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Desabafo de quarentena

Por Marcos Araújo

07/05/2020 às 07h00 - Atualizada 06/05/2020 às 19h36

Que país é esse onde milhares de valas são abertas para enterrar seus mortos, enquanto seu presidente pratica tiro ao alvo? Que país é esse em que jornalistas são mandados a calar a boca em pleno exercício da função? Que país é esse em que suas instituições são desrespeitadas constantemente e sua democracia é colocada em risco por quem deveria defendê-la? Que país é esse onde os que se dizem patriotas levantam a bandeira americana?

Que país é esse em que enfermeiros, que colocam a própria vida em risco para cuidar de pacientes da Covid-19, são agredidos por funcionário que trabalhava Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos? Que país é esse em que o ministro da educação desconhece as regras de português e trata professores como inimigos?

Que país é esse que desafia cientistas e se coloca contra a Organização Mundial de Saúde (OMS) em meio a uma pandemia planetária? Que país é esse em que expoentes da nossa arte nos deixam e não há sequer uma nota de lamento por parte da Secretaria Especial de Cultura?

Que país é esse em que seus contribuintes morrem nos corredores dos hospitais à espera de um leito, e o Sistema Único de Saúde é execrado por quem mais precisa dele? Que país é esse em que a carência de conhecimento sobre política da população transforma-se em defesas exaltadas de um discurso em que o brasileiro acata a si próprio e veste o uniforme do time adversário?

Que país é esse em que no dia em que o Brasil supera a China, origem da pandemia, no número de mortes confirmadas por coronavírus, o seu governante afirma “E daí”? Que país é esse em que uma deputada ajuda a disseminar a falsa notícia de que caixões estariam sendo enterrados vazios, contribuindo para aumentar a propagação do vírus e faltando com respeito a familiares que estão sepultando seus entes mortos pela Covid?

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Que país é esse em que existe um trabalho político, agindo nas sombras, promovendo boataria, ludibriando pessoas contra prefeitos e governadores que adotaram a quarentena e o fechamento do comércio, única maneira até agora conhecida de barrar a evolução da pandemia?

Que país é esse em que as pessoas que não trabalham e desfrutam do distanciamento social em casas de campo exigem a volta ao trabalho dos mais pobres, e esses mais pobres que eles querem trabalhando são os milhões de desempregados que fazem bicos nas ruas e aquelas que recebem salários indignos nas casas bem mobiliadas de patroas chiques?

Que país é esse em que um velho e renomado ator em sua carta de morte diz : “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora… Num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças…”?

Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse? Quantas vezes mais teremos que perguntar até que haja uma resposta, mas uma que não seja apenas retórica, que seja imbuída da prática, da ação do bem, mas não esse bem de falácia, e, sim, impregnado de humanidade, dignidade, liberdade, que seja capaz de transformar nosso cotidiano e, consequentemente, a sociedade, porque do jeito que está não dá mais.

É preciso mudar já, urgentemente, desesperadamente, para que as próximas gerações também não tenham que questionar que país é esse, pelo menos não pelos mesmos motivos, e para que nossos corações possam voltar a bater de forma serena!

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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