O Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje, é antes de tudo, um dia de luta, de reflexão e de reivindicação, principalmente para as mulheres idosas. Essa data precisa ultrapassar, ir além das homenagens simbólicas. As flores são sempre muito bem-vindas, mas, é preciso indagar: qual é, de fato, o papel social das mulheres idosas? Como elas são vistas, culturalmente? O que há realmente para comemorar? Muito pouco. Precisamos avançar.
As mulheres, e mais ainda, as mulheres idosas, são percebidas na sociedade brasileira, e em grande parte do mundo, com muitos estereótipos que as desqualificam, com preconceitos e com pouco reconhecimento. Essa visão é socialmente construída no nosso dia a dia e é politicamente sustentada nas nossas relações sociais. As mulheres idosas ocupam o ponto mais profundo da miopia social: são mulheres, velhas, pretas e pobres. Quatro marcas que compõem as “Marias, Marias” louvadas na belíssima canção de Milton Nascimento – “mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”. Minha mãe foi uma “Maria, Maria” entre tantas, que existem por esse mundo, de meu Deus!
Maria Lúcia. Criou os seus dois filhos. Deu amor e deu estudos. São essas “Marias, Marias”, verdadeiras guerreiras, lutadoras, sonhadoras, que fazem esse país e essa cidade. Porque numa sociedade como a nossa, que cultua a juventude, a produtividade e a aparência, envelhecer sendo mulher, significa perder valor simbólico(e real). Significa também, na mesma medida, perder espaço público e voz política, numa sociedade machista como a nossa.
O certo é que o envelhecimento humano, predominantemente vivido por mulheres idosas, não é prioridade orçamentária no planejamento urbano e nem é prioridade política de nenhum governo. Mesmo assim, essas mulheres idosas sustentam silenciosamente famílias inteiras. Com suas pensões e/ou aposentadorias garantem comida, aluguel e remédio para si e para os seus. Cuidam dos netos e netas. Organizam as casas. Mantêm as redes comunitárias vivas nos bairros. Ocupam os trabalhos voluntários nos ambientes religiosos.
Há muito, mesmo, que avançar, no estabelecimento de um tratamento de respeito e de valorização da importância da mulher. E a mulher idosa é a denúncia viva de um modelo de país, de cidade, de política, e de sociedade que descarta quem já não serve ao mercado. A mulher idosa não quer e não precisa de ter piedade. Nem favores. A mulher idosa reivindica direitos. Ela deseja circular, decidir, existir plenamente no território que ajudou a construir. Ter essa cidade como sendo dela. É justo que seja assim. Ela ajudou a construir. Entre o silêncio e a resistência, eu lhes desejo um feliz dia da mulher. Todos os dias. Apesar de…


