Dívidas em atraso atingem mais de 230 mil em Juiz de Fora
Serasa identifica alta de quase 30% no valor total dos débitos

Quase metade da população de Juiz de Fora começou 2026 com contas em atraso. Segundo dados do Serasa, o município fechou o primeiro trimestre do ano com 238.582 pessoas inadimplentes, o equivalente a 44,12% dos 540.756 moradores registrados pelo Censo 2022 do IBGE. O número representa 15.001 devedores a mais do que no mesmo período de 2025, quando 223.581 juiz-foranos estavam nessa situação. O valor total das dívidas também aumentou: passou de cerca de R$1,30 bilhão para R$1,68 bilhão, alta de 28,99%. Na prática, são aproximadamente R$378 milhões a mais em débitos no município.
O professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernando Perobelli, avalia que o nível de endividamento preocupa porque compromete uma parte importante da renda da população. Considerando a renda per capita de Juiz de Fora, de R$ 1.984, conforme o último Censo, o peso médio das dívidas ficaria em torno de R$ 589. Para ele, quando esse valor se soma a despesas básicas, como alimentação, transporte, aluguel e contas de luz e água, o orçamento fica difícil de sustentar. O economista também alerta que, quando a pessoa não consegue pagar e empurra a dívida para frente, o valor devido tende a crescer por causa dos juros.
Inadimplência também pesa em Minas e no Brasil
Perobelli destaca que, embora o índice de inadimplência seja alto em Juiz de Fora, o problema não é isolado. O endividamento também aparece com força em Minas Gerais e no Brasil. Em março, o estado registrou 7.871.386 pessoas inadimplentes e 30.129.307 dívidas, que somavam R$ 52,65 bilhões. No país, eram 82.832.491 inadimplentes e 338.265.194 dívidas, com valor total de R$ 557,33 bilhões.
O crescimento acontece em um momento em que as famílias estão com uma parte cada vez maior da renda comprometida. Em fevereiro de 2026, o Banco Central registrou o maior nível de endividamento familiar desde o início da série histórica, em 2005: 49,9% da renda estava comprometida. O levantamento também mostrou que 29,7% da renda das pessoas físicas era destinada ao pagamento de dívidas.
Entre os inadimplentes, a maior concentração está na faixa etária de 41 a 60 anos. Em Minas Gerais, esse grupo representou entre 35,10% e 35,30% do total de pessoas com despesas em atraso entre janeiro e março de 2026. No Brasil, a mesma faixa etária também liderou a inadimplência no período, com participação entre 35,50% e 35,60%.
Renda menor aumenta peso da dívida
Para Perobelli, comparar Juiz de Fora com outras cidades de Minas exige olhar também para a renda da população. Ele lembra que o município ocupa a nona posição em renda per capita no estado, com R$ 1.984. O valor é próximo ao de Uberlândia, onde a renda per capita é de R$ 2.080, e ao de Contagem, com R$ 1.663.
Na prática, isso ajuda a explicar por que o tamanho das dívidas e o número de pessoas inadimplentes mudam de uma cidade para outra. Onde a renda é menor, qualquer conta atrasada pesa mais. Uma dívida que parece pequena no papel pode comprometer o mercado do mês, o pagamento do aluguel ou uma conta de luz.
O economista observa que esse peso é ainda maior entre as famílias de baixa renda. No Brasil, 48% dos inadimplentes ganham até um salário mínimo, enquanto 30% recebem até dois mínimos. Para esse grupo, muitas vezes não se trata de falta de planejamento, mas de uma conta que não fecha: o dinheiro entra, mas não cobre tudo o que precisa ser pago.
Por isso, segundo o economista, as diferenças no valor médio das dívidas não estão ligadas apenas ao perfil do mercado de trabalho de cada cidade, como a presença de servidores públicos ou trabalhadores do comércio. Elas refletem, principalmente, a desigualdade econômica entre os municípios e a dificuldade de manter as contas em dia quando a renda é baixa.
Juros altos e apostas on-line
Nesse cenário, o aumento das dívidas tem três motores principais, segundo o economista: juros altos, crédito mais fácil e crescimento das apostas on-line, conhecidas como bets. Esses fatores aparecem de formas diferentes no dia a dia, mas levam ao mesmo resultado: o débito fica mais caro, cresce mais rápido e se torna mais difícil de pagar.
O cartão de crédito rotativo é um dos exemplos mais claros desse peso. Em março, os juros dessa modalidade chegaram a 428,3% ao ano, segundo o Banco Central. No mesmo mês, a taxa média de juros cobrada pelos bancos na concessão de crédito foi de 33,1% ao ano, a maior desde o início da série histórica, em 2011. Na prática, isso significa que os juros do rotativo eram quase 13 vezes maiores que a média geral do crédito no país.
Além de caro, esse tipo de crédito continuou sendo usado por muitas pessoas. A concessão de crédito no rotativo somou R$ 109,7 bilhões nos três primeiros meses de 2026, contra R$ 99,9 bilhões no mesmo período de 2025. A alta foi de 9,7%. O dado mostra que não apenas o saldo das dívidas cresceu, mas também o uso de uma das linhas de crédito mais caras disponíveis para o consumidor.
As apostas on-line também entram nessa conta. Em março, os gastos com bets passaram de R$ 30 bilhões por mês, segundo a Confederação Nacional do Comércio. O valor se aproxima da receita mensal de todo o setor de planos de saúde privada no Brasil, que somou R$ 391,6 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de R$ 32,6 bilhões por mês. O Procon-SP também aponta que 39,7% dos apostadores se endividaram depois de começar a usar as plataformas.
Bancos e cartões lideram débitos pendentes
Na hora em que a conta aperta, os bancos e os cartões de crédito aparecem como os principais responsáveis pelas dívidas. Eles concentram 26,55% dos débitos em Minas Gerais e 27,30% na média nacional. Depois vêm as contas básicas, como água, luz e gás, que representam 21,28% das dívidas no estado e 21,08% no país.
As securitizadoras ocupam a terceira posição. Essas empresas compram dívidas antigas de outras instituições e passam a fazer a cobrança. Elas respondem por 19,15% dos registros em Minas Gerais e 20,26% no Brasil.
Outros setores também aparecem no levantamento. Os serviços financeiros representam pouco mais de 11,50% das dívidas nos dois recortes. Já o varejo tem participação maior na média nacional, com 8,01%, do que em Minas Gerais, com 6,26%. Por outro lado, as dívidas com telecomunicações pesam mais no estado, com 6,82%. Já no país, representam 4,56%.
Para Perobelli, o avanço das dívidas passa tanto pela falta de educação financeira quanto pelo peso dos juros. Ele avalia que muitos brasileiros não aprendem a lidar com o próprio dinheiro e, quando a dívida cresce demais, acabam sem saída simples. “A educação financeira ainda é quase nula entre os brasileiros. Entender como a economia afeta a vida das pessoas é uma necessidade básica para administrar as contas do dia a dia. Mas, para quem já está muito endividado, muitas vezes não há saída a não ser empurrar a dívida para frente. E isso tem um preço: os juros. Por isso, a renegociação pode ser um caminho, principalmente com orientação de alguém que entenda de finanças.”
Novo Desenrola abre caminho para renegociação
Em meio ao aumento do endividamento no país, o Governo federal lançou, no início do mês, o Novo Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas de famílias, estudantes e empresas. A proposta é oferecer descontos, juros menores e mais prazo para quem está com contas em atraso e tenta reorganizar o orçamento. Segundo o Ministério da Fazenda, o programa terá duração prevista de 90 dias.
No caso das famílias, podem participar pessoas com renda de até cinco salários mínimos, o equivalente a R$ 8.105. A renegociação vale para dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estejam atrasadas entre 90 dias e dois anos.
As condições incluem desconto de até 90% sobre dívidas antigas, juros de até 1,99% ao mês, prazo de até 48 meses para pagar e 35 dias para o vencimento da primeira parcela. O programa também permite o uso de 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), ou até R$ 1 mil, o que for maior, para quitar parte ou todo o débito.
Quem quiser aderir deve procurar diretamente o banco ou a instituição financeira onde tem a dívida. O novo crédito terá limite de R$ 15 mil por pessoa, por banco ou instituição financeira. Pessoas com dívidas de até R$ 100 terão o nome retirado dos cadastros de inadimplência, conforme as regras do programa.
Além das famílias, o Novo Desenrola também inclui frentes voltadas a estudantes com dívidas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), micro e pequenas empresas e produtores rurais. A primeira fase reúne ações como o Desenrola Famílias, o Desenrola Fies e o Desenrola Empresas.
Risco de reendividamento exige atenção
Para Perobelli, o Novo Desenrola Brasil tem pontos positivos, mas também exige atenção. Entre os aspectos favoráveis, ele cita a possibilidade de uso do FGTS, os novos descontos e a oferta de crédito mais barato, com juros menores. Na avaliação do economista, essas medidas podem dar um alívio imediato ao orçamento das famílias endividadas e, com isso, abrir espaço para a retomada do consumo. O programa também pode ajudar pequenos negócios.
Apesar disso, o economista pondera que a iniciativa atua mais no curto prazo e não resolve, sozinha, os problemas que estão na origem do endividamento no país. Para ele, renda baixa, inflação e juros elevados continuam pesando no orçamento das famílias. O economista avalia ainda que o programa pode ter impacto eleitoral, especialmente por oferecer uma resposta rápida a um problema que atinge milhões de brasileiros
Outro ponto de atenção, segundo Perobelli, é o risco de reendividamento. Isso pode acontecer quando a pessoa renegocia a dívida, mas continua sem renda suficiente para pagar as despesas básicas. Sem uma mudança mais profunda nas condições de renda, custo de vida e juros, a família pode limpar o nome agora e voltar a se endividar depois.
Ele também chama atenção para um possível efeito no mercado de crédito. A expectativa de novos programas de renegociação pode levar parte dos devedores a adiar o pagamento das dívidas, à espera de condições melhores no futuro. Na avaliação do economista, isso pode gerar insegurança para bancos e instituições financeiras.









