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Vinícius Lara: “Meus poemas são fotografias da memória presente”

Por Marisa Loures

10/11/2020 às 10h53 - Atualizada 10/11/2020 às 17h39

O professor e psicanalista Vinícius Lara estreia na literatura com “Deslembrar” – Foto Brendha Torres/Divulgação.

O poeta é categórico em seus versos. “Deus me livre de ser sempre um só”. E é a palavra escrita que dá a ele a oportunidade de seguir pelos muitos caminhos possíveis “até que o corpo se canse”. Vinícius Lara tem 32 anos. É psicanalista, professor e fotógrafo amador. Também gerencia o projeto Absurda Letra, criado com o propósito de popularizar a literatura e o hábito de escrever. “Depois de alguns anos vivendo fora da cidade, retornei a Juiz de Fora onde tenho feito meu laboratório de experimentação criativa pela palavra, movimento que dá ao escritor uma possibilidade fantástica de brincar de ser muita gente e muitas coisas”, conta ele, que acaba de lançar “Deslembrar” (kotter Editorial, 136 páginas), sua estreia na literatura.

O livro reúne poesia e prosa poética, e boa parte dos textos que o compõem nasceu em 2019, quando o autor estava entregue a reflexões sobre os altos e baixos da vida e sobre a total falta de controle dela. “É comum aprender que as coisas têm um propósito único, que a caminhada é rumo à vitória, que você deve lutar pelos seus sonhos, e isso, em grande medida, me parece verdade. Porém, o que percebi é que, depois dessas coisas todas, ainda existe um resto, um precipitado de desamparo que é fruto da própria crueza de existir. ‘Deslembrar’ é uma fotografia do absurdo que é viver uma vida comum, absolutamente comum.”

São 57 textos, divididos em três partes de “Deslembrar”: “Mãe do céu rosado”, “O dono dos montes” e “Rei que unifica um povo”. As reminiscências do poeta perpassam os escritos. Em “Melodia”, por exemplo, Vinícius volta aos seus 18 anos, quando ainda morava na casa espaçosa com o pai e a mãe, e “o tempo ainda não mexia os/ ponteiros do meu reloginho”. Ele acorda. Tudo não passa de um sonho. Faz parte de momentos já vividos. Contudo, toda noite, ao dormir, ele consegue voltar a esse seu tempo particular e ter sua cadelinha Melodia de novo em seu colo.

E, além de reviver memórias passadas, Vinícius também mantém o olhar atento para o presente e não se esquiva de usar sua escrita para fazer críticas ao que o incomoda. No texto “Sou de outra mitologia”, ele dispara que nunca acreditou em demônios, pois nasceu em outra mitologia. Ele está certo de que, se eles existem, estão aí, por todos os lados, mas sem sustentar chifres e sem cheirar a enxofre. Possuem outra cara. São bem mais sedutores, têm olhos claros, voz empostada, carisma e erudição. “aqui tenho medo de ofender algum Belfegor esforçado./ Me parece que esses indivíduos são eruditos castrados./ E por que demônios, então?/ Efeito Dunning-Kruger/ Terra plana; sem vacina; astronomia doméstica; viva o mito”.

Nesta entrevista, o autor fala sobre “Deslembrar”, disponível nos sites da Amazon e da kotter Editorial e, aqui em Juiz de Fora, na Atena Bookstore. E também declara todo seu amor pela escrita.

Marisa – Gostaria que comentasse o título do seu livro, “Deslembrar”. Essa é uma palavra morfologicamente constituída do prefixo “des”, um prefixo de negação, isto é, não lembrar, esquecer. No entanto suas lembranças perpassam seus escritos. Mesmo que nem tudo ali seja uma reminiscência real, parece-me que há uma necessidade do poeta de não perder suas memórias…

Vinícius  Lara – Tudo que se passa ali é uma reminiscência real, essa é a questão. Mas o poeta brinca com isso. Quando pensei no título, estava realmente diante de memórias enormes, um caminhão delas, algumas doloridas, outras infinitamente felizes, mas sem saber muito bem como organizar ou se era possível organizar todas elas. Deslembrar não é esquecer, é lembrar de uma forma diferente. Talvez, e penso isso enquanto respondo à questão, deslembrar seja uma forma de tirar da lembrança e inserir as memórias no presente, no agora. Deslembro o que passou e coloco todas as imagens sobre a mesa. Esse título me remete a um protesto contra o esquecimento comum das coisas.

– Em “O vício da escrita”, você dispara: “Uma vergonha pensar que só se faz poesia por amor”, já que existem “tantas coisas no mundo para serem possuídas”. Por que você faz poesia?

É uma vergonha, mas faço poesia por amores, vários deles. Pela vida, por uma mulher, por gente. Penso que o texto seja um transbordamento de quem escreve, pelo menos, no meu caso, é assim que acontece. Não planejo o que ou quando escrever – seja na prosa ou na poesia. As coisas acontecem a minha volta e como que me fecundam, daí essa semente matura e o texto acontece. Quando escrevo, penso que o texto deve ser lido e apreendido por qualquer pessoa que cruze os olhos com ele, e por isso me preocupo menos com as formalidades da métrica poética e mais com a tentativa de imprimir humanidade nos versos. Escrevo porque amo, e amo porque não aprendi como fazer diferente.

– Em alguns de seus escritos, como “Sou de outra mitologia” e ‘Mefisto”, as críticas ao momento atual estão muito presentes. É da opinião de que é seu dever, enquanto escritor, ter esse olhar atento para o seu tempo?

Acredito que exista uma função social da arte como um todo e da escrita em particular, e essa função aponta para resgatar entre as pessoas aquilo que as une, ao mesmo tempo em que expõe o absurdo do que vivemos sob o peso da política extremista, da violência institucionalizada, do preconceito. Percebo que alguns artistas incríveis produzem conteúdos descolados da realidade objetiva da vida na cidade e de suas exigências. Quando me deparo com obras assim, fico feliz, mas sempre penso em como esse tipo de criação chega às pessoas que vivem uma rotina estressante, ou como quem não tenha um alto nível de erudição poderia se apropriar dessas produções. Eu me considero um indivíduo progressista e temo pela fragmentação deste campo no discurso político, social e artístico. É uma preocupação quase sempre presente nos textos que escrevo olhar para o que é humano em nós e costurar o texto a partir daí. De outra maneira, tenho a impressão de que minha escrita, quando não inútil, seria subaproveitada. A palavra existe para dizer.

– E você se apresenta como um fotógrafo amador e alguém que se sente “atraído pelo cotidiano em suas expressões mais cruas”. Esse olhar de fotógrafo atento à banalidade do dia a dia é transposto para sua escrita?

Totalmente. Aprendi um pouco sobre fotografia enquanto escrevia “Deslembrar”. Eu me lembro que, durante uma viagem que fiz a Buenos Aires para participar de um evento, tive um dia de folga sozinho na cidade e resolvi andar e fotografar aquilo que capturasse meus olhos. O resultado foi incrível para mim, o que me incentivou a investir um pouco mais nesse hobby. A fotografia e a escrita se tocam porque as duas se processam da mesma forma dentro da minha cabeça. Vejo algo que me chama atenção na rua, tento olhar por um ângulo inusitado, se consigo e tenho minha câmera comigo, nasce uma fotografia. Quando escrevo, acontece algo parecido, eu sinto, vivo ou vejo algo – o que no fim não faz muita diferença prática – e daí tento captar pela lente da ponta dos dedos. Meus poemas são fotografias da memória presente.

 – “Vou escrever o poema mais lindo de todos para você,/ espera só um minuto que a ideia já vem”, dizem os versos iniciais de “Que tudo seja auspicioso”. O que o poeta faz quando os versos não vêm?

Espero. Não é o poeta que cria os versos, pelo menos não no meu caso. Eu me sinto atravessado por eles. Se não vêm, é porque devem estar fazendo outras coisas por aí, mais interessantes, inclusive. Esse poema, por exemplo, foi escrito para minha cachorrinha que se chama Tashi (que tudo seja auspicioso, em tibetano). Tashi existia pertinho de mim, o afeto por ela também, mas as palavras ainda não tinham chegado. Sou um palavreiro resignado, se elas não aparecem, eu me distraio com outras coisas até que se mostrem para mim.

– Partindo do pressuposto de que sempre existe uma herança poética a partir da qual todo autor começa seu processo de criação, gostaria que nos contasse quais sãos os escritores com os quais sua literatura dialoga. Quem você lê na busca por inspiração?

Vejo na literatura existencial minha maior influência de escrita, especificamente as obras de Albert Camus, Sartre, Freud e Dostoiévski. Nunca li poesia de modo sistemático, mas gosto bastante dos textos de Fernando Pessoa, Drummond, Vinícius de Moraes e, mais recentemente, me apaixonei pela escrita de Matilde Campilho. Entre todos esses, no entanto, foram, sem qualquer dúvida, as obras de Camus e de Freud que mais profundas raízes criaram em mim.

 – Você gerencia o projeto Absurda Letra com o objetivo de popularização da literatura e do hábito de escrever. Como funciona o Absurda Letra? Como ele nasceu e quem pode publicar lá? Por que esse nome?

O Absurda Letra é um projeto que criei junto com alguns outros amigos e amigas escritores, com a intenção de popularizar referências a textos clássicos da literatura e também estimular a escrita por parte de quem sente vontade de escrever, mas não sabe bem onde publicar. Criamos um perfil no Instagram e um site que alimentávamos semanalmente tanto com trechos de livros famosos, quanto com a produção que recebíamos de nossos parceiros. Hoje o projeto vem passando por algumas reformulações, mas 2021 promete boas mudanças. Sobre o nome, mais uma vez o retorno ao absurdo que é existir. Sem destino, sem sina, sem saber do ponto final. Se existir é absurdo, todo texto também deveria ser.

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– O que você sonha para “Deslembrar” e quais são seus projetos literários?

Seria estranho se eu dissesse que não sonho qualquer coisa para o livro, por isso não vou dizer, se bem que acabei de escrever isso. Brincadeiras à parte, penso que um livro deva ter vida própria. Ele nasce das mãos da gente, mas segue um caminho que não depende de nós. Gostaria que “Deslembrar” fosse incômodo para algumas pessoas, que pudesse retomar memórias a outras e até que divertisse alguém que o lesse. Já me sinto feliz com o cheiro do livro novo e a facilidade de encontrar uma parte de mim ao alcance das mãos. Aos leitores, eu sugiro que façam de “Deslembrar” aquilo que mais lhes agradar. Em relação a projetos literários futuros, tenho ensaiado alguns passos pelo caminho das crônicas e me organizo para em breve apresentar uma coletânea nesta estilística para publicação. Tenho publicado quinzenalmente na Revista Trama, aqui de Juiz de Fora, uma excelente revista, por sinal, e convido, quem se interessar a conhecer, a buscar pelo site www.tramabodoque.com.br. “Deslembrar” está disponível para compra pelos sites da Amazon, da Kotter Editorial e também, aqui em Juiz de Fora, na queridíssima Atena Bookstore. Se você tiver curiosidade de conhecer o livro, passe por lá. São sonhos modestos, e eu adoro isso.

Sala de Leitura – Toda sexta-feira, às 11h35, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30)

“Deslembrar”

Autor: Vinícius Lara

Editora: kotter Editorial (136 páginas)

“Deslembrar” está disponível nos sites da Amazon, da Kotter Editorial e também, aqui em Juiz de Fora, na queridíssima Atena Bookstore.

                

 

Vida crua

Por Vinícius Lara

A vida é banal como um animal atropelado na via.

Mesmo com distrações capazes de alienar

É crua demais, e não pede permissão para ser.

Subitamente ela gera um dia em que desmorona

Sob o peso de si mesma, e de sua intransigência.

“Consolo só em Deus!” Ouço dizer por aí.

Piada ruim esse tipo de esperança.

Deus por acaso entende o que é viver?

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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