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Ledo engano

Por Júlia Pessôa

14/04/2019 às 07h00 - Atualizada 12/04/2019 às 15h43

Quando eu era adolescente, no auge das paixonites da juventude e da minha inoperância para flertar, eu me lembro de ligar para a casa do menino que eu gostava, e, morrendo de vergonha e covardia, dizer que era engano e desligar. Mas era engano coisíssima nenhuma. Era a época do telefone fixo ainda, possivelmente com fio. Anos mais tarde, pelo mesmo motivo, na época dos mensageiros instantâneos da web, já na era da moderníssima internet discada, confesso ter mandado algumas mensagens seguidas do pretexto de “opa, mensagem errada” por não ter coragem de me engajar em uma conversa real com o então alvo (quase nunca acertado) da minha fracassada tentativa de paquera. Na minha juventude, todos os enganos que eu tentava justificar demais eram um engodo para minha pueril – mas não menos covarde- covardia emocional.

De fato, a gente se engana. Outro dia, toda produzidinha, com a minha melhor cara de profissional, cheguei à Faculdade da Comunicação da UFJF para dar uma palestra. O evento era só no dia seguinte. Aí foi engano mesmo. Tantas outras vezes me enganei na vida: chamei as pessoas pelo nome errado, dei parabéns atrasados (ou adiantados) por aniversários que eram em outros dias, já cheguei ao jornal em dias em que estava de folga, já pulei debaixo do chuveiro achando estar atrasada para o trabalho em pleno domingo, já me encantei por pessoas que, à primeira vista, achei que não iria me dar bem. Enganos acontecem a toda hora, e nem sempre ou necessariamente eles precisam ser ruins.

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Nós, mulheres, por exemplo, passamos a vida ouvindo que temos que nos comportar de tal e tal forma, porque “é assim que mulher age”. Também nos dizem que mulher não é amiga de mulher. Que não ter filho é egoísmo. Que nossos corpos não são (nunca!) suficientes: têm sempre carne demais ou de menos; maquiagem em excesso ou ‘passa um batonzinho, tá com cara de doente’; pelos onde não deveriam estar; falta de cabelos (ou de comprimento deles) quando eles deveriam ser longos e sedosos; exposição ou resguardo demais. Enganam a gente uma vida toda como se a gente fosse menos mulher por escolher viver ousando desafiar essas amarras. Espertas que somos, acabamos, cedo ou tarde ( cada uma no seu tempo), descobrindo a balela. E, depois de tanto engano socado goela abaixo, nos libertamos.

Fomos, somos e seremos enganados muitas vezes ainda ao longo da vida, é inevitável, porque não dá para contar com o caráter e a boa-fé alheia a todo tempo. Mas mesmo o mais inocente dos seres humanos enxerga uma mentira deslavada, sobretudo quando ela é esfregada na cara. Oitenta tiros não são engano, são extermínio. E tantas histórias repetidas não são coincidência, são genocídio. “Matando uns 30 mil (…) Se vai (sic) morrer alguns inocentes, tudo bem”. Quando dizimar vidas é uma estratégia, qualquer esperança de avanço como país, e como humanidade, aí sim, é ledo engano.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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