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As memórias de Joyce Moreno em “Aquelas coisas todas”

Por Marisa Loures

15/12/2020 às 07h00 - Atualizada 15/12/2020 às 17h06

Em “Aquelas coisas todas”, Joyce Moreno revisa e amplia memórias iniciadas em “Fotografei você na minha rolleiflex”, de 1997, relatando, inclusive, passagens por Juiz de Fora – Foto: Leo Aversa

Imaginem que maravilha! Anos 1960. Época dos festivais de música país afora. A jovem Joyce Moreno, de 19 anos, e seus companheiros (ilustres companheiros) eram “todos um bando de amigos que se encontravam quase que diariamente, um mostrando as músicas novas para o outro, testando fórmulas e limites, desafiando o mundo”, como ela conta em “Tudo é uma canção”, segunda parte do novíssimo “Aquelas coisas todas” (Numa Editora, 352 páginas). No livro, ela revisa e amplia memórias iniciadas em “Fotografei você na minha rolleiflex”, lançado em 1997.

“Éramos filhotes da bossa nova, netos do samba dos anos 1930, estávamos reinventando a roda e sabíamos disso”, completa a cantora, instrumentista, compositora e escritora no texto (escrito de um jeito leve que só o gênero crônica permite) em que ela retorna à era das grandes competições ocorridas em várias cidades, incluindo Juiz de Fora. A propósito, as passagens por aqui estão relatadas na obra, como o dia em que ela, ao lado do Momentoquatro, cantou “Litoral”, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos.

Joyce relembra esse e outros momentos da nossa música brasileira. Ficamos sabendo que os festivais, por causa das premiações em dinheiro, da popularidade e da exposição, também fizeram o clima pesar, provocaram inveja e desfizeram amizades. “Não era sempre que isso acontecia, é bem verdade. Mas principalmente a partir do surgimento da Tropicália, o racha foi inevitável”, escreve. Suas lembranças ainda passam pela política. Vivia-se os duros anos da Ditadura Militar, e Joyce teve músicas censuradas e vários amigos desaparecidos ou exilados. Ela ainda compartilha conosco recordações de família, período sem gravadora, carreira jornalística, entre vários outros assuntos. Passam por suas histórias, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Elis Regina, João Gilberto, Torquato Neto, Gonzaguinha, mineiros com quem ela iniciou uma amizade para a vida inteira, como Bituca e Toninho Horta, e vários outros nomes da nossa MPB.

Se “Tudo é uma canção” apresenta as memórias escritas pela Joyce da maturidade, aos 72 anos, na primeira parte, temos as impressões “de uma estreante, a garota irreverente de 19 anos recém-chegada a um mundo que (ela ainda não sabia) seria o seu durante toda a vida.” Nelson Motta é quem faz o prefácio de “Fotografei você na minha rolleiflex”, e suas palavras voltaram para essa edição revista e ampliada. “Com as crônicas de Joyce, uma observadora atenta e sensível, pode-se viver (de novo) aquelas noites cariocas cheias de música e sonho, aquelas tardes quentes de sexo, drogas e MPB, pode-se reviver uma juventude muito alegre e muito séria florescendo em um tempo de guerra. Trinta anos de praia, política e música. Através de sua trajetória, revê-se o caminho de uma jovem bonita e talentosa de Copacabana dos anos 1960 vivendo seu sonho de artista, as ilusões e decepções de uma geração, suas grandes alegrias e conquistas, narradas com sinceridade e estilo”, sentencia Motta.

Marisa Loures – Em texto para o “Aquelas coisas todas”, Renato vieira conta que “bons entendedores vão sacar que o título é uma homenagem a Toninho Horta, velho amigo de Joyce.” Poderia nos contar a história que está por trás dele?

Joyce Moreno – Realmente, usei o título de uma música do Toninho para o título deste livro, mas foi totalmente acidental. Na verdade, não há um motivo específico para isso. É que quando juntei a parte um com a parte dois, o livro um com o livro dois, a primeira coisa que me ocorreu foi isto: “Aquelas coisas todas’. Falei com o Toninho, ele achou ótimo, e assim foi.

– Por que compartilhar suas memórias com os leitores? Como nasceu esse desejo? E como é seu exercício de buscar essas lembranças?

Acho que tudo que envolva memória no Brasil, hoje em dia, é necessário. Não só necessariamente as minhas, mas as memórias de todos nós, principalmente, do povo da cultura, da música, do cinema, do teatro, da literatura, porque a gente cai num poço sem fundo, as pessoas não tomam conhecimento, esquecem que existem as coisas. E o Brasil tem uma cultura tão rica, né? Então, acho que todos nós que somos trabalhadores da cultura, que estamos há anos nessa batalha linda e dura, acho que todos nós deveríamos compartilhar nossas memórias para que as gerações seguintes saibam o que aconteceu, como foi feito e de onde vêm.

Joyce e Milton Nascimento, amigos de longa data, em foto que entrou para o livro – Acervo pessoal

–  “No primeiro livro eu recordava a menina de 19 anos que estava chegando a um mundo novo que viria a também ser dela, mas ela ainda não sabia disso”, diz você em entrevista recente. “No segundo já são as memórias da velha”, completou, fazendo uma alusão ao samba “A velha maluca”. A idade altera a maneira como encaramos nossas lembranças?

Altera no sentido de que, quando você é mais jovem, você está ainda vivendo aquilo, ainda tem aquela vida rolando muito de repente, sem planejamento, às vezes. Aí você não tem muito como olhar para trás. E, com a idade, claro, você olha para trás, você amadurece, vê as coisas de uma maneira muito mais fluida, muito mais leve, eu acho. Então, a importância de se olhar para trás quando a gente é mais velha eu acho muito grande, neste sentido, de que tudo fica mais leve e algumas coisas que, antes, podem ter sido pesadas, difíceis, ganham uma leveza e você vê que a importância não era tanta assim.

– E, no prefácio deste novo livro, você conta que sempre teve a ideia de fazer um remix  de “Você na minha rolleyflex”, mas muitas outras histórias vinham assombrá-la. Por isso, escreveu a parte dois contendo novas questões a serem debatidas. Por que algumas histórias ficaram guardadas por mais de 20 anos? O que a tem “assombrado” hoje?

Não é que eu tenha guardado essas histórias por mais de 20 anos. É que não tinha me ocorrido escrever sobre elas. Elas foram escritas de dois anos para cá. E, quando eu falo em “assombrar”, não é uma coisa assustadora. O que eu digo é que há muitas outras questões novas, né, que aparecem, que permeiam as histórias, de modo que não fica sendo apenas aquele livro de anedotas, de causos, mas sim, também, de reflexões, de pensamentos, sobre questões como o feminismo, por exemplo, que são questões que sempre existiram, mas, como diz minha filha Ana, que escreveu uma letra sobre isso outro dia, é uma questão que, apesar de tanto tempo, ainda é moderna. Então, essa e outras, como a questão da música, de viver da nossa arte, do que é ser artista no Brasil. Tudo isso são questões que eu quis refletir e dividir com as pessoas que lessem.

– Você é muito conhecida por ser discreta, o que a fez sair ilesa de muitas das confusões ocorridas na música brasileira. No entanto, neste livro, faz confissões íntimas. É difícil tocar em assuntos tão pessoais?

Na verdade, eu quis falar sobre certas coisas porque, mais cedo ou mais tarde, alguém sempre escreve alguma coisa a respeito da gente, da nossa vida, e faz pesquisas e tal. E aí, se você conta as coisas como foram na realidade, acho que evita uma série de possíveis mal-entendidos futuros. Então, quando eu me propus a falar, por exemplo, de memórias familiares, algumas coisas assim, foi muito nesse sentido de deixar bem claro para as pessoas que, futuramente, quiserem saber, se interessarem ou quiserem escrever sobre isso, elas terão uma fonte segura.

– Seu livro traz uma análise crítica da cultura brasileira como um todo. Entendo nessa volta aos textos de 1997 que as questões relacionadas à cultura brasileira de mais de duas décadas atrás continuam na pauta do dia… Estou certa?

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Continuam em pauta, e acho que, pior do que isso, algumas questões que nós tínhamos há 50 anos continuam em pauta. Então, cada vez mais, é preciso estar atento e forte, aquela coisa toda. Por isso também acho importante falar nestas questões, da arte no Brasil, do que é ser artista no Brasil, do que é e do que foi e do que pode vir a ser, ou pode voltar a vir a ser. Então, essas coisas, a gente sempre precisa mencionar sim, é importante. Para que não se esqueça, para que não se repita.

– Na parte dois do livro, “Tudo é uma canção”, você relata suas experiências por festivais. Algumas, bem-sucedidas; outras, nem tanto. Entre as cidades por onde passou para um desses festivais interioranos, está Juiz de Fora, onde se apresentou com o Momentoquatro e cantou “Litoral”, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos. Como foi essa passagem (ou passagens) aqui pela nossa cidade?

O festival de Juiz de Fora era um festival importante. Todos os músicos dessa nossa geração participavam, gostavam de fazer parte disso. Foi sempre um festival muito querido. Ali também não teve só essa com o Toninho e o Momentoquatro. Tiveram outras participações que eu fiz. Ali, eu cantei, por exemplo, uma canção do Élcio Costa, em 1970. E, antes disso, em 1968, até tem essa história no livro, tem um festival que eu participei, que era uma parceria minha com o Jards Macalé e que deu tudo errado na hora do arranjo, porque ele escreveu o arranjo para a orquestra, e ele imaginou que precisava mandar cada instrumento transporto e, na verdade, o festival já transpunha. Então, o arranjo não deu certo, ficou horrível. Era um arranjo bonito, só que, com esse problema que aconteceu, perdeu-se. Então, acabou que ele e o Paulinho da Viola me acompanharam nessa apresentação, e isso aconteceu em Juiz de Fora, está lá.

Chico Buarque e outros grandes nomes da música entraram para as memórias de Joyce Moreno – Foto: acervo pessoal

– Em “Independência ou morte (a vida sem gravadora)”, conhecemos um período da sua história em que um representante de uma determinada gravadora traça um plano para acabar com sua carreira. Isso porque você não concordou com o fato de pegarem sua música, tirarem sua voz e colocarem outra cantora por cima do seu playback. Eram momentos difíceis. Quatro crianças, os shows diminuindo e uma casa recém-construída. As coisas mudaram em 1990. Como foi essa mudança?

Na verdade, essa mudança começa em 1985, quando eu recebo um convite para me apresentar no Japão. E, daí para frente, começou uma carreira internacional, o Japão me abriu essa porta, e, logo em seguida, veio a Europa e depois os Estados Unidos. Em 1990, é quando eu gravo numa gravadora major novamente, né, mas não do Brasil, nos estados Unidos. Fui contratada pela Verve, que era o braço jazzístico da então gravadora Polygram, hoje se chama Universal. E aí fiz três discos pra lá. Quer dizer, dois nos Estados Unidos e um na Alemanha, mas tudo para a Verve. E aqui esses discos saíram pelo departamento internacional da gravadora, porque o departamento nacional não lançou. Então, assim, eu fiquei como uma artista estrangeira no meu próprio país. E isso se repetiu muitas vezes até o advento da gravadora Biscoito Fino, aí eu passei a ter meus discos com mais regularidade no Brasil. Aí já estamos falando da década de 2000, né, quando eles começam a licenciar meus discos que tinham saído no exterior. O primeiro foi o “Gafieira moderna”. Então, daí para frente, a coisa ganhou outro rumo. Para mim, foi muito bom, porque eu pude te15r discos aqui, mas não era uma major ainda, e eu acho bom que não seja, eu gosto de ser artista independente, e esse mundo, para falar bem francamente, esse mundo da indústria fonográfica é um mundo que, sinceramente, não existe mais. É uma coisa que virou um conglomerado que não tem perfil nenhum e, hoje em dia, todo mundo houve música de graça, ninguém mais compra disco, tudo sai nessas grandes plataformas digitais, onde os artistas e os autores não recebem praticamente nada. Então, foi uma coisa que realmente acabou. A partir do início desse século, essa indústria, realmente, perdeu o sentido.

– Em 1964, você vivia sua adolescência. Assistiu ao golpe Militar. Depois, viveu o famigerado AI-5. Teve algumas músicas censuradas. Vários amigos desapareceram ou foram exilados. “E agora, neste intenso agora”, como você escreve, pensa em tudo isso enquanto lida com as questões do cotidiano. Mais de 50 anos depois, ecoam vozes que pregam o retorno dos Anos de Chumbo. Como você se sente com isso?

Eu vou falar aqui uma frase em relação a isso, que é uma frase muito famosa que todo mundo conhece que é aquela que diz que “aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la”. Mas, aí, completando, aqueles que conhecem estão fadados a assistir os que não conhecem a repetir a história. E é isso o que eu sinto.

– O isolamento por conta do coronavírus tem sido um momento produtivo para muitos artistas. Além do livro, você abriu parceria com Emicida, ampliou obras com nomes, como Ivan Lins, está lançando um disco. Como tem sido o isolamento para você? O que mais vem por aí? Podemos esperar mais livros?

Mais livros, por enquanto, não. Está saindo esse livro e está saindo, simultaneamente, pela gravadora Pau Brasil, um disco que gravei e que foi lançado só no Japão, em 2017, chamado “Fiz uma viagem”, com canções de Dorival Caymmi, que são canções muito ligadas a lembranças da minha infância. Então, eu quis gravar isso com minhas leituras para essas canções. E acho que, daqui para frente, é aguardar, procurar manter muito cuidado, saúde, evitar correr qualquer risco neste momento, porque a gente quer, quando acabarmos essa travessia, a gente quer chegar do outro lado estando bem. Para isso, acho que a criação artística ajuda muito, e acho também que nós, artistas, temos feito muito a nossa parte. Mesmo sem receber nenhum tipo de recompensa, de remuneração de nada, mas você vê as pessoas fazendo lives, fazendo apresentações, peças de teatro virtuais, palcos virtuais acontecendo. Eu acho que isso ajuda a manter a saúde mental da população, que depende muitíssimo desse tipo de estímulo, porque, senão, as pessoas ficam desesperadas, começam a ir para a rua, e aí essa pandemia não vai acabar nunca mais se for assim. Para isso, é importante mesmo a nossa participação, e nós temos feito a nossa parte.

Sala de Leitura – Toda sexta-feira, às 11h35, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30).

“Aquelas coisas todas”

Autora: Joyce Moreno

Numa Editora (352 páginas)

                 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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