Quem cuida das mães quando elas envelhecem?
“No meio desse furacão, no meio desse turbilhão, as mães envelhecem entre a resistência e a solidão”
As mães não envelhecem de repente. Elas, às vezes, apresentam um cansaço que ninguém nota. Um passo mais curto, uma queixa aqui, outra ali. Passa batido. Ninguém se importa. E mesmo assim, elas seguem suas rotinas, como se o mundo dependesse delas e o(a)s filho(a)s também.
Fala-se muito em envelhecimento ativo. Mas, é ativo para quem? Poucos familiares, mais os filhos, estimulam as mães a saírem de casa, largarem a cozinha e viajarem. Há um silêncio que cresce ao redor delas. Não é o silêncio da paz. É o silêncio do esquecimento. Da ausência. Quem sustenta as suas fragilidades? Quem faz companhia para a solidão delas? Quem pergunta o que querem? O amor quando não se transforma em cuidado concreto, real, vira ausência bem intencionada; “se der, eu passo lá, no fim de semana”.
As mães, nos versos do poeta, deveriam ser eternas. Mas, não são. Elas são finitas. Humanas. Atravessadas pelo tempo, assim,
como todos nós. Mas o envelhecimento delas não pode ser um lugar de abandono suave, consentido, socialmente. Precisamos assumir, que da nossa parte, como filhas e filhos, na maioria das vezes, falta-nos a escuta. Falta-nos dar presença, estar mais presentes. Tem sobrado em nós silêncio em relação a elas. Ausência, mesmo. Vamos reconhecer que estamos falhando com aquelas mulheres (mães) que nunca falharam com a gente.
Não tenho mais fisicamente a minha mãe. Cuidei dela. Cuidamos. Apresento essa reflexão no dia de hoje, caros leitores e leitoras: quem cuida das mães já idosas? Quem cuidará quando elas envelhecerem? As respostas, com frequência, revelam um vazio. As famílias estão sobrecarregadas com contas e mais contas para pagar. Mulheres idosas cuidando de outras mulheres mais idosas ainda. O Estado parou na sua ausência de atenção política e na falta de implementação de políticas públicas. A cidade fica indiferente, apesar do numero cada vez maior de pessoas idosas no seu dia a dia.
No meio desse furacão, no meio desse turbilhão, as mães envelhecem entre a resistência e a solidão. A sociedade, de um modo geral, romantiza o papel eterno das mães – como no poema, de Coelho Neto – “ser mãe é padecer no paraíso”. Convenhamos. O amor familiar/da mãe não resolve tudo. E isso não é amor; é exploração, absurdo, falta de respeito. O amor não substitui a
necessidade de proteção social às famílias através de políticas específicas. O amor não sustenta velhices dignas sozinho. Romper esse silêncio, essa hipocrisia é um ato político. Necessário. As mães não podem continuar sustentando o mundo, enquanto o mundo se ausenta delas.
Esta coluna de hoje é dedicada à memória de Maria Lúcia Mendes da Silva. Minha mãe e do Jeter. Feliz Dia das Mães!









