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‘Invasão’: mais suspense, menos ETs

Por Júlio Black

15/12/2021 às 07h00 - Atualizada 14/12/2021 às 14h37

Oi, gente.

A proliferação dos serviços de streaming já foi tema de matéria na Tribuna, assim como em outros jornais, sites, e rende debates em canais no YouTube, podcasts, grupos de WhatsApp ou com as vozes em nossas cabeças. Geralmente, um dos pontos abordados é quais serviços assinar, e um dos menos recomendados é o da Apple TV+. Entre os argumentos para não escolher a plataforma, o mais citado é o pequeno acervo, quando comparado – principalmente – com o da Netflix.

Pois vamos mandar a real: quanta besteira, ah migos, ah migas e pessoas de todos os gêneros. Quanto à questão da grana, sabemos que assinar todas as plataformas pode custar quase 200 barões (pesquisem no Google, juvenis) por mês, porém é possível diminuir essa facada para algo em torno de R$ 50 rachando as assinaturas com amigos e parentes – ou seja, pouco mais do que se paga para ter apenas a Netflix.

No que diz respeito a escolher o streaming apenas pela quantidade, e não pela qualidade, pode ser um tiro n’água. A já citada Netflix lança 700 filmes e séries por semana, mas quantos seriados conseguem sobreviver ao cancelamento no ato da matrícula? A adaptação de “Cowboy Bebop”, que teve uma boa primeira temporada e tinha tudo para corrigir os erros e durar uns bons anos, foi impiedosamente cancelada pelo “N” vermelho com a velocidade de uma andorinha africana (fãs de Monty Python entenderão), pois a empresa se baseia em algoritmos e meia dúzia de semanas para decidir o destino de suas produções.

A Apple TV+ pode não ter milhares de opções como a concorrente – dizem, inclusive, que não passaria de cem, não parei para contar -, mas arriscamos dizer que é a melhor em termos de custo-benefício. Dentre as séries que já assistimos na plataforma estão “For all mankind”, “Ted Lasso”, “Servant”, “Fundação”, “Physical”, todas excepcionais, e estão na nossa lista “The Morning Show”, “Em defesa de Jacob”, “See”, “Truth be told”, “Calls”, “Dr. Brain”, “O psiquiatra ao lado”, “Teerã”. E não falamos dos (poucos e bons) filmes, dos documentários musicais, e tudo por menos de dez merréis.

Graças a esse retrospecto positivo, começamos a assistir a “Invasão”, cuja primeira temporada acabou na última sexta-feira (e com a segunda já confirmada, viu, Netflix?), apesar da trama, a princípio, não ser um primor de originalidade: alienígenas invadem a Terra, e no meio desse pega-pra-capar acompanhamos pessoas comuns (famílias de civis, militares, cientistas) tentando sobreviver ao extermínio, enquanto a humanidade busca uma forma de reagir aos ETs hostis.

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O trailer, entretanto, despertou curiosidade por vender (e bem) a ideia de que a tal invasão seria vista MESMO pelo ponto de vista de pessoas comuns ao redor do globo, mostrando como elas reagiriam às notícias, à destruição das cidades, como fariam para sobreviver e as tentativas de entender o que estava acontecendo quando os meios de comunicação deixam de funcionar. E a diversidade de pontos de vista também ajudou a dar uma chance à produção: temos um xerife quase aposentado no estado norte-americano de Oklahoma com um mau pressentimento; uma dona de casa de origem iraniana, moradora dos subúrbios de Nova York, que acaba de descobrir a infidelidade do marido; um adolescente inglês que sofre de epilepsia; um militar dos Estados Unidos no Afeganistão; e uma cientista japonesa que trabalha no programa espacial de seu país.

“Invasão” poderia ser apenas uma versão televisiva de “Independence Day” com o diferencial de um elenco etnicamente mais variado, além da óbvia inspiração em “Guerra dos mundos”, de H.G. Wells. Mas o bagulho fica sério por um motivo simples, e que é muito bem explorado pelos produtores: apesar de ser uma série sobre um ataque extraterrestre, “Invasão” mal exibe os aliens durante seus dez episódios, e, principalmente, não há naves alienígenas no céu e grandes cenas de cidades sendo destruídas. No máximo, panorâmicas de prédios em escombros, fumaça de incêndios, cidades vazias e pessoas em fuga. Os alienígenas, nas poucas vezes em que aparecem, são de dar medo, ainda mais pelo visual totalmente fora do padrão.

Ao escolher essa forma diferente (e econômica) de mostrar o ataque extraterrestre, a série coloca seus protagonistas nos mais variados apertos, uma vez que ninguém sabe muito bem o que está rolando pelo mundo – no máximo, chega a notícia de que algum tipo de ataque aconteceu, geralmente visto como uma ação terrorista. Muitas vezes sem celular ou televisão para se informar, o que resta é ir de um lugar a outro tentando compreender o que se passa, até a ficha cair lá pelo meio da temporada.

Além da trama fugir do óbvio em produções do gênero, com destaque maior para o suspense que aos bons e pontuais efeitos especiais, “Invasão” conta com um elenco excelente e um roteiro bem amarrado, deixando o público apenas meio passo à frente dos personagens quando o assunto é tentar compreender o que está rolando. Imagine, por exemplo, que Juiz de Fora fique sem sinal de celular, internet, televisão, e o Exército apareça do nada e mande todo mundo abandonar a cidade, pois “o Brasil está sendo atacado por alguma coisa”.

Para a turma que curte uma boa ficção científica, “Invasão” é mais uma ótima produção lançada pela Apple TV+, que tem acertado por apostar na qualidade no lugar da quantidade.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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