jeito, eles não vão ser poetas. Os poetas abrem o espaço, abrem a clareira para escrever através de metáforas, ou não metáforas, mas sempre repensando o traçado das palavras, porque as palavras são misteriosas. Elas não revelam tudo. Elas têm um segredo. Aliás, estou lendo o último livro, póstumo já, do Jacques Derrida, sobre o segredo. E é necessário ter segredo. As palavras guardam segredos. E os poetas se exercitam abrindo as palavras, revelando um pouco o segredo que cada palavra tem quando ela se junta com outras palavras.

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— Os ensaios reunidos em “Alguma chance” foram escritos especialmente para este livro ou alguns deles já existiam?

As duas coisas. Venho escrevendo o capítulo sobre Heidegger e Derrida há dois anos. E fui fazendo revisão, e tive meu filho, que é diretor de cinema, o Nikolas Candido, como revisor e tradutor do francês para o português dos textos do Serge Margel. Então, o capítulo sobre Derrida é inédito. O capítulo sobre Vinicius de Moraes é inédito, mas o capítulo sobre Armando Freitas Filho já estava em um outro livro que eu publiquei em 2017, “Ensaios sobre Derrida e a literatura”. Achei que era tão pertinente reeditar que o coloquei nesse novo livro.

— Você comentou que, ao reler Derrida, sempre faz novas descobertas. Durante a escrita de “Alguma chance”, essa releitura trouxe alguma reflexão que foi especialmente importante para a construção do livro?

Por exemplo, sobre esse livro póstumo do Derrida, que saiu ano passado, o último capítulo me ensina muitas coisas. Eu pretendo desenvolver o que ele não desenvolveu, mas a partir dele. Então, ele fala uma coisa, que é uma leitura que fez de Freud — ele está sempre voltando a Freud —, que é muito interessante, muito fascinante, que é o seguinte: no inconsciente, segundo Freud, não há a morte. A morte não existe para o inconsciente. Olhe que coisa espetacular. E só no último capítulo, em que Derrida está lendo e relendo Freud, que ele afirma que no inconsciente não há morte. Então, o inconsciente está ligado aos sonhos, está ligado à poesia. A poesia está ligada ao inconsciente e vai, aos poucos, explicitando esse prazer de viver. Eu busco, na filosofia de Jacques Derrida, de Sarah Kofman e de Jean-Luc Nancy, respostas para a minha vida, para a minha sobrevivência, para meu achar e ultrapassar a ansiedade pelo fim. Assim, relendo esses filósofos, eu aprendo a ser menos ansioso, menos ressentido, porque um dos problemas centrais da cultura ocidental e brasileira é a questão do círculo. A gente está sempre voltando ao mesmo ponto e vai guardando memórias desagradáveis do nosso passado, que vão constituindo um reservatório que eu chamaria de ressentimento. É preciso ter a vontade de chance. “Sobre Nietzsche: vontade de chance” é o livro do Georges Bataille que me inspirou a escrever o texto sobre Heidegger e Derrida. No final do meu texto, eu falo de Bataille como aquele que escreveu um diário no final da Segunda Guerra, quando as bombas, os mísseis dos alemães, caíam em volta dele. E ele disse assim: “Se eu permanecer na angústia, não existe chance. A chance é o para além da angústia. É a possibilidade de superar a angústia. E é a possibilidade de superar o ressentimento.” Porque nós não podemos — aí ele cita Nietzsche — ser somente leão, que é só o princípio da potência, da potência controladora. Nós temos que ser crianças, porque a criança esquece. A criança é só ação e transformação. E aí eu cito Paul Virilio, outro filósofo francês, que diz que a criança inventa formas de esquecer. Por exemplo, ela rodopia sobre si mesma, fechando os olhos, e, quando os abre, já esqueceu coisas e age em função do futuro. Nós estamos no mundo para viver a vida e não experienciar a morte. Coisa muito difícil, mas a chance existe. A possibilidade de viver existe. Esse é o meu recado no livro.

— Você dedicou a obra a Carlos Drummond de Andrade, que inspirou o título. Como surgiu essa relação entre a obra de Drummond e o seu livro?

Eu dediquei o livro a Carlos Drummond de Andrade porque o primeiro livro dele, publicado em 1930 e que é uma maravilha, chama-se “Alguma poesia”. Ele o publicou porque Mário de Andrade insistiu. Drummond era muito tímido e achava que a poesia dele ainda não tinha o alcance da poesia de Mário de Andrade. Então, eu me inspirei no título de Carlos Drummond de Andrade para escrever “Alguma chance”.  “Alguma chance” na qual você precisa apostar. Dediquei também a Vinicius de Moraes, que me fez sonhar. Dediquei a Silviano Santiago como o orientador de infinitos, porque eu fiz mestrado e doutorado com ele. Inclusive, no momento, estou escrevendo um artigo para uma homenagem ao Silviano Santiago, que vai fazer 90 anos. Os próximos livros são conversas com esses grandes nomes que me marcaram na vida. Eu vou abrindo espaços, comentando e inventando interpretações que, de alguma forma, são inéditas.

 

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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