Quem cuida das mães quando elas envelhecem?

“No meio desse furacão, no meio desse turbilhão, as mães envelhecem entre a resistência e a solidão”


Por Jose Anisio Pitico

10/05/2026 às 07h00

As mães não envelhecem de repente. Elas, às vezes, apresentam um cansaço que ninguém nota. Um passo mais curto, uma queixa aqui, outra ali. Passa batido. Ninguém se importa. E mesmo assim, elas seguem suas rotinas, como se o mundo dependesse delas e o(a)s filho(a)s também.

Fala-se muito em envelhecimento ativo. Mas, é ativo para quem? Poucos familiares, mais os filhos, estimulam as mães a saírem de casa, largarem a cozinha e viajarem. Há um silêncio que cresce ao redor delas. Não é o silêncio da paz. É o silêncio do esquecimento. Da ausência. Quem sustenta as suas fragilidades? Quem faz companhia para a solidão delas? Quem pergunta o que querem? O amor quando não se transforma em cuidado concreto, real, vira ausência bem intencionada; “se der, eu passo lá, no fim de semana”.

As mães, nos versos do poeta, deveriam ser eternas. Mas, não são. Elas são finitas. Humanas. Atravessadas pelo tempo, assim,
como todos nós. Mas o envelhecimento delas não pode ser um lugar de abandono suave, consentido, socialmente. Precisamos assumir, que da nossa parte, como filhas e filhos, na maioria das vezes, falta-nos a escuta. Falta-nos dar presença, estar mais presentes. Tem sobrado em nós silêncio em relação a elas. Ausência, mesmo. Vamos reconhecer que estamos falhando com aquelas mulheres (mães) que nunca falharam com a gente.

Não tenho mais fisicamente a minha mãe. Cuidei dela. Cuidamos. Apresento essa reflexão no dia de hoje, caros leitores e leitoras: quem cuida das mães já idosas? Quem cuidará quando elas envelhecerem? As respostas, com frequência, revelam um vazio. As famílias estão sobrecarregadas com contas e mais contas para pagar. Mulheres idosas cuidando de outras mulheres mais idosas ainda. O Estado parou na sua ausência de atenção política e na falta de implementação de políticas públicas. A cidade fica indiferente, apesar do numero cada vez maior de pessoas idosas no seu dia a dia.

No meio desse furacão, no meio desse turbilhão, as mães envelhecem entre a resistência e a solidão. A sociedade, de um modo geral, romantiza o papel eterno das mães – como no poema, de Coelho Neto – “ser mãe é padecer no paraíso”. Convenhamos. O amor familiar/da mãe não resolve tudo. E isso não é amor; é exploração, absurdo, falta de respeito. O amor não substitui a
necessidade de proteção social às famílias através de políticas específicas. O amor não sustenta velhices dignas sozinho. Romper esse silêncio, essa hipocrisia é um ato político. Necessário. As mães não podem continuar sustentando o mundo, enquanto o mundo se ausenta delas.

Esta coluna de hoje é dedicada à memória de Maria Lúcia Mendes da Silva. Minha mãe e do Jeter. Feliz Dia das Mães!