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Juntas para fazer o bem

Por Marisa Loures

14/12/2021 às 18h23 - Atualizada 14/12/2021 às 18h33

A poeta e MC Laura Conceição e a escritora e contadora de histórias Juliana James juntam-se à ONG Brothers do Bem e levam intervenção cultural para a Comunidade do Rato, em Santa Terezinha – Foto Acervo Pessoal

Uma equipe, capitaneada pela enfermeira Nina Halfeld e formada por psicólogas, psicopedagogas, professores e muitas outras pessoas imbuídas do desejo de fazer o bem, atuam, há mais de um ano, na localidade conhecida como Favela do Rato, no Bairro Santa Terezinha. Trata-se da ONG Brothers dos Bem, que retornam ao local, no próximo sábado, às 13h30, para realizar uma grande Festa de Natal, regada a brinquedos, cestas básicas, doações de roupas, presentes, contação de histórias, teatro, dança, música e livros. Laura Conceição, poeta, MC e uma das autoras da coletânea “Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta” (Planeta, 224 páginas), é uma das vozes que se juntam à iniciativa com sua arte feroz.

“A ideia é fazer com que as crianças participem, que a gente possa espalhar um pouco mais a semente do slam, possa estimulá-las a escrever também, escutá-las. Essa troca toda. Minha apresentação vai ser muito voltada para a poesia falada, para a questão da oralidade e da potência dos versos urbanos”, conta ela, uma das entrevistadas desta terça-feira da coluna Sala de Leitura. Quem ficou encantada com o projeto, juntou-se aos Brothers do Bem e também conversa comigo, hoje, é Juliana James, professora, contadora de histórias e autora de “Ser diferente é legal” (Paratexto, 28 páginas), “Psiuuu… você tem medo de quê?” (Paratexto, 12 páginas) e vários outros títulos voltados para os pequenos.

“Fui lá em um sábado fazer uma contação de histórias e oficina de teatro para as crianças pequenas. A Nina me contou que estava organizando uma Festa de Natal e senti uma vontade enorme de ajudar, daí chamei algumas amigas para contribuir com intervenções culturais. Acho que até o Papai Noel vai aparecer por lá!”, adianta Juliana, que buscou reforço não só com Laura, mas também com Livia Gomes, atriz e contadora de histórias, Alexa Alexandre, professora de dança, e com seus alunos do Grupo de Teatro do Cave (Camila Weiss, Filipe Serra e Pedro Soares). Os interessados em contribuir com essa turma podem entrar em contato por meio do instagram @brothers.do.bem

Marisa Loures – Laura, fala-se muito que adolescente não gosta de poesia. Ouvi de um garoto que poesia é coisa de adulto, pessoas sérias, professor e escola. E que não é feita para divertir. Acredita que o slam, movimento do qual você faz parte, pode ajudar a mudar a relação de adolescentes e jovens com a poesia?

Laura Conceição – Acredito que o slam é um movimento muito importante na realização dessa ponte entre a leitura e o jovem. A gente vive numa geração, e aí eu me incluo nisso também, muito imagética. Então, acredito que essa absorção da poesia através da oralidade, dos gestos, do corpo, dos movimentos que o slam traz, potencializa muito o interesse da juventude, sabe? E também os assuntos abordados. Os jovens querem ler, gostam de ler sobre os assuntos que eles vivem. Sempre foi assim. Então, acredito que o slam traz sim essa potência, essa renovação poética que estimula a leitura, principalmente das crianças e dos jovens.

– E você está sempre envolvida em projetos com adolescentes, seja em escolas ou em outros espaços, como vai ocorrer no próximo sábado. E agora começou um mestrado em que vai estudar o potencial educacional do slam dentro da escola. Como é a relação dos estudantes de Juiz de Fora com o slam? E qual é o impacto desse movimento na vida deles?

Laura – Juiz de Fora é uma cidade que acolhe o slam nas escolas. Acho isso fundamental, porque o slam é um movimento de grande potencial educacional, é um movimento em que a gente consegue estimular os alunos e as alunas a se expressar, e isso é muito importante. Se expressar através dos versos, fazer essa conexão entre cultura de rua e escola. A escola precisa ter a percepção do que acontece na comunidade em sua volta, ela é um espaço para debater assuntos sociais, para escutar o aluno e a aluna, e isso tem que acontecer diariamente, né? O slam é um movimento com potencial educacional muito forte, uma vez que ele estimula mesmo a criação, através da expressão, através da história e da vivência de cada aluno, de cada aluna. A escola é o espaço do slam também, isso historicamente aqui no Brasil. É um espaço de reflexão, de cura e de troca muito grande. Muitos dos slams que temos hoje surgiram dentro do contexto da escola, surgiram de jovens que estão na escola. O jovem quer se expressar através da poesia. Escuta o rap em casa, escuta o funk, assiste aos slams. Por isso, não tem como as escolas não estarem abertas a esse tipo de movimento. Acredito que o impacto dos slams na vida dos estudantes é muito positivo tanto para o exercício da leitura e da escrita quanto para o exercício de expurgar e esse expressar, de falar de sua realidade e de se conectar com a realidade semelhante entre os colegas. Tem também a questão da inclusão no espaço escolar, do respeito às diferenças, da luta anti-homofobia, da luta antirracista, porque o slam tem muito disso. No brasil, a poesia do slam são textos em que a gente fala sobre nossas vivências. E a gente falando sobre isso, escutando as vivências dos outros, a gente aprende a respeitar e começa a ser respeitado também.

– Juliana, para a festa de Natal na Comunidade do Rato, entre as doações, estão livros. Trata-se de uma localidade composta por famílias em situação de vulnerabilidade social. Qual a importância de projetos como esse, que estimulam a leitura, no que se refere a contribuir para romper as barreiras da desigualdade social?

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Juliana James – As pessoas que trabalham em projetos sociais sonham em dar oportunidades que não são acessíveis a todos e todas. Essas oportunidades aproximam pessoas, contribuem para criação de laço entre seres humanos e podem mudar as perspectivas de vidas. E isso tem grande valor, é importante. Para apoiar projetos assim é necessário disponibilidade e empatia, e, com eles, vamos preenchendo uma lacuna deixada pelos Governos Federal, Estadual e Municipal. Afinal, a mudança tem que começar primeiro dentro de cada um de nós. Não adianta ficar sentado reclamando do mundo. Nós estamos no mundo, somos parte dele e podemos, sim, fazer algo para mudar a realidade de quem está perto da gente. Tem gente que pode fazer muito, tem gente que pode fazer pouco, mas todo mundo pode alguma coisa.

– A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2020, mostrou que as faixas etárias de 14 a 17 anos e de 18 a 24 anos são as que apresentam maior percentual de queda de leitores.  E são duas faixas que têm a ideia da leitura como obrigação para se conseguir uma boa nota numa prova. Como fazer com que adolescentes e jovens tenham prazer pela leitura literária e não busquem somente a leitura utilitária?

Juliana – Mais projetos de leitura, mais mediações literárias, grupos de leituras, contações de histórias e feiras literárias não só nas escolas, mas também em praças, bibliotecas e ruas, e para todas as idades. Menos leitura para se obter notas nas escolas e mais leitura por prazer, leituras com temas que se aproximem dos jovens de hoje em dia. Esse encontro com o livro, com a literatura, precisa acontecer cedo, ainda bebê, para que a criança possa viver momentos prazerosos com adultos que leem e assim ficam as memórias afetivas dos momentos de leitura, o que contribui para uma boa relação com o livro posteriormente. Iniciar a criança cedo ao universo literário não significa, de forma alguma, apressar a alfabetização, mas dar à criança a oportunidade de adquirir gosto pela leitura, de apreciar belas ilustrações, um projeto gráfico caprichado e assim desenvolver também um olhar estético ao se conectar com a arte por meio da boa literatura.

 – Gostaria que indicassem um livro como sugestão de presente de Natal.

Juliana – Indico “A revolta dos gizes de cera”, do autor Drew Daywalt. As ilustrações, o projeto gráfico e o texto são incríveis, encantam crianças de todas as idades e até os adultos. É a história de um menino que chega em casa e encontra, em cima de sua mesa, muitas cartas, e em cada delas uma surpresa; algumas vezes, um giz de cera revoltado que reclama que está sendo muito usado; outras vezes, um elogio pelo capricho; um giz preto que queria ser uma bola de praia; o rosa que não se considera cor de menina; o amarelo e o laranja que brigam para ver quem será a verdadeira cor do sol; e muito mais. Olhe que riqueza de projetos literários que podem surgir com essa história ou bate-papos em família!

Laura – Vou indicar “Rimas de Ayo”, versos para salvar o mundo, que é de um escritor que se chama Vitto Poeta, é um amigo meu. É um livro infantil, mas indicado para todas as idades. É muito bonito e muito necessário, relacionado à cultura de rua, à cultura do hip-hop, à cultura dos saraus, dos slams, da literatura de cordel.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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