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Não estamos mexendo com fogo, mas com gelo

Por Marcos Araújo

12/08/2021 às 07h05 - Atualizada 11/08/2021 às 17h48

Passou da hora de a humanidade entender que já não estamos mais mexendo com fogo e sim com gelo. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que, enquanto existe a preocupação de desbravar novas fronteiras no espaço, com turistas viajando para além da borda terrestre, a temperatura na Terra, nossa casa, pode superar, nos anos da década de 2030, a marca de 1,5°C. Com isso, as geleiras vão continuar a perder massa por várias décadas, mesmo que a temperatura global esteja estabilizada. Segundo aponta o painel, existe uma alta possibilidade de que tanto a Groenlândia quanto as placas de gelo da Antártida continuem derretendo ao longo deste século, e eventos extremos, mais conhecidos como desastres naturais, serão mais frequentes e intensos.

Diante desse cenário nada promissor, o que estamos acostumados a assistir nos filmes de ficção científica pós-apocalípticos pode virar realidade bem antes do que imaginávamos. Os cientistas apontam que, em razão do aceleramento das mudanças climáticas, veremos, nos próximos anos, o aumento da fome, do êxodo, dos conflitos e da queda da atividade econômica, resultando em uma grande crise social. Nossa presença no planeta viverá uma nova era, muito mais hostil, algo próximo ao enredo do filme Mad Max, com a humanidade reduzida a tribos e disputando água e combustível.

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Deixando à parte a metáfora cinematográfica, esses cenários catastróficos, que já começam a se fazer presente na nossa realidade, são algumas das projeções de cientistas preocupados com a mudança climática, caso não haja uma transformação radical de políticas públicas e estruturais da economia. Esses homens da ciência ainda alertam para a situação de que não estamos todos no mesmo barco e, como adverte a ONU, existe um apartheid climático, o que significa que os que mais vão sofrer com a transformação do clima são os mais pobres, os mais desamparados, que não têm condições de enfrentar os efeitos que estão por vir se não houver uma mudança de rota na gestão de nossas políticas para o bem do meio ambiente. A crise climática, como apontam os especialistas, perpassa questões de raça, gênero e classe. E, dessa forma, nenhuma novidade, os negros, as mulheres, os indígenas e os mais pobres são os que mais vão sofrer.

No caso da Amazônia, tema que deveria mexer com os brios dos brasileiros, o painel informa que a floresta está entre os pontos do planeta que poderão caminhar para um “ponto de ruptura”. Segundo informe do IPCC, “a floresta amazônica como um repositório de biodiversidade está ameaçada pela relação entre as mudanças no uso da terra e as mudanças climáticas, que poderia levar a uma transformação ecológica em larga escala e a mudanças biológicas a partir de uma floresta úmida em floresta seca e pastagens, reduzindo a produtividade e o armazenamento de carbono”.

Está claro que as previsões da ciência estão muito perto de deixarem de ser simplesmente previsões. A onda de calor extremo no Canadá, intensos temporais com inundações e deslizamentos de terra na Europa, inundação fora de época em Veneza e aumento das emissões dos gases do efeito estufa no Brasil são provas de que essa realidade já nos castiga. É o planeta gritando por socorro. Nós, enquanto humanidade, que tem a Terra como nossa única morada, precisamos escapar do negacionismo e pensar, de forma coletiva, que é inadiável nos transformarmos em novos seres humanos para que tenhamos a chance de um futuro possível.

Marcos Araújo

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