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Imagina só!

A cidade que se quer viver — pra gente e pra bicho

Por Ana Paula Cappellano

Hoje não tem fala de fonte, nem dado, apuração. Tem o que tem na cabeça e no coração toda vez que venho aqui escrever sobre bichos e a cidade. Talvez imaginação. Mas imaginar é preciso pra qualquer coisa que se queira viver.

Então eu imagino uma vida em que eu saio pra passear com minha cachorra na hora do dia que mais nos convier. A rua é sempre segura pra nós, sempre limpa, com calçadas largas e acessíveis. O trânsito é tranquilo e motorista respeita velocidade, preferencial, semáforo e faixas de pedestre. São muitas delas. Sem riscos de atropelamento.

Também não levamos trombada de ninguém enquanto eu recolho o número dois dela. Todo mundo recolhe e não tem “cocô esquecido” do cachorro de algum mal-educado, nem de algum bicho abandonado ou perdido. O serviço da prefeitura, de fato, garante essa limpeza. O da minha, eu logo descarto porque tem lixeira pra todo canto. Tem até lixeira exclusiva pra sujeira dos bichos. Que “boniteza”, mais que isso, uma lindeza!

Não preciso me preocupar com animais soltos, dos que têm tutor, mas tutor que não tem noção, com a guia enrolada na mão, de enfeite. E tem muito espaço melhor, seguro e verde, pro bicho correr solto: nos inúmeros parques e praças, por todos os bairros, não faltam daqueles chamados “cachorródromos” ou “parcães”, com cercado e grama em dia. Caminhamos uns meros dez, quinze minutos e já chegamos na nossa pracinha predileta. Lugar da comunidade, do encontro, limpo, acolhedor, acessível, equipado com parcão – é óbvio. E com área igualmente pensada e bem construída pro passeio dos felinos. A bicharada se esbalda!

Tem árvore também. Muita árvore. Por todo o caminho e na praça. E onde tem árvore há pássaro e outros bichos que se abrigam e se protegem, e se divertem nela. A gente vê, escuta, respeita. E respira melhor, dá pra se refrescar na sombra no verão. Há muito bicho que a gente nem vê, na mata, no morro, porque ele tem tudo de que precisa por lá. A cidade entende seu limite e se levanta sem derrubar a casa dele. E em vez de só poste e concreto, as voltinhas pelo quarteirão oferecem muita folhagem, muitos troncos, canteiros, gramados. Fuças e patas agradecem satisfeitas e felizes.

Nos fins de semana, sempre nos aventuramos no Parque Municipal. É longe, por isso já nos programamos para os horários do “Busão Pet”, que leva passageiros humanos e animais. A cidade conta com uma frota específica pra atender às famílias multiespécies.

Se o passeio tem café, lanche ou almoço, já emendamos. Sobram opções pet-friendly. Sem cara feia quando eu entro acompanhada da canis. Tem espaço organizado pra nós, com conforto e segurança pra ela se acomodar tranquila sem ficar no caminho de outros clientes e funcionários. Não há incômodos. Na área externa, bem na entrada, encontramos sempre uma pia pra eu lavar as mãos, um cantinho pra ela fazer um xixi derradeiro e uma lixeira reservada pra descarte da sujeira. Eu não passo nem vergonha de entrar com um saquinho de cocô a tiracolo, nem aflição do funcionário pegar esse mesmo saquinho e já voltar pra me atender. Não há constrangimento. Há muita educação.

Direitos dos Animais, Proteção Animal, Sustentabilidade e Meio-Ambiente estão em todos os currículos de escolas, cursos técnicos, superiores e de formação continuada, nos espaços de atuação profissional, na iniciativa pública e privada. Nos bairros, agentes comunitários reforçam a agenda educativa com moradores. As leis são amplamente divulgadas, conhecidas, respeitadas, praticadas. Leis que protegem bichos e pessoas, que multam as infrações, que punem o maltrato e o abandono de animais. Tem fiscalização, tem lei na prática.

Conta de pet shop cabe no orçamento porque não há abuso. Tem concorrência justa e remédio que eu consigo comprar sem me sentir assaltada. Bicho nenhum fica sem assistência à saúde. Tem farmácia popular veterinária. E hospital público veterinário. Garanto o medicamento e a ração de qualidade e sobra pra comprar pros abrigos.

Que estão com vagas ociosas porque quase não tem bicho na rua! Não param de sair animais do Canil Municipal, das ONGs e dos projetos de proteção! Só gente boa, consciente, responsável e educada adota. Mas nos eventos de adoção, adotante que se demora muito dá meia-volta sozinho porque todo bicho ganha rápido uma casa e uma família definitiva. Os animais adotados quase nunca voltam pro abrigo ou pra rua.

A proteção animal é unida, articulada, equipada, financiada. É ouvida e levada a sério. É um segmento reconhecido e respeitado na cidade. Quem atua na proteção tem parceria, contas em dia, tem apoio, espaço, saúde. Não tem bate-boca.

Tem é o programa de castração gratuita que chega a todos os bairros, todo dia, o ano todo, assim como os de microchipagem e vacinação. O Banco de Ração da prefeitura é um sucesso e segue a todo vapor, entra mandato, sai mandato! Tem política pública forte pra ONG, pra protetor, tutor. Pros animais domésticos. Pros silvestres. Política pública de animais urbanos. Ninguém fica de fora!

Caíram no ostracismo os políticos que lembram da pauta animal justo na hora de se promoverem. Aqueles tantos oportunistas autointitulados protetores que apoiam a causa nas eleições e depois sofrem de amnésia. Influenciadores digitais que tratam os animais como conteúdo pra engajamento foram banidos, flagrados na sua ganância, no seu narcisismo disfarçado de empatia, na sua futilidade e na exploração da vida de quem merece atenção, amor e proteção de verdade, no mundo real.

E não tem ninguém achando este texto um devaneio. É tudo normal. Pensar no animal e querer pra ele e pra quem cuida dele o melhor que uma cidade e uma sociedade podem oferecer não é ingênuo. Não é estranho, nem acessório. Não é inútil. Não é preciso justificativa, nem convencimento. Uma cidade melhor pros bichos é um lugar melhor pra se viver. Imagina só! Sigo daqui e tomo de empréstimo aquela consagrada estrofe: talvez você diga que eu sou uma sonhadora, mas não sou a única*…

*Em “Imagine”, de John Lennon:“You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one”.

Ana Paula Cappellano

Ana Paula Cappellano

Ana é jornalista pela UFJF, mas foi em redações e agências na cidade de São Paulo que consolidou seu trabalho, desenvolvido ao longo de mais de 20 anos no campo editorial, em revistas e jornais das áreas de saúde, direitos sociais e humanos, e design de interiores. Na capital paulista, atuou como redatora, coordenadora e editora em títulos tão diversos quanto Decoração e Estilo Casa by Olga Krell e Jornal Ação (CRESS-SP). Hoje, de volta às terras mineiras, atua profissionalmente no setor de ensino livre e no mercado criativo, e é publisher da revista independente Vida, Bicho, Casa, sobre animais de estimação, estilo de vida, bem-estar, casa e variedades.

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