Cultura, memória e pertencimento

“Cultura, memória e pertencimento são atos de resistência contra o esquecimento”


Por Jose Anisio Pitico

24/05/2026 às 06h10

Uma cidade não é feita apenas de ruas, prédios e carros. Ela é feita, sobretudo, das memórias das pessoas que nela respiram. Cada bairro existente carrega seus casos. Cada calçada guarda passos que o tempo não apaga. Cultura é isso: a soma invisível dos afetos, das lembranças, dos gestos repetidos que dão identidade à uma comunidade.

A rua do quartel – do 10º BI – no Bairro Fábrica – é minha fonte eterna – onde jogava futebol com meu pai: “o Rivelino do asfalto”! Cultura é o que faz um território ser o lugar da gente.

As cidades modernas desaprenderam a escutar suas próprias memórias. Correm demais. Derrubam casas demais. Apagam histórias demais. E, em muitas das vezes, a especulação imobiliária joga no chão os guardiões de nossa memória coletiva: as
pessoas idosas. Para onde estamos indo?

É triste perceber que quando uma cidade não escuta os seus personagens mais velhos, ela rompe o diálogo com o tempo, que é o senhor da história. Como sabemos, não custa repetir aqui: uma cidade sem memória é uma cidade sem raízes. E não custa lembrar, também, que a pessoa idosa não é um arquivo morto. É biblioteca viva.

Portanto, negar espaço à presença da pessoa idosa na vida cultural da cidade é subtrair parte de sua identidade. O pertencimento
não nasce de campanhas publicitárias nem de belos slogans institucionais. Ele nasce quando nós reconhecemos no espaço urbano a nossa própria história. Uma cidade que almeja ser democrática não celebra apenas o novo. Ela honra continuidades. Deve proteger e preservar as memórias. Criar pontes sólidas entre as gerações humanas.

Cultura, memória e pertencimento são atos de resistência contra o esquecimento. E, por conseguinte, esquecer as pessoas idosas é esquecer quem somos. Talvez o maior desafio dos gestores atuais e dos próximos seja o de construírem cidades tecnologicamente avançadas, sem que elas se tornem emocionalmente vazias de encontros humanos.