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Uma ponte para a vida nova

Lares temporários dão suporte a abrigos de cães e gatos e ajudam na recuperação da saúde dos animais, na adaptação à vida doméstica e no sucesso de adoções responsáveis

Por Ana Paula Cappellano

Na dinâmica da proteção animal nas cidades, especialmente com cães e gatos, do resgate à adoção, há uma atuação que merece mais atenção e protagonismo, a dos lares temporários — ou LTs. Esses espaços são fundamentais na cadeia da proteção, podendo oferecer, de acordo com a modalidade e estrutura, mais do que uma simples alternativa de hospedagem de animais aos abrigos e canis lotados.

Para um animal resgatado, ser recebido por cuidadores em suas casas, num ambiente doméstico, acolhedor, seguro e confortável, representa a oportunidade de restaurar a saúde mais rapidamente, amenizar traumas, aprender rotinas, a convivência com pessoas, com outros animais e, também, aprender afeto. Um animal bem recebido em lar temporário tem mais chances de uma adoção responsável bem-sucedida.

“Os lares temporários são essenciais porque ajudam a desafogar os abrigos e oferecem aos animais algo de que muitas vezes eles mais precisam após um resgate: calma, rotina e carinho. No abrigo dos cães vítimas das chuvas [de fevereiro deste ano], vimos como esse acolhimento faz diferença na recuperação física e emocional. Além disso, o lar temporário também ajuda futuros tutores a conhecerem melhor o animal, favorecendo adoções mais conscientes”, comenta Roberta Krepp, médica veterinária da Secretaria do Bem-Estar Animal de Juiz de Fora (SEBEAL-PJF).

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(Foto: Canva / por SeventyFour)

Alta demanda em Juiz de Fora

No município, projetos e ONGs em prol dos animais precisam sempre desse trabalho de apoio fundamental, mas enfrentam desafios para encontrar lares temporários de qualidade e suficientes para seus resgatados. “Muitas vezes, o lar temporário é nossa única opção para salvar um animal. Quando não temos mais como abrigar com conforto e segurança, o LT é a esperança de uma nova vida”, comenta Miriam Neder, presidente da Associação Amor Não Tem Raça, que está abrigando todos os seus animais em lares temporários, depois de ter perdido sua sede nas chuvas de fevereiro.

“A maioria está em LT pago, onde o responsável tem MEI de cuidador de animais, com estrutura profissional e, o mais importante, onde é tratada por pessoas que gostam do que fazem. Pagamos um valor por animal, ficamos responsáveis também pela ração, petiscos, medicação, brinquedos, veterinários e tudo o que precisarem. Uma vez por semana, passamos o dia com eles e estamos sempre por perto”, conta Miriam. Alguns animais estão em lares voluntários, para quem a organização fornece o necessário mas não há remuneração pela hospedagem.

Os LTs que dão suporte ao Canil Municipal de Juiz de Fora são todos voluntários. Segundo a SEBEAL, os lares temporários são uma colaboração voluntária de cidadãos que se dispõem, por um período de tempo, a dar um lar para os animais resgatados. Os voluntários se candidatam espontaneamente por meio das redes sociais oficiais da secretaria, os servidores da pasta realizam uma vistoria, fazem o acompanhamento dos cuidadores e há assistência dos veterinários do Canil Municipal. “É necessário, para LTs de cães, alimentação, tempo disponível e ambiente propício. No caso de gatos, todos esses quesitos e a casa telada”, informa a SEBEAL.

Chamados de “lares temporários solidários” pelo Ajude JF, esses são espaços mais raros de se encontrar na cidade, apesar da busca constante, como aponta Bianca Cardoso, uma das responsáveis pelo projeto. “O lar temporário solidário é o que sempre buscamos por considerarmos que não traz um custo mensal para o projeto, e conseguimos usar esse dinheiro ou para ajudar outros animais ou mais ainda aquele que resgatamos”, explica Bianca. Questões como o porte do animal e o tempo mais longo ou indeterminado de acolhimento estão entre as principais barreiras para a abertura de mais lares temporários voluntários, segundo a responsável do Ajude JF.

O projeto também conta com a parceria de LTs pagos, os mais comuns hoje, de acordo com Bianca, e organizados por pessoas que estruturam suas casas para receberem e cuidarem de um número maior de animais, incluindo, em alguns casos, a construção de canis e o treinamento para o manejo dos animais.

Desafios na busca por LTs

Na procura por LTs pagos, as dificuldades passam pela falta de profissionalismo e regulamentação, que dá vez à exploração financeira da causa e à criação de espaços inadequados, com número de animais maior do que o recomendado e sem oferecer o devido acolhimento.

“Precisamos muito de que as autoridades coloquem regras, como aquele lar temporário pode atuar, do que ele precisa para atuar de uma forma saudável, digna para os animais, a quantidade de animais que comporta, e precisa ter uma fiscalização”, defende Bianca Cardoso. “Já visitei alguns em que eu não teria coragem de deixar um animal e também já visitei outros muito bons. Acho que depende dos critérios de quem está deixando o animal no LT. Mas acredito que em alguns lares pagos faltam regulamentação, profissionalismo e amor”, complementa Miriam Neder.

Pagos ou voluntários, quando idôneos, estruturados adequadamente, bem selecionados e conduzidos, os lares temporários são grandes parceiros dos abrigos de cães e gatos de Juiz de Fora, mas carecem de fortalecimento, tanto com o apoio da iniciativa pública, por meio da regulamentação, fiscalização, criação de protocolos, cadastro e incentivo de políticas públicas, como da privada, com doações financeiras, de materiais, insumos ou mesmo com suporte profissional especializado.

No Ajude JF, Bianca diz que é da população que vem o maior apoio, por meio de doações e grupos de amadrinhamento e apadrinhamento que permitem a contratação de LTs pagos de confiança. “São pessoas que cuidam extremamente bem, com quem temos um contato mais direto, vamos até o local com mais frequência, conseguimos saber que os animais estão recebendo cuidados, e são lares temporários que entendem o limite em que podem ajudar e não recebem acima desse limite”, afirma Bianca.

Acolhimento, cura e esperança

Talvez não haja exatamente “o perfil ideal” para quem se propõe a atuar como LT, mas muita responsabilidade, conhecimento do manejo com o animal, rotina e espaço seguros e organizados são pré-requisitos básicos e indiscutíveis. Miriam Neder ainda enumera gostar de animais, é claro, e ter paciência.

“Independente do lar ser pago ou voluntário, a pessoa tem que gostar, ter paciência, muita responsabilidade e saber manejar. O local precisa oferecer conforto e segurança para o bichinho. Ele está ali de passagem, está sendo preparado para ser adotado e a pessoa precisa entender isso”, ressalta, sem deixar de lembrar dos casos em que o lar temporário passa a ser definitivo. Ela conta sobre as adoções, em um único mês, de uma gata, uma cadela e um cão da Amor Não Tem Raça que foram adotados pelas pessoas que os acolheram, inicialmente, como lares temporários. “E quando isso acontece, é maravilhoso!”, celebra.

Para Bianca Cardoso, entre as condições mais importantes para candidatos a lar temporário está a abertura para “entender o processo do animal”. “Entender que não vai ser rápido. Ter muita disposição, ser bem transparente com o projeto, estar disposta a abrir as portas da casa por longo tempo”, pontua, entre outros, a responsável do Ajude JF. O projeto disponibiliza cartilha sobre lar temporário solidário e formulário para interessados, em sua página no Instagram.

Lares temporários voluntários, ou solidários, também precisam ser fortalecidos, a partir, inclusive, do engajamento responsável da população, por meio, principalmente, e sempre, de educação, orientação e informação contínuas e de qualidade sobre esse tipo de atuação capaz de gerar impactos muito positivos na vida de animais resgatados. “O lar temporário é a forma mais próxima para que o animal entenda a realidade que o espera no futuro. É onde conseguimos cuidar, dar segurança, oferecer todos os cuidados de saúde ou os básicos. Oferecer amor, começar um processo de cura de algum trauma. É um espaço extremamente importante que pode mudar, de fato, a vida de um animal e dar a ele a chance de conseguir uma história nova”, conclui Bianca.

Ana Paula Cappellano

Ana Paula Cappellano

Ana é jornalista pela UFJF, mas foi em redações e agências na cidade de São Paulo que consolidou seu trabalho, desenvolvido ao longo de mais de 20 anos no campo editorial, em revistas e jornais das áreas de saúde, direitos sociais e humanos, e design de interiores. Na capital paulista, atuou como redatora, coordenadora e editora em títulos tão diversos quanto Decoração e Estilo Casa by Olga Krell e Jornal Ação (CRESS-SP). Hoje, de volta às terras mineiras, atua profissionalmente no setor de ensino livre e no mercado criativo, e é publisher da revista independente Vida, Bicho, Casa, sobre animais de estimação, estilo de vida, bem-estar, casa e variedades.

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