
Trinta e três pessoas mortas: vinte e um escravizados, nove membros de uma família senhorial ligada a um importante grupo político do sudeste escravista dos idos do século XIX, um agregado e uma “pessoa de cor”. Esse é o saldo da Revolta de Carrancas, um levante que ocorreu no dia 13 de maio de 1833, nas fazendas Campo Alegre e Bela Cruz, localizadas na antiga Freguesia de Carrancas, na Comarca do Rio das Mortes. De acordo com o historiador e professor da Universidade Federal de São João Del-Rei, Marcos Ferreira de Andrade, responsável por uma pesquisa profunda a respeito dessa insurreição, que foi registrada no livro “Caramurus negros: a revolta dos escravos de Carrancas” (Chão Editora, 256 páginas), o episódio “resultou na maior punição à pena de morte da história da escravidão brasileira de que se tem notícia.”
Lançando mão dos relatos dos insurgentes interrogados, do depoimento de testemunhas, do libelo acusatório e do auto de corpo de delito indireto, Marcos reconstrói o momento em que os membros da poderosa família Junqueira foram assassinados. A cena que emerge dessa documentação se passa numa manhã de segunda-feira. Aparentemente, era um dia normal. Ao que tudo indica, quatro escravizados da Fazenda Campo Alegre trabalhavam na roça, como de costume. Entre eles, estava Ventura Mina, tido como o líder da rebelião que estava prestes a acontecer. Foi então que, de surpresa, atacaram Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, filho do deputado Gabriel Francisco Junqueira.
“É possível imaginar a dramaticidade da cena: o ‘senhor moço’ estirado e morto no chão, sangrando muito em virtude dos golpes que recebera. O pior estava por vir”, conta o professor, referindo-se ao que aconteceria em Bela Cruz, onde Ventura Mina e os demais se uniram a um grupo bem maior de escravizados e executaram todos os brancos que lá viviam, “inclusive três crianças, uma delas de poucos meses de idade.” Quanto aos que passaram a se autointitular Caramurus, cinco deles morreram durante os ataques e a resistência armada. Outros 16 foram condenados à morte, sendo enforcados em praça pública.
“Os grupos subalternos também fizeram as suas próprias leituras políticas e alguns deles colocaram os seus projetos em prática, como ocorreu com os escravos de Carrancas. A leitura política que fizeram da Sedição Militar de 1833 foi crucial para que os caramurus negros de Carrancas tentassem conquistar a liberdade no confronto direto com os seus senhores”, afirma o historiador, que comandará a roda de conversa “Literatura e memória da revolta dos escravos de Carrancas”, programada para quarta-feira (19) e quinta-feira (20), na Universidade Federal de Juiz de Fora. No primeiro dia, será realizada às 19h, no Anfiteatro do Instituto de Ciências Humanas, com organização do Laboratório de História Econômica e Social e do Laboratório de História Oral e Imagem/Afrikas, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. Já no segundo dia, o bate-papo ocorrerá no Auditório da Faculdade de Letras, a partir das 19h, como Aula Inaugural do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários. Os encontros serão abertos à comunidade.
“Caramurus negros: a revolta dos escravos de Carrancas” está disponível no site da Chão Editora e nas principais livrarias e plataformas digitais.
— Você afirma, no livro, que os caramurus eram um grupo político identificado com posições conservadoras e absolutistas. Gostaria que você explicasse para os leitores da coluna Sala de Leitura como essa denominação passou a ser associada aos escravizados envolvidos na revolta. O que essa apropriação do termo revela sobre o contexto da época?
— A origem do termo “Caramuru” remete à conhecida história do português Diogo Álvares Correia, que sobreviveu a um naufrágio no litoral da Bahia, por volta de 1510. Teria sido salvo da captura dos tupinambás depois de disparar seu arcabuz e matar um pássaro e passou a ser identificado como “homem do fogo”, “filho do trovão” (acepções do termo caramuru na língua tupi). Passou a ser admirado pelos indígenas e casou-se com a lendária Paraguaçu. Tornou-se um mito da fundação do Brasil, imortalizado na literatura, no poema “Caramuru”, de Santa Rita Durão. Mas, para a história, Diogo Álvares Correia tornou-se um importante aliado da Coroa portuguesa e dos jesuítas no projeto colonizador. No pós-independência e, sobretudo no início dos anos 1830, o termo “Caramuru” passou a ser utilizado pelo grupo político aliado ao imperador D. Pedro I, identificado com posições conservadoras e absolutistas. O período das Regências (1831-1840) foi marcado por revoltas, motins, sedições e insurreições de grande repercussão. Entre os agrupamentos políticos, destacaram-se três: liberais moderados (monarquistas constitucionalistas), liberais exaltados (monarquistas constitucionalistas e defensores de ideias republicanas) e caramurus (também conhecidos como restauradores – alguns deles tinham a expectativa de que D. Pedro I restaurasse o seu trono no Brasil tão logo resolvesse o problema da sucessão do trono em Portugal). Na capital da província de Minas Gerais, ocorreu a Revolta do Ano da Fumaça (ou Sedição Militar), quando os caramurus tomaram o poder na cidade de Ouro Preto por um período de dois meses — 22 de março a 23 de maio de 1833. Pesou sobre o negociante Francisco Silvério Teixeira a acusação de incitar os escravos à insurreição ao espalhar o boato de que os caramurus haviam abolido a escravidão em Ouro Preto e estavam lutando a favor dos escravos. E os liberais moderados que haviam sido alijados do poder naquele momento mantinham a escravidão de forma ilegal. Alguns membros da família Junqueira e aparentados da região de Carrancas pertenciam ao grupo liberal moderado, com destaque para o deputado Gabriel Francisco Junqueira, que se encontrava na cidade do Rio de Janeiro quando parte de seus escravos deu início ao levante na fazenda Campo Alegre e mataram o seu filho. Posteriormente se uniram aos escravos da fazenda Bela Cruz e mataram o irmão do deputado e todos que ali residiam. Os escravos fizeram uma leitura própria e possível daquele contexto de cisão entre as elites. Acreditaram que a escravidão havia sido abolida em Ouro Preto, embora isso estivesse fora de questão para a sociedade daquela época. Acabaram se autodenominando caramurus e mergulharam numa luta dramática, mas não menos importante, para conquistar os seus projetos de liberdade. Os boatos de libertação do cativeiro foram determinantes para dar início a vários planos e tentativas insurrecionais arquitetadas pelos escravos nas Américas. Não se trata de um caso particular da Revolta dos escravos de Carrancas.
— E por que você decidiu contar essa história?
— Gostaria de ressaltar que essa história só pode ser contada graças à descentralização do ensino superior e o investimento público em pesquisa científica. Pude tomar conhecimento do que batizaria alguns anos mais tarde como a Revolta dos escravos de Carrancas, através da participação, como bolsista de aperfeiçoamento, no Projeto de Pesquisa Catalogação e Indexação de Processos Criminais da Antiga Comarca do Rio das Mortes — Século XIX. O Projeto foi coordenado pelos professores Maria Tereza Pereira Cardoso e Ivan de Andrade Vellasco e contou com a participação de seis bolsistas: dois de aperfeiçoamento e quatro de iniciação científica. O projeto foi desenvolvido entre 1992 e 1994, na antiga Fundação de Ensino Superior – Funrei, atual Universidade Federal de São João del-Rei. O acervo do fórum da Comarca de São João del-Rei se encontrava no Museu Regional de São João del-Rei na época. Atualmente, ele faz parte do Arquivo Histórico do Iphan – Seção São João del-Rei. Dentre os processos catalogados, logo no início do trabalho, destacou-se o processo-crime sobre a Revolta de Carrancas, que depois foi objeto de investigação e análise da minha dissertação de mestrado, defendida na UFMG, em setembro de 1996. Em 1998/1999, publiquei o primeiro artigo acadêmico sobre a história do levante, na Revista Afro-Ásia, da Universidade Federal da Bahia. Tratava-se de uma história completamente desconhecida dos estudos históricos até então, sobretudo da resistência e das rebeliões escravas. Já naquela época, procurei demonstrar como o levante estava conectado com a macropolítica do Império, como os escravos se apropriaram de uma das identidades políticas das elites em disputa e fizeram uma leitura política própria. Destaquei ainda a repercussão entre as elites políticas e escravistas da Regência, que resultou na maior punição à pena de morte da história da escravidão brasileira de que se tem notícia. Dos 31 escravos que participaram da insurreição, 16 foram condenados à pena máxima e foram enforcados na vila de São João del-Rei.
— Ao reconstruir a Revolta de Carrancas, você apresenta diferentes elementos que ajudam a compreender sua eclosão. Como esses fatores se articularam para que a revolta acontecesse?
— No caso, é preciso se ater muito ao contexto histórico. Essa é uma expressão chave que é quase um vício de linguagem nos nossos textos. É fundamental se ater ao contexto histórico do acontecimento e personagens estudados. Isso se faz através da análise das fontes históricas, que são de ordem e tipologias diversas (manuscritas, impressas, iconográficas, orais, etc.), para nos aproximarmos do evento e sujeitos estudados em diálogo com a produção historiográfica sobre o período e o tema investigados. Sem todos esses cuidados, corre-se um sério risco de produzir leituras anacrônicas e simplistas do passado. A Revolta dos escravos de Carrancas está diretamente ligada ao período de construção do estado imperial brasileiro. Havia pouco mais de uma década que o Brasil se tornara independente. Foi um tempo de revoltas e disputas políticas entre distintos segmentos sociais em toda a extensão do Império. Algumas foram designadas, como revoluções, rebeliões, sedições e insurreições, como definia o código criminal da época, interpretadas como “crimes contra a ordem pública”. Uma insurreição de escravos, por exemplo, constituía um crime contra a ordem escravocrata e a ordem pública e era severamente punida como foram as de Carrancas-MG, Malês-BA e Manuel Congo-RJ, só para ficar em alguns exemplos. Havia uma disputa em torno dos significados da cidadania e da liberdade. E os grupos subalternos também fizeram as suas leituras políticas próprias e alguns deles colocaram os seus projetos em prática, como ocorreu com os escravos de Carrancas. A leitura política que fizeram da Sedição Militar de 1833 foi crucial para que os caramurus negros de Carrancas tentassem conquistar a liberdade no confronto direto com os seus senhores.
— Você afirma que, na primeira metade do século XIX, houve um incremento da escravidão jamais visto na história do país. Quais são as causas disso?
— A princípio, o que pode parecer contraditório, mas não é, foi justamente, no final do século XVIII, e especialmente na primeira metade do século XIX, quando o sistema escravista passou a ser alvo de questionamento e de crítica, que a escravidão se intensificou nas Américas, especialmente no Brasil e Caribe. O incremento da escravidão e do tráfico Atlântico de escravos foi crucial nesse período e está ligado a questões de ordem econômica para a exportação e também para o mercado interno. Na primeira metade do século XIX, só o porto do Rio de Janeiro recebeu mais de um milhão de escravos africanos traficados. A Inglaterra já havia abolido o tráfico em suas colônias, em 1807, e desencadeou uma campanha internacional pelo fim do tráfico atlântico de escravos. No caso brasileiro, destaca-se a lei de 7 de novembro de 1831, que abolia o tráfico e que teve um impacto nos primeiros anos de sua aprovação, mas que depois foi sistematicamente ignorada e teve um efeito contrário e intensificou a entrada anual de cativos no país por quase duas décadas. O tráfico atlântico de cativos só vai ser efetivamente abolido com a Lei Eusébio de Queiroz em 1850.
— Além da punição mortal, houve também um quase silenciamento da Revolta de Carrancas na imprensa e nos discursos parlamentares. Por que isso aconteceu?
— Isso se explica porque a Revolta de Carrancas ocorreu num contexto muito particular da história do Brasil Império. Os escravos atentaram contra a elite senhorial e tentaram obter a liberdade por meio da força, com extrema violência contra seus senhores, e com uma leitura política muito própria daquele contexto. Os escravos mataram nove membros de uma família senhorial ligada ao agrupamento liberal moderado, o grupo político mais importante do sudeste escravista. Gabriel Francisco Junqueira era aliado político de figuras de proa do Império como, por exemplo, Bernardo Pereira de Vasconcelos e Evaristo Ferreira da Veiga. A revolta teve grande impacto na macropolítica imperial e ocorreu num contexto de intensificação e expansão do escravismo. A Regência entendeu que era necessário punir exemplarmente os insurgentes no local onde aconteceu a Revolta. E precisamos entender que a revolta também ocorreu numa área rural. Dar publicidade a esse fato, seja na imprensa e/ou no parlamento, era um risco enorme em um período conturbado da história política e escravista. Minas Gerais era a província que detinha a maior população escrava do Império. A região cafeeira paulista e fluminense estava em expansão e dependia majoritariamente do trabalho escravo. Então publicizar a revolta seria o risco de fomentar novos levantes. Essa estratégia de silenciamento ocorreu também em outras sociedades escravistas das Américas.
— Na pesquisa que resultou no livro, você trabalhou principalmente com autos de processo. Esses documentos realmente permitem ouvir a voz dos escravizados ou ouvimos apenas uma versão filtrada pelas autoridades e pelos escrivães que registraram seus depoimentos?
— Os grandes historiadores, como Marc Bloch, nos ensinam que os testemunhos devem ser inquiridos, problematizados, para que possamos ir além dos dados e do que está escrito nos documentos. Ou se quisermos nos reportar ao filósofo Walter Benjamin, em teses sobre o conceito de História, para conseguirmos escrever a história dos grupos subalternos e marginalizados, é preciso “escovar a história a contrapelo”. Trata-se de um exercício rigoroso de investigação das fontes oficiais, normativas, como um processo-crime, por exemplo, e numa leitura crítica delas. Consiste em um exercício de interpretar o que é dito, as lacunas, os silêncios, as formas como foram constituídas, os discursos e agentes ali presentes. Tudo isso se faz também com intenso diálogo com os estudos historiográficos pertinentes ao campo da pesquisa, no caso, da história social da escravidão e da rebeldia escrava. Certamente não é um trabalho fácil. Talvez por isso eu estude essa história há mais de três décadas e sempre descubro um aspecto novo e até mesmo posso reler as mesmas fontes em uma perspectiva mais complexa.
— Em diversos momentos, você sinaliza que determinadas reconstruções são hipóteses, recorrendo a expressões como “provavelmente”, “é possível que” e “deve ter ocorrido”. Como o historiador trabalha com essas lacunas documentais?
— Como disse ao me referir às reflexões de Marc Bloch e Walter Benjamin, é preciso fazer uma leitura criteriosa das fontes e contextualizar a sua produção, os agentes envolvidos, analisar os discursos normativos, as ausências, os silêncios e as lacunas. E isso se faz também confrontando e complementando as fontes. Nós historiadores tentamos explicar o passado com os testemunhos que chegaram até nós. E formular hipóteses e estabelecer ilações, mas sempre com fundamento e base historiográfica, teórica, metodológica e documental, constitui o nosso ofício. Talvez seja por isso que essa história continua a me surpreender, seja por suas lacunas, seja por outras novas descobertas de pesquisa e releitura das fontes e diálogo com a historiografia da escravidão. Muitas lacunas provavelmente não terei como responder, mas esse exercício hermenéutico fundamentado nos ajuda a pensar nos agentes envolvidos e como acalentaram seus projetos de liberdade, apesar de um fim tão terrível para dezenas deles, como foi no caso dos caramurus negros de Carrancas.
— No caso dos Caramurus Negros, essas lacunas decorrem principalmente da escassez de documentos produzidos na época ou de um processo de apagamento histórico relacionado aos sujeitos que você estuda?
— Estudar a história dos grupos subalternos é um enorme desafio. Mas é possível fazer uma história dos vencidos, dos povos dominados, como no caso dos escravos de Carrancas, através das fontes oficiais. Em relação aos caramurus negros, a documentação pode ser escassa em alguns aspectos, já que tratamos de fontes oficiais e da justiça, se pensarmos no principal documento do levante – o processo criminal, cuja partes principais abrem o livro “Caramurus Negros”. Nós historiadores sempre trabalhamos com um leque muito diversificado de fontes, e, pela busca dos nomes, por exemplo, é possível complementar as informações. No livro, essa metodologia está presente. Consegui encontrar novas informações sobre o líder Ventura Mina, através de um inventário e de um relato de um capitão da Guarda Nacional que atuou na repressão dos insurgentes. Também tem o caso emblemático do Rafael Crioulo que foi possível destrinchar em contraposição com os assentos paroquiais do batismo de sua filha e o seu interrogatório. Mais uma vez, a assertiva de Walter Benjamin constitui uma representação poderosa de como exercemos o nosso ofício. Para escrever a história dos oprimidos e marginalizados é preciso “escovar a história a contrapelo”.
— Quais são os limites para a formulação de hipóteses na escrita da História? Até que ponto é legítimo imaginar cenários para preencher os vazios das fontes, sabendo que algumas dessas conjecturas podem não corresponder ao que de fato ocorreu?
— Sem dúvida alguma, os limites são muitos quando um historiador constrói uma determinada representação do passado, seja de um processo histórico, acontecimentos e/ou de grupos sociais e sujeitos. Primeiro porque lidamos com lacunas o tempo todo e nenhum historiador em sã consciência tem a pretensão de reconstruir a totalidade da história de determinada sociedade, acontecimento, grupo social ou indivíduos. O que escrevemos é para ser debatido entre os pares e a sociedade. O que oferecemos para o meio acadêmico e a sociedade são resultados de pesquisas feitas com rigor metodológico, teórico e historiográfico, mas que são lacunares e passíveis de crítica, inclusive quando não raras vezes cometemos equívocos e podemos rever as nossas leituras e interpretações do passado. Por isso cada geração reescreve a sua história com base no conhecimento acumulado das gerações anteriores. E é por isso que a pesquisa científica, o papel das universidades e a formação de novas gerações de historiadores e professores de história são de fundamental importância para a sociedade. Contribuem para a formacão crítica e cidadã e da consciência histórica, do direito a conhecer o passado, por mais violento e trágico que tenha sido, mas também dos projetos de liberdade, ainda que fracassados, como no caso dos caramurus negros de Carrancas.





