
Djamila Ribeiro escreve que “Lugar de fala” é “um grande feito”. A obra abriu “caminhos para uma leitura de enfrentamento à narrativa hegemônica, ao naturalizar o entendimento de que toda fala parte de um lugar social específico, atravessado por relações de poder”. O volume, que integra a coleção Feminismos Plurais, foi lançado em 2017, por uma editora independente, no formato de livro de bolso, e logo conquistou leitores dentro e fora do Brasil. Em abril de 2026, em uma seleção especial feita pela Folha de S. Paulo, foi eleito um dos melhores títulos brasileiros de não ficção do século 21.
A professora e filósofa celebra, hoje, o fato de o conceito “lugar de fala” ter caído na boca do povo, ultrapassando a academia e passando a orientar a forma como as pessoas compreendem suas relações no dia a dia. No entanto, ela pontua que, em quase uma década, também houve muitas distorções em torno dele, e esse seria um dos motivos para o lançamento de uma versão revista e ampliada do livro. Enviada para as prateleiras pela Rosa dos Tempos, com prefácio de Chimamanda Ngozi Adichie e apresentação de Grada Kilomba, a nova edição conta com 476 páginas, divididas em duas partes, intituladas “Lugar de fala” e “Uma década depois”. Primeiramente, Djamila apresenta os capítulos da publicação original; depois, ela acrescenta novas discussões.
“O livro traz uma ampliação substancial da obra. Tem um capítulo que é sobre marketing digital. Já em outro, falo sobre as tensões do movimento feminista. Em outro, comento o papel do jornalismo, que tem a ver com uma disciplina que lecionei, na PUC São Paulo, sobre jornalismo contra-hegemônico. E também entendi que era importante enfrentar muitos dos esvaziamentos que existiram em torno do conceito nos últimos anos. As pessoas acabaram fazendo uma interpretação equivocada. Então, o livro dialoga com essas transformações dessa última década, mas também traz muito do meu acúmulo como professora no Brasil e fora do Brasil. Dei aula em duas instituições nos Estados Unidos e tive a oportunidade de encontrar outras intelectuais que me ajudaram a ampliar esse repertório”, conta a professora.
Nesta entrevista, realizada por telefone na última quinta-feira, Djamila reflete sobre a popularização do conceito e explica como distinguir, na prática, o reconhecimento do lugar de fala da reprodução de preconceitos. Além disso, esclarece as diferenças entre lugar de fala, representatividade, interdito e essencialismo, e aponta os desafios da representatividade no mercado editorial brasileiro.
Marisa Loures: Você comenta que, ao longo dos últimos anos, o conceito foi alvo de muitos esvaziamentos. Como você mesma diz, ele “caiu na boca do povo”. Na sua avaliação, essa popularização contribuiu para ampliar o debate público ou acabou simplificando e, muitas vezes, deturpando o conceito?
Djamila Ribeiro: Eu acredito que o conceito foi incorporado, no sentido de que muitos trabalhos acadêmicos surgiram citando a obra. Inclusive, a gente traz esse relatório no final do livro, um relatório bibliométrico mostrando o impacto da obra no mundo acadêmico e também leitura obrigatória para o vestibular da Federal do Paraná, para ingresso na pós-graduação em Direitos Humanos na USP. Então, ele teve uma entrada substancial. Agora, como todo conceito que se populariza, também com isso vieram muitos esvaziamentos. A gente tem vários conceitos de autores que também caem na boca do povo e isso é uma das consequências. Aí, de fato, eu vi pessoas usando-o, por exemplo, em programas de rede nacional, pessoas que não estão necessariamente familiarizadas com o debate. Ele acabou sendo utilizado de uma maneira geral e, com isso, vieram pessoas que interpretaram o conceito como interdição, ou pessoas que interpretaram o conceito como: “Ah, só pessoas negras podem falar de racismo”. Muito próprio do que acontece nas redes sociais. Debates muito rasos e superficialistas de rede social. Então, por um lado, sim, teve uma entrada substancial. Vejo isso tanto na academia como nas escolas. Mas, como algo popular também, esvaziamentos aconteceram.
Na nova edição, você afirma que procurou responder a alguns equívocos que surgiram em torno do conceito de lugar de fala. Entre eles, você cita a confusão entre lugar de fala, representatividade, interdito e essencialismo. Embora já trate dessa distinção na edição de 2017, esses conceitos ainda costumam ser confundidos. Você poderia explicar, de forma didática, a diferença entre eles?
Primeiro, lugar de fala não é interdito, no sentido de que é uma inversão lógica dizer que é um interdito, porque lugar de fala é romper um interdito que já está posto. É romper com esse único lugar social tendo o detentor do que é conhecimento, como aconteceu historicamente. Você chegar numa universidade e os currículos serem pautados no que dizem os homens brancos. Ou, até 2014, dos livros publicados no Brasil, 90% serem escritos por pessoas brancas. Então, quando a gente pensa sobre o lugar de fala é justamente para romper com esse interdito a outras vozes e promover uma multiplicidade de vozes. É dizer, eu também quero ler produções intelectuais de pessoas negras, de mulheres negras, mulheres brancas, indígenas. Então, o lugar de fala é justamente ampliar as vozes e romper com esse interdito que nos calou historicamente. Agora, sobre representação, acho que é importante, porque, claro, é uma demanda legítima dos movimentos que foram minorizados. Claro que a gente quer se ver nos espaços num país como o nosso, tão diverso. Quando as pessoas falam de diversidade como se fosse coisa de outro mundo, eu falo: “Gente, o Brasil já é diverso. Pessoas negras, brancas, indígenas”. Quando as instituições não refletem o que a sociedade brasileira é, elas mostram que tem um problema. Então, claro, a gente quer se ver mais representado e é um direito legítimo. Agora, as pessoas brancas, por exemplo, podem não representar as pessoas negras politicamente, mas elas podem e devem pautar a questão racial. Um gestor público, do lugar de fala dele, vai pautar outros lugares, fazer políticas públicas para as mulheres, para pessoas negras, e não só para as pessoas que vêm do grupo social dele. Um professor vai colocar na bibliografia produções intelectuais de pessoas negras. Um professor branco pode e deve abordar esse tema dentro da sala de aula, uma vez que a gente tem a Lei 10.639, que obriga o ensino da história africana e brasileira nas escolas. Então, não é porque ele é um professor branco que ele não vai aplicar a lei. Ele pode e deve trazer essa lei. Acho que essa é a diferença. Uma coisa é a gente ser representado, isso é um direito legítimo. Agora, outra coisa é acreditar que só pessoas que representam aquele grupo podem falar desse tema. Aí é que entra o lugar de fala. Homens brancos podem e devem pautar a questão racial, a questão das mulheres e assim por diante.

Você afirma que todos têm um lugar de fala e que reconhecer de onde falamos é uma postura ética, porque nos permite compreender as relações de poder, as desigualdades e as formas de opressão. Na prática, porém, muitas pessoas têm dificuldade de distinguir o reconhecimento do próprio lugar de fala da reprodução de preconceitos. Como fazer essa distinção? Em que momento alguém está apenas reconhecendo sua posição social e em que momento passa a reforçar estereótipos, racismo ou sexismo?
É por isso que o conceito, que eu não cunhei, mas sistematizo no livro, significa, justamente, num primeiro momento, entender a origem social das desigualdades, compreender que falamos de lugares diferentes. Mulheres negras, por partirem de uma posição social marcada por desigualdade, têm menos acesso, menos oportunidades. Quando a pessoa entende isso, ela vai entender que o lugar de privilégio que ela ocupa é a base da opressão de outros grupos, não é uma coisa natural. A partir do momento que ela compreende essa origem social, ela entende o lugar de fala como uma postura ética. O que, do meu lugar social, eu posso fazer para contribuir nessa luta? Quando ela compreende isso, ela vai entender o porquê de ter reproduzido falas problemáticas. Ela vai se corrigir nesse sentido, porque ela vai passar por esse processo de conhecimento sobre essas origens. Então, uma coisa é a pessoa que não tem letramento nenhum reproduzir falas problemáticas. Aí é simplesmente uma pessoa que parte de um lugar social em que ela não teve acesso a essas discussões, e ela segue sem ter, ela não se letra, ela não se conscientiza. Agora, quando a pessoa se conscientiza, entende o que é lugar de fala, entende que ela fala de um outro lugar. Ela vai compreender a necessidade de estudar sobre esses temas, vai entender a necessidade de trazer produções intelectuais que vêm de outros lugares sociais, e não só do grupo dela, porque, se ela só lê, só estuda a partir do seu grupo, a chance de reproduzir falas problemáticas é imensa. Agora, quando ela aprende, ela lê, ela estuda, ela escuta, ela participa, ela entende que isso é um debate democrático, aí ela vai reproduzir muito menos falas problemáticas. Um exemplo prático: eu fui ler sobre a questão LGBT, não sendo uma mulher da comunidade, para entender. Então, a partir do momento que entendo, eu vou, inclusive, reconhecer quando uma fala minha é problemática, porque estou participando desse processo de letramento e de reconhecimento de outros lugares sociais.
No prefácio da nova edição, Chimamanda Ngozi Adichie escreve que “Lugar de fala” chama a atenção por estar profundamente enraizado na prática e na vida cotidiana. Fazer com que um conceito acadêmico deixasse a universidade e passasse a orientar a forma como as pessoas compreendem suas relações no dia a dia sempre foi um dos objetivos do livro?
Sim e acho que isso vem muito de uma tradição do feminismo negro brasileiro, a partir da Lélia Gonzalez, que é uma mulher que escrevia de maneira coloquial deliberadamente. Ela queria ser compreendida pelo povo. Vem muito de entender o nosso lugar como uma intelectual que está refletindo as práticas cotidianas e não de uma intelectual distante do povo, isolada na academia somente. Então, eu venho dessa tradição e, para mim, é muito importante refletir sobre o meu tempo presente, sobre a realidade concreta, para não ficar presa numa visão muito hermética, ou numa visão de uma intelectualidade descolada do seu povo. Para mim, não faz sentido ter acesso (sou a primeira pessoa da minha família a ir para a universidade), a esse conhecimento e depois reproduzir a mesma lógica do poder, que é se manter distante, como se esses debates não fossem para o nosso povo, para a população em geral. Então, sempre foi um objetivo meu quebrar com essa visão, muito inspirada nessa tradição que vem de tantas intelectuais negras brasileiras, como Lélia Gonzalez, por exemplo.
Recentemente, “Lugar de fala” foi eleito um dos melhores livros brasileiros de não ficção do século 21. Hoje, olhando para a trajetória dessa obra, o que mais a surpreende: a permanência dela, a forma como o conceito foi apropriado ou o alcance que o livro conquistou dentro e fora do Brasil?
Acho que o alcance do livro. Quando eu publiquei, em 2017, ainda era por uma editora independente, a gente fazia praticamente tudo. Então, para mim, me surpreendeu muito chegar a escolas públicas, por exemplo, e ver cartolina na parede, crianças estudando o livro, saber que o livro rompeu com uma bolha acadêmica. Acho que isso é o que mais me surpreende, esse alcance das pessoas falando do termo. Equivocadamente, mas falando. Ver o quanto ele realmente caiu na boca do povo, seja por uma perspectiva positiva ou não. De fato, “Lugar de fala” sempre foi o meu abre-alas para outros países. Sempre foi o meu primeiro livro a ser traduzido. Ele foi o primeiro a ser traduzido para o francês, para o inglês, para o alemão, para o espanhol, e acabou sendo esse meu carro-chefe, que me abriu muitas possibilidades e oportunidades fora do Brasil.
Você retoma a pesquisa da UnB que revelou a predominância de homens brancos no mercado editorial brasileiro entre 1965 e 2014. Você argumenta que esses dados evidenciam como o grupo hegemônico também concentrava o poder de narrar e de ser publicado. Ao mesmo tempo, você celebra o impacto da Coleção Feminismos Plurais na ampliação desse espaço para intelectuais negros. Quase dez anos depois, como você avalia o mercado editorial brasileiro? Em termos concretos, o que mudou na presença de autores e autoras negras? Já existem dados que indiquem essa transformação?
A gente ainda não tem dados, mas, de fato, as grandes editoras tiveram que começar a publicar autores negros. A gente viu os grandes grupos editoriais publicando muitos autores negros brasileiros, e não só de fora. Por exemplo, na Flip de 2018, “Lugar de fala” e “Quem tem medo do feminismo negro?” foram o segundo e o terceiro livros mais vendidos. Em 2019, foi o livro da Grada Kilomba. Então, a gente viu ali, na maior feira literária do Brasil, uma mudança muito importante, numa feira que, durante muito tempo, privilegiou muito a voz hegemônica. E vimos vários outros autores sendo publicados por grandes editoras. Isso é inegável. Agora, passado esse boom de publicação de autores negros, a gente tem percebido um fechamento a esse debate no mercado editorial, porque também surfou num movimento que nós alavancamos. Não criamos, mas alavancamos. Começaram a publicar vários autores negros sem muito critério, numa visão essencialista de “vou publicar porque é negro”, botando todo mundo na mesma prateleira: autores de ficção, de não ficção, poeta. Como se fosse “leia autores negros”, como se a gente fosse uma massa homogênea. Coisa que eles não fazem com autores brancos. Eles separam o autor que é de não ficção, o autor que é romancista, o autor que é poeta. Então, também teve a responsabilidade do mercado editorial de jogar todo mundo no mesmo balaio, sem o mínimo critério. E isso levou a hoje as pessoas falarem “Ah, chega desse debate”. É como se fosse um debate que tivesse tempo de duração. O que a gente vê hoje é que os autores negros que ficaram, eles ficaram apesar do mercado, que surfou na onda de uma maneira irresponsável e hoje também está adotando este critério de “Ah, vamos falar de outra coisa, vamos voltar a ser o que era”. É uma coisa que a gente tem percebido, esse movimento, sobretudo das grandes editoras.





