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Waldyr Imbroisi lança livro sobre geração millennial, com distribuição gratuita

Por Marisa Loures

02/06/2020 às 10h06 - Atualizada 02/06/2020 às 15h02

Professor e autor de “Um millennial no centro do mundo”, Waldyr Imbroisi afirma que aprendeu mais sobre o Brasil com Machado de Assis, um “psicólogo profundo da alma brasileira” – Foto divulgação

Na tela do computador, abro “Um millennial no centro do mundo” (Cachalote, 65 páginas). A capa já é suficiente para despertar minha curiosidade em relação a esse livro: uma página do Instagram, uma foto antiga, em preto e branco, um cruzamento de Juiz de Fora que se tornou palco de um dos acontecimentos mais chocantes da última eleição presidencial, fazendo de nossa cidade o centro do mundo. Algumas pessoas paradas, conversando; outras, andando. Um homem em primeiro plano. No centro. Nas primeiras linhas do livro, o autor confessa estar sendo fiel às suas “presunções insensatas, conclusões parciais e observações aleatórias”. Vai além, diz que seu opúsculo não apresenta “nada de novo, surpreendente ou transgressor”. Apenas o óbvio. E o óbvio que ele traz causa em mim certa inquietação. Quero continuar a leitura até o final e entender o que pensa aquele millennial, que, em meio aos morros de Minas, decide falar sobre si e sua geração. Se não há nada ali de novo, por que escrever? Surge a primeira pergunta para esta conversa.

“Por que não escrever? Devolvo a pergunta porque considero-a muito difícil; houve um tempo em que acreditei apenas em esforços que valessem a eternidade, mas hoje creio que a eternidade é uma ilusão. Por que escrever o óbvio? Talvez porque ele não seja acessível de imediato. Há muitas camadas de nós mesmos entre nossa observação e as verdades que agridem os olhos e ouvidos. Talvez escreva para demarcar o meu caminho, como quem joga migalhas na estrada para saber por onde passou. Talvez seja um gesto de comunicação, como quem implora uma côdea de pão a um passante que siga”, revela Waldyr Imbroisi, para logo se dar conta de que poderia ter respondido de maneira bastante diversa. “Escrevo porque sei que vou morrer, e, por isso, não é lícito negar a mim mesmo”, dispara.

“Um millenniall no centro do mundo” está disponível desde domingo, em formato digital, na página da editora. A versão em PDF está aberta gratuitamente, e a versão ePUB está sendo vendida pelo preço simbólico  de R$2,00 na loja. Nas páginas desse ensaio, deparamo-nos com as “confissões” desse representante de uma geração que alcançou a maioridade no novo milênio. Cresceu em um país regido pela democracia. Possui referências múltiplas. Vive em um mundo sem definição. Experimenta a liberdade, aliás, brada por ela, contudo, reconhece que “a definição é um refrigério, enquanto a liberdade é a angústia da nossa era”.

Waldyr faz uma análise bem interessante da nossa política; sua escrita não poupa Lula nem Jair Bolsonaro. Não aplaude a polaridade que o Brasil enfrenta e especula sobre quem poderá “se dar ao luxo do pensamento autônomo e individual em uma época de tanta carência, tanta necessidade do outro?”. Ele sabe que o leitor ou leitora querem saber qual é sua posição política. Segura a resposta para as páginas seguintes. E nós o acompanhamos até descobrir que foi em Machado de Assis que ele aprendeu muito sobre o nosso Brasil. Waldyr é machadiano. Também é autor de “Orquidário: lembra-te que deves morrer” (2015). É juiz-forano, professor e um millennial no centro do mundo.

Marisa Loures – E como é esse millennial no centro do mundo com quem eu falo?

Waldyr Imbroisi –  Sou uma criatura em formação. Os seis meses que separam a escrita desse livro da sua publicação foram suficientes para já ser diferente, e espero verdadeiramente que continue a ser assim. Tenho crenças fortes, mas não tenho – por enquanto – forças suficientes para viver em plena conformidade a elas. Moro cercado pelos morros de Minas, com sete cães e uma alma que me completa. Sou professor e não pretendo jamais deixar de sê-lo. Nos últimos anos, tenho estado particularmente sensível, algo recluso e esporadicamente convulsivo. Tenho mais interesses do que consigo perseguir.

– A primeira frase do seu livro –“Não se fala sobre nada além de si mesmo.”–  já me traz a impressão de que é de uma forma crítica que você enxerga esse lugar que sua geração ocupa, a de alguém que sente estar sempre no centro do mundo…

Sem dúvidas ela anuncia justamente isso. Os millennials são, demograficamente, o centro do mundo: estão entre nós de Zuckerberg a Malala, somos metade da força de trabalho do globo e responsáveis por construir o amanhã. Mas fomos criados para pensar que isso se daria naturalmente – daí uma relação entre promessas e frustrações. Porém, há uma ambiguidade fundamental na sentença que expressa, igualmente, uma verdade que transcende os millennials: não se fala sobre nada, senão a partir de si mesmo. Falar/escrever é também entender-se – ou pelo menos assim acredito.

“Eu acredito que este é um excelente momento para se estar vivo. Demorei a me aceitar como filho do meu próprio tempo, mas hoje me sinto realmente satisfeito com nossas contradições e impossibilidades. Compartilhamos sonhos e frustrações, e isso nos torna irmãos. Ocorre que ambos são, neste momento, muito mais numerosos do que no passado: há mercadores de sonhos em cada esquina (ou postagem?) e, a dois passos de cada um deles, frustrações esperando pacientemente por nós.”

– E como é nascer em uma sociedade que permite experimentar as maravilhas de um mundo globalizado que se tornaram essenciais à vida, como você mesmo diz, mas se ver diante de promessas impossíveis de se realizar? É isso que faz de você um millennial que prefere o silêncio?

Eu acredito que este é um excelente momento para se estar vivo. Demorei a me aceitar como filho do meu próprio tempo, mas hoje me sinto realmente satisfeito com nossas contradições e impossibilidades. Compartilhamos sonhos e frustrações, e isso nos torna irmãos. Ocorre que ambos são, neste momento, muito mais numerosos do que no passado: há mercadores de sonhos em cada esquina (ou postagem?) e, a dois passos de cada um deles, frustrações esperando pacientemente por nós. Quanto ao silêncio, eu não diria que o prefiro. É que na verdade ele é hoje um luxo: há sons, imagens, textos que povoam nossos pensamentos continuamente. Defendo e desejo o silêncio não como refúgio definitivo, mas como forma de se resguardar dos ruídos da turba e encontrar a si mesmo: trata-se de cultivar a quietude de um santuário ermo, antigo; para que, na hora precisa, seja impossível não ouvir os gritos.

– Você lamenta o fato de, como um millennial, viver em um mundo de referências múltiplas. Um mundo sem definição. O que será do amanhã? Quem serão seus pares? Confessa que “a definição é um refrigério, enquanto a liberdade é a angústia da nossa era”. Mas vejo cada vez mais essa sua geração e as gerações mais novas bradarem por liberdade. Não seria um paradoxo? É uma sensação de não saber o que fazer com essa liberdade toda?

Não sei se propriamente lamento a multiplicidade e a incerteza; sem dúvidas, sofro o peso delas, como qualquer millennial, mas não posso negar que o arranjo me agrada ao fim das contas. As certezas e definições são extremamente úteis na economia das energias empregadas nos atos humanos, mas seu reverso é provocativo: é sempre um convite para tomarmos posse do nosso próprio destino. Quanto à liberdade, creio que sua dimensão angustiante foi sentida em vários momentos da história recente: escolher é sempre abandonar. E, uma vez que as escolhas definitivas exigem emprego ostensivo das nossas forças, nossa geração cai vezes sem conta na armadilha das pequenas liberdades e entrega ao acaso o próprio destino. A associação da liberdade e a angústia não me parece, portanto, um paradoxo, mas talvez uma antítese inerente à dura e suportável condição dos nossos tempos.

“A verdade é que a participação política nunca foi uma marca da nossa história, e o autoritarismo esteve sempre entre nós, mais ou menos escondido. Nossa geração tem a incrível oportunidade de transformar isso, seja pelo amplo e jamais experimentado acesso à informação, seja pelas convulsões políticas que despertam a vontade de entender o que está acontecendo.”

– Nascido uma semana antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, pertence a uma geração que não viveu a Ditadura Militar. Veio ao mundo em um país já regido pela democracia. Liberdade é a palavra de vocês. E, agora, vê o avanço do conservadorismo e ouve gritos de pessoas que pedem o retorno do autoritarismo. Essa geração não consegue dar valor à democracia?

Nos últimos anos, muitos de nós finalmente percebemos o quanto a democracia fez por nós e permitiu nosso crescimento livre e saudável – essa dádiva iluminista que nos parecia tão natural. Mas, nessa nossa relação, não sabemos ainda como demonstrar o valor que lhe damos. A verdade é que a participação política nunca foi uma marca da nossa história, e o autoritarismo esteve sempre entre nós, mais ou menos escondido. Nossa geração tem a incrível oportunidade de transformar isso, seja pelo amplo e jamais experimentado acesso à informação, seja pelas convulsões políticas que despertam a vontade de entender o que está acontecendo. Para dar valor à democracia, pesa sobre nós a necessidade de inventar uma nova relação com o Brasil.

– “Quem poderá se dar ao luxo do pensamento autônomo e individual em uma época de tanta carência, tanta necessidade do outro?” Essa é uma indagação que você faz num ponto em que discorre sobre a realidade atual do Brasil: os papéis estão bem marcados. Como diz, ou se é de direita e, portanto, é acusado de fascista; ou se é de esquerda, e é acusado de petista. As bolhas já estão formadas. Será que é possível escapar dessa polaridade para alcançar um tipo de pensamento mais autônomo?

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Essa é a nossa única opção. Se é possível ou não, provavelmente será a nossa geração a descobrir. Os antimodernos do nosso tempo mostrarão o caminho.

– Descobri que foi machado de Assis, “psicólogo profundo da alma brasileira”, quem mais trouxe ensinamentos para você sobre o nosso país. Aliás, depois de fazer uma profunda análise sobre a “verdade” de políticos, como Lula, Bolsonaro, Haddad e Cabo Daciolo, assume qual é sua posição política: “sou machadiano”.O que você aprendeu com Machado de Assis?Em que um machadiano acredita?

A literatura nos ensina tudo. Uma obra literária é sempre um presente, pois, falando a partir de si mesmo, o autor nos convida a dar passos para além de nós e sermos maiores. Machado via o Brasil de um lugar único: negro, autodidata, funcionário público, jornalista e escritor de renome ainda em vida, enxergou o mundo dos poderosos e do brasileiro médio como quem apreende ambientes pelos quais aprende a transitar, não como quem herda passivamente os comportamentos de um grupo. Enxergava, primeiro, seres humanos, em sua fragilidade; por isso suas personagens eram verdade. Comecei a entender isso com “Esaú e Jacó”. Em resumo, como machadiano, acredito que o teatro das vaidades possui papel muito mais proeminente no jogo político e nas definições da vida comum do que comumente se presume e que a política deve ser lida como literatura, para melhor entendê-la e cuidar de nossa alma.

– Você se declara antropofágico, alimenta-se do outro, do que lhe é estranho. Em que medida hoje é importante termos a consciência da diversidade humana e de respeitá-la em prol de uma sociedade menos intolerante?

Nós somos uma espécie de pelo menos 300 mil anos de idade, desenvolvida no continente africano, sobre cuja formação já se sabem algumas verdades científicas: a hibridação genética e a transmissão cultural são fatores definitivos do nosso sucesso no jogo da vida. Carregamos no nosso DNA, eu e você, trechos sequenciais do genoma dos neandertais e sabe-se lá de quantos outros hominídeos com quem o Homo sapiens gerou descendência, que estamos apenas começando a descobrir. Ao mesmo tempo, há evidências de artefatos sendo intercambiados entre povos genética e culturalmente diversos há pelo menos 40 mil anos no Oriente Médio (em que pese a dificuldade de encontrar provas desse comércio, ele pode ser muito mais antigo). Ir em direção ao outro é um impulso que está em nós desde o alvorecer da espécie; alimentar-se do que ele pode oferecer é a chave da adaptação e do crescimento. Por tudo isso, acredito que a antropofagia é o único meio de viver para além de si. Se jamais poderemos experimentar em sua essência a dor e alegria do outro, sobretudo se separados pelas barreiras simbólica e concretamente construídas na nossa sociedade (raça, gênero, classe, orientação sexual, entre outros), podemos, ao menos, fazer todos os esforços possíveis para nos alimentar do que eles são. Se cada um fala a partir de si mesmo, devemos buscar o “a partir” de onde cada um fala, especialmente aqueles cuja voz foi histórica e sistematicamente silenciada. Não há nada de novo nisso, apenas, talvez, não lembremos como fazer: a neurociência mostrou, há uma década, que nossos cérebros estão preparados para a empatia e respondem de forma espelhada os estímulos do “outro” a quem ouvimos com atenção. Essa prática é uma das missões mais urgentes da nossa era.

– Claramente, você, como um millennial, não sabe aonde ir, como afirma. Confia na sua geração?

Quase todos os dias da minha vida.

“Um millennial no centro do mundo”

Autor: Waldyr Imbroisi

Editora: Cachalote

Clique aqui para acessar o livro em formato digital.

 

 

 

Trecho de “Um millennial no centro do mundo”

Por Waldyr Imbroisi

“6 de setembro de 2018. Sobre esta data, começo com o relato de um jovem amigo que percebeu precocemente a necessidade da mordida no real — um amigo cuja identidade preservo, e que decidiu acompanhar a marcha de Jair Bolsonaro pela rua Halfeld na sua visita. Ele não era eleitor, tampouco simpatizante dessa figura, mas respirou fundo e, em instintiva participação observante, integrou-se à massa insólita que por todos os lados gritava e premia. O messias, com seus sorrisos e acenos, tocava mãos e distribuía bênçãos. Seus seguidores exultavam, pulsavam em excitante e violenta alegria, aos gritos, em louvor. E este jovem, Malinowski de si mesmo, sentiu no íntimo que não estava só; sentiu que participava daquela coletividade em que todos pareciam se gostar e respeitar, em que o mais essencial — os valores espirituais projetados sobre um homem comum — era igual para todos. Teve vontade de gritar, de louvar, de regozijar com aqueles que, seus opostos, eram então seus pares. O ritual religioso já havia começado (e quantos podem resistir à acolhida da tribo, aos delírios coletivos em torno de algo maior? Nessa era de solidão e miséria dos encontros, com que forças podemos recusar a chance de bradar em comum espírito — Saturnais! Sabá negro! Comunhão!) Poucos minutos separam esse evento de seu ápice; entre a Halfeld e a Batista, uma criatura inesperada, que rondava o cortejo de um lado a outro em busca de espaço, rompe o cerco que isola Bolsonaro e golpeia-o com uma faca (Adélio, o desequilibrado; será esse o acaso mais estranho e mais definitivo da história do Brasil?). Neste dia, minha cidade adolescente alcançou sua maturidade e tornou-se o centro do mundo: em uma esquina de Juiz de Fora o ponto mais alto da narrativa messiânica, o sacrifício, é escrito.”

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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