Recomeços

Amor Não Tem Raça busca nova sede após enchente de fevereiro; comoção impulsiona adoções e animais abrigados seguem em lar temporário pago

Por Ana Paula Cappellano

Se 2026 há de se provar o ano da resiliência em Juiz de Fora, na linha de frente da causa animal, uma das forças mais representativas é a da Associação Amor Não Tem Raça. A Ong se tornou referência no movimento pela adoção e guarda responsável de cães e gatos desde sua fundação formal, em 2022, mas as chuvas de fevereiro poderiam ter interrompido prematuramente uma trajetória marcada por luta pelos animais e muitos finais felizes. 

“A água começou a invadir nossa sede às 22h18 e só conseguimos soltar os cães 1h30, quando um bote do Corpo de Bombeiros nos levou até o portão do canil. Os cães ficaram mais de três horas dentro d’água! Para os gatos foi mais tranquilo porque eles subiram para os nichos mais altos, nas paredes. De material, perdemos tudo”, relata a fundadora e presidente da associação, Miriam Neder.

Vários cães, pelo contato com a água contaminada da enchente, foram internados com infecção bacteriana, incluindo uma cadelinha que foi a óbito. Outra cachorrinha se perdeu na madrugada caótica e ainda não foi encontrada.  Em meio à tristeza, aos trabalhos de limpeza e reorganização, logo na manhã seguinte, foi feito o pedido de desocupação do imóvel alugado. 

Lar temporário 

Após a enchente, a Amor Não Tem Raça providenciou um lar temporário pago, com segurança e conforto, para os abrigados, e está usando espaços emprestados para o armazenamento de rações e doações. A associação, que já almejava a compra de um terreno para a construção de uma sede definitiva nos padrões preconizados pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), agora busca recursos para a compra de um imóvel próprio, desafio a ser enfrentado, reconhecendo as questões financeiras e políticas que atravessam a causa animal na cidade. 

“Na iniciativa pública é difícil porque, até hoje, só recebemos uma emenda, em 2025. Em 2026, não receberemos. É difícil porque, na maioria das vezes, políticos enviam emendas para Ongs que trabalham para eles. São poucas Ongs recebendo milhões, enquanto a maioria luta com muita dificuldade”, observa Miriam. 

Entre as estratégias da associação estão a realização de eventos e o apoio de patrocinadores privados. “Também não vai ser fácil, mas o que não nos falta é coragem e vontade de fazer melhor”, reflete.

Utilidade pública

Reconhecida como Utilidade Pública Municipal, a associação chega a realizar 150 resgates por ano, mesma média de adoções, e mantém o número de abrigados em 50, geralmente 30 cães e 20 gatos. Os resgates são feitos à medida que os animais são adotados, o que garante o equilíbrio das contas e das atividades.

Todos os resgatados são cadastrados e microchipados, com posterior envio de link e orientações a adotantes para inscrição no  Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos (SinPatinhas), o que também é incentivado no caso das castrações pagas pela Ong para animais de pessoas em situação de vulenerabilidade. 

“Com a comoção pelo que aconteceu conosco, muitas pessoas nos procuraram querendo adotar. Também já fizemos um evento de adoção após a enchente e, como teríamos que desocupar o imóvel a pedido dos proprietários e não sabíamos para onde ir, paramos de resgatar. Em um mês, resgatamos apenas um cãozinho que estava com o olhinho para fora”, atualiza Miriam.

Agora, são 31 animais abrigados, 13 no lar temporário pago e os outros nas casas da equipe da Ong e de voluntários. Um cão, adotado anteriormente na associação, voltou a ser abrigado até que a tutora, desalojada em consequência das chuvas, consiga uma nova casa. A Ong também segue ajudando animais de outras famílias impactadas, com ração, areia e medicamentos.

Também por conta da enchente, o projeto educativo da Amor Não Tem Raça perdeu 5 mil cartilhas impressas para crianças de até 12 anos, mas segue firme como parte fundamental da agenda da associação, alcançando um público amplo, de escolas a faculdades, passando por empresas e eventos.

“Temos apresentações para todas as idades. Acreditamos que a educação para a guarda responsável de animais seja o principal caminho para o fim do abandono, e, claro, aliada a um programa de castração gratuito, que funcione de segunda a sábado, de janeiro a janeiro”, reforça.

Resilientes

Miriam acumula um repertório vasto no campo da proteção animal, desde a adolescência, quando entrou para o ativismo. Em 2016, assumiu o então recém-criado Departamento de Controle Animal, em Juiz de Fora, onde enumera diversos avanços, como na castração, microchipagem e adoção de animais, reforma do canil e criação de convênios com clínicas veterinárias. A fundação da Amor Não Tem Raça aconteceu após esse período na iniciativa pública, depois de ser exonerada do cargo em 2021, no primeiro mandato de Margarida Salomão na Prefeitura de Juiz de Fora.

Hoje, se reerguendo em um cenário quase impossível, a associação renova a missão guiada por aquela resiliência, às vezes inacreditável, dos animais, que, mesmo resgatados em situações extremas, devolvem amor ao mundo. Podemos – e devemos – aprender com eles, especialmente em períodos como o que vivemos, hoje, na nossa cidade. “Passaram por momentos horríveis, mas não perderam a fé e a confiança em nós”, descreve Miriam, e conclui: “Nos ensinam a ter força, lealdade e a começar de novo”.

 

Ana Paula Cappellano

Ana Paula Cappellano

Ana é jornalista pela UFJF, mas foi em redações e agências na cidade de São Paulo que consolidou seu trabalho, desenvolvido ao longo de mais de 20 anos no campo editorial, em revistas e jornais das áreas de saúde, direitos sociais e humanos, e design de interiores. Na capital paulista, atuou como redatora, coordenadora e editora em títulos tão diversos quanto Decoração e Estilo Casa by Olga Krell e Jornal Ação (CRESS-SP). Hoje, de volta às terras mineiras, atua profissionalmente no setor de ensino livre e no mercado criativo, e é publisher da revista independente Vida, Bicho, Casa, sobre animais de estimação, estilo de vida, bem-estar, casa e variedades.

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