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Adriana Gamelas: uma escritora adepta da simplicidade e da poesia

Por Marisa Loures

18/05/2021 às 07h30 - Atualizada 21/05/2021 às 16h44

Adriana Gamelas estreia na literatura voltada para o público infantil com três livros aprovados em leis de incentivo – Foto: acervo pessoal

Adriana Gamelas conta que, desde pequenina, é aficionada por histórias. Com o tempo, passou a escrever e a deixar suas criações guardadas, até que surgiu a oportunidade de entrar para o time de autoras e autores publicados. Estamos no quinto mês de 2021, e essa escritora e ilustradora carioca, radicada em Juiz de Fora desde 2012, lançou dois livros voltados para o público infantil só neste ano. O título de estreia, “O vilarejo”, chega às mãos da criançada com apoio da Lei Estadual Aldir Blanc, e “A menina com cheiro de alecrim” nasce financiado pela Lei Municipal de Incentivo à cultura Murilo Mendes. Mas ela não para por aí. “Pergunte ao vento”, seu terceiro título, foi aprovado pela Lei Rouanet e vai trazer para os leitores mirins, em 2022, uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade.

“Foi um processo maravilhoso. Eu tinha muitas histórias na gaveta e, quando resolvi compartilhá-las, enviando para alguns editais, as coisas começaram a acontecer. Parecia mágica, mas, na verdade, foi resultado de um longo tempo dedicado à literatura”, diz a escritora, que é membro da Liga de Escritores, Ilustradores e autores de Juiz de Fora, é pedagoga e pós-graduanda em literatura infantil e juvenil. Por ser alfabetizadora e atuar diariamente ao lado das crianças, Adriana tem razões de sobra para querer escrever para elas. “A motivação está na sinceridade, inocência e, principalmente, no retorno imediato e positivo que elas me dão. Recebo áudios, diariamente, dos pequenos leitores, e me emociono sempre. Eles interagem com o texto e as ilustrações de uma forma encantadora.”

Em “O vilarejo”, o texto poético e leve de Adriana traz um lugar repleto de casas coloridas e alegres, onde as pessoas são generosas e respeitosas. Mantenedora de um ateliê de arte infantil que está fechado por causa da pandemia, ela também assina as ilustrações, as quais foram realizadas dentro do ateliê, utilizando materiais, como telas, pano cru, tinta, fitas e feltros. Já em “A menina com cheiro de alecrim”, os desenhos ficam por conta de Weder Meirelles, e a história gira em torno de uma linda amizade entre a pequena Nanda e seu vovozinho que tem Alzheimer e, por isso, ele esquece até mesmo o nome da netinha. Asseguro que a cumplicidade e as peripécias dessa dupla deixam até mesmo os adultos emocionados.

Marisa Loures – Muito antes de ser escritora, você é professora. Então, carrega a responsabilidade de, ano após ano, escolher obras literárias que vão ser trabalhadas em sala de aula com os pequenos. O que procura em um livro infantil quando vai fazer essa escolha? E, por falar nisso, ocupar a posição de quem sabe o que as crianças querem ler facilita o seu trabalho como autora?

Adriana Gamelas – Gosto de livros que possam ampliar o horizonte dos pequenos leitores e que despertem a imaginação e curiosidade. Sou fã de textos simples, poéticos e ao mesmo tempo instigantes. Adoro ilustrações que fogem do óbvio e que tragam vontade de criar e fazer muita arte. Estar ao lado dos leitores facilita muito o meu trabalho, pois as próprias crianças vão me apontando o caminho como uma bússola.

– Seu primeiro livro traz a história de um vilarejo onde todas as pessoas são alegres e generosas. Qual foi a inspiração para essa obra de estreia? Esse vilarejo existe?

A inspiração veio das viagens que fiz, dos vilarejos que conheci e das histórias que por lá ouvi. Sempre fui apaixonada por “casas”, pois acredito que são verdadeiras máquinas de contar histórias. Imaginem um vilarejo? Quantas histórias belíssimas existem por lá… Esse vilarejo existe dentro do nosso coração quando acreditamos num mundo mais generoso.

– “O vilarejo” foi todo pensado e criado dentro de um ateliê de arte infantil. Como foi a confecção dele? Por que esse vilarejo tinha que nascer entre telas e fuxicos?

“O vilarejo” foi criado para despertar todos os sentidos e a vontade de fazer arte. Idealizei um livro com “a cara de um ateliê de arte”, usando telas, pano cru, fitas de cetim, fuxicos, botões, feltros, anis-estrelado, pau de canela, cola 3D e personagens em papel machê (confeccionados pela artista Valéria Rosa). Não consigo pensar no vilarejo sem arte, e esses materiais nos ajudam a construir uma memória afetiva saudável. É como lembrar o cheirinho da gaveta da avó ou o gosto do pudim da tia.

 – E como se dá esse diálogo entre texto e imagem? O que surge primeiro? Gostaria que contasse como é seu processo criativo.

O diálogo precisa ser completamente harmônico. Sempre gostei de observar as ilustrações dos livros infantis, pois elas não estão ali apenas para enfeitar. Uma ilustração traz tanta riqueza ao imaginário de uma criança, uma viagem deliciosa! No caso do vilarejo, a história surgiu e depois vieram as obras. Os projetos gráficos dos meus livros e a ilustração da “Menina com cheiro de alecrim” foram feitos com muito cuidado e excelência por Weder Meirelles. O meu processo criativo é uma loucura, pois tenho que estar criando o tempo inteiro. Tenho um turbilhão de ideias, muitas ficam só no romantismo e outras procuro executá-las. Sinto que “descanso” de uma coisa “criando” outra… e por aí vai.

“A menina com cheiro de alecrim” traz uma linda amizade entre a pequena Nanda e seu vovozinho que tem Alzheimer e esquece até o nome da netinha. É um livro muito sensível e trata de um tema um tanto delicado. Foi alguma experiência pessoal que a fez partir para esse projeto?

“A menina com cheiro de alecrim” foi uma experiência pessoal e riquíssima. A inspiração veio da interação da minha filha caçula com o avô com Alzheimer. Foi uma troca de aprendizado bem intensa e feliz. Só que, como em toda história, nem sempre o final é como gostaríamos. Escolhi o alecrim, pois ele melhora a nossa capacidade de memória e nos ajuda a nunca mais nos esquecermos de quem amamos. A história eternizou esse amor.

 – Por que é importante conversar com as crianças sobre esses temas um tanto difíceis?

Não devemos subestimar os pequenos leitores, e o livro infantil é um dos lugares mais seguros para abordarmos esses temas. As crianças vivem em um mundo onde há mortes, doenças, guerras, entre outras coisas que nos causam desconforto e tristeza. Podemos falar sobre todos esses assuntos, porém de uma forma leve e lúdica.

– “A menina com cheiro de alecrim” traz um texto assinado pela psiquiatra Samira Mussi. Ela explica para as crianças o que é o Alzheimer. Era importante trazer uma especialista para apresentar essa explicação para os pequenos?

A fala da Dra. Samira Mussi veio abrilhantar o livro. A explicação dela foi clara e generosa. Trazer mais conhecimento para um tema delicado como o Alzheimer, é facilitar e tornar mais saudável a relação entre a criança e o idoso com Alzheimer. A escritora do livro “O homem sem memória”, Luciane Fontes, também teve uma fala belíssima no meu livro. Essas parcerias, sob o meu ponto de vista, podem ser enriquecedoras para a obra do autor.

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– O terceiro livro vai para as prateleiras com apoio da Lei Rouanet. Pode nos contar como é a aventura que vai estar nas páginas de “Pergunte ao Vento”?

“Pergunte ao vento” é mais um livro infantil que encantará os leitores de forma poética. É uma singela homenagem ao grande poeta Carlos Drummond de Andrade. A protagonista da história, Maria Julieta, deseja descobrir, pelo caminho, o que é poesia. Vocês querem saber também? Perguntem ao vento ou aguardem mais essa obra literária que chegará repleta de afetos.

“O vilarejo”

Autora e ilustradora: Adriana Gamelas

Editora: Gamelas (30 páginas)

 

 

 

 

“A menina com cheiro de alecrim”

Autora: Adriana Gamelas

Ilustradora: Weder Meirelles

Funalfa Edições (24 páginas)

 

Onde adquirir as obras de Adriana Gamelas?

  • Com a própria autora. Interessados podem entrar em contato com ela pelo Instagram: @ovilarejopoetico

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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