Tópicos em alta: delivery jf / eleições 2020 / coronavírus / greve / polícia

Todos queremos saber por quê?

Por Marcos Araújo

27/08/2020 às 09h42 - Atualizada 27/08/2020 às 09h42

Quando o mandatário do mais alto cargo executivo de um país manda um jornalista calar sua boca, porque, do contrário, irá “encher sua boca de porrada”, ele não quer calar apenas o jornalismo, mas também toda uma nação, porque não entende que faz parte do jogo democrático o dever de responder ao povo indagações a respeito de condutas que coloca sua figura pública em xeque. Principalmente, se essa pergunta é realizada de maneira legítima por um profissional durante o exercício da profissão.

Se tais questionamentos são capazes de irritá-lo a ponto de levá-lo a fazer ameaças de agressão física contra quem pergunta, que não entrasse para a vida pública, que não almejasse ocupar um cargo na presidência, que chama para si uma grande concentração de holofotes e que requer uma postura incorruptível. Que ficasse onde esteve por trinta anos, gozando das benesses que tinha, mas sem se preocupar em ser produtivo.

Quando o mandatário do mais alto cargo executivo de um país manda um jornalista calar sua boca, porque, do contrário, irá “encher sua boca de porrada”, ele também não dá a mínima para 57 milhões, 797 mil e 847 pessoas que o elegeram, acreditando que depositaram seu voto em alguém que iria respeitá-los e representá-los em um cargo no qual ameaças de agressão física são inadmissíveis para sua liturgia.

O conteúdo continua após o anúncio

Logo que repercutiu, a ameaça contra a indagação do jornalista causou uma grande reação nas redes sociais. Imediatamente, pessoas de todas as matizes ideológicas passaram a replicar na internet a mesma pergunta feita pelo repórter vítima da ameaça. Essa repercussão negativa serve também para mostrar que imensa parcela da sociedade não coaduna com esse tipo de conduta e quer, sim, ter respostas para malfeitos que podem significar prejuízos para a administração pública.

Ao longo de muitos anos, a história já mostrou que governantes que posam de braço dado com o autoritarismo sentem aversão aos meios de comunicação e ao jornalismo que é realizado de maneira livre. No poder, eles não medem esforços para liquidar com a atuação de jornalistas. Sabem que faz parte do métier do bom jornalismo trazer à tona informações que se querem escondidas. Existe um consenso de que, no jornalismo, perguntas desagradáveis, quando realizadas às instituições poderosas, em um ambiente democrático, não são desagradáveis, mas, sim, uma obrigação, assim como também é obrigação dessas instituições respondê-las, porque é preciso prestar contas.

Decoro é uma palavra importante quando se pensa em Constituição, que é a base de uma sociedade que se enxerga livre. Quando o jornalismo tem sua liberdade intimidada, a Constituição é a primeira a ser abalada. Nos últimos tempos, exemplos de que esses limites têm sido ultrapassados não faltam, o que é inadmissível, principalmente, quando vêm de quem deveria zelar pelas leis do país. A atuação da imprensa é fundamental para um povo que quer viver em democracia, por isso são inaceitáveis as ameaças e ainda mais as de agressões físicas.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia