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Livro infantojuvenil aborda tragédia de Mariana pelos olhos de uma adolescente

Por Marisa Loures

06/03/2018 às 07h00 - Atualizada 05/03/2018 às 17h14

Ana Rapha Nunes é autora de “Mariana”, obra infantojuvenil que já está na sexta edição – Foto Divulgação

Nascida no Rio de Janeiro, Ana Rapha Nunes foi morar ainda criança em Curitiba. Lá cresceu e, com ela, o desejo de ser escritora. Tornou-se professora de Língua Portuguesa. Foi em 2015 que o sonho de ser autora de livros fez-se real. Era dia 4 de novembro daquele ano. Na noite de autógrafos, muitas pessoas aguardando para levar “A lua que eu te dei”(Editora Appris, 102 páginas) para casa. Relação com Minas Gerais, Ana Rapha não possuía. Até aquele momento.

“Eu estava muito feliz, e, no dia seguinte, aconteceu a tragédia. Aquilo mexeu muito comigo. Sabe quando você está muito feliz e acontece algo muito ruim, que pode não te atingir diretamente, mas que você para para pensar um pouco? ‘Puxa vida, estou aqui tão feliz e tanta gente ali sofrendo’. Aí eu pensei: ‘Eu poderia levar esta história adiante para as crianças, para os adolescentes. Como ontem eu realizei o sonho de lançar meu primeiro livro, por que não transformar esse acontecimento numa história e não deixar que ele simplesmente seja esquecido? Levá-lo para ser discutido, refletido e evitar outros desastres como esse?”, conta a escritora que, imediatamente, idealizou “Mariana” (Inverso, 110 páginas). O livro foi lançado no início de 2016, mas repercute até hoje, sendo adotado por escolas dos quatro cantos do país. Já chegou à sexta edição e é lido por leitores na Alemanha, Inglaterra e Suíça.

“Mariana” apresenta para o público infantojuvenil o desastre ambiental, considerado o maior e sem precedentes no Brasil, que arruinou não só a natureza, mas a vida de milhares de famílias, através do olhar de uma garota de apenas 12 anos. Mariana, também nome da protagonista dessa história, é uma menina que se vê em meio a várias mudanças, entre elas a entrada na adolescência. O livro começa com a garota recebendo a notícia de que vai precisar deixar a pequena Timóteo (MG) para trás para viver em outra cidade, porque seu pai conseguiu um novo emprego. Depois de alguns meses vivendo na nova localidade, ela e a família são vítimas da tragédia. “É uma história que fala, sobretudo, de mudança, superação e transformação”, enfatiza.

Na vida real, no dia 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu e despejou 35 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos de mineração no rio Doce, devastando Bento Rodrigues, distrito de Mariana, e matando 19 pessoas e 11 toneladas de peixes. Quase 40 municípios foram afetados e 80 quilômetros quadrados de mar, no Espírito Santo, foram contaminados.

Dedicação à literatura

Ana Rapha também é autora de “Lucas o garoto gamer” (Inverso, 112 páginas), no qual trabalha o vício em tecnologias, separação dos pais e dificuldades escolares; e “A noite chegou… e o sono não vem” (Franco Editora,12 páginas), em que os temas abordados são a imaginação infantil, a importância das histórias, o momento de dormir e o afeto entre pais e filhos. Com “A lua que eu te dei”, sua estreia na literatura, ela aborda o bullying, amizades, relações familiares e descobertas da infância. Qualquer uma das obras podem ser encontradas em sites, como Amazon e Americanas, e nas páginas das editoras. Quem quiser um exemplar personalizado, com marcador de páginas, autógrafo e dedicatória, pode entrar em contato, diretamente, com a escritora, através do Facebook, ou via e-mail: [email protected]. Hoje, Ana Rapha não mais trabalha como professora. Segue, dedicando-se, exclusivamente, à literatura.

 Marisa Loures – Mariana é uma história que fala de perda, mas há superação. Sua meta era mostrar que ainda existe esperança em meio à tragédia?

Ana Rapha Nunes – Era um dos objetivos sim, porque a gente não pode perder a esperança, apesar de o ocorrido ter sido lastimável. Foi muito triste, acometeu muitas famílias, teve muitas vítimas. Mas, mostrar um outro lado de superação, até porque, como o livro é infantojuvenil, queria trazer essa mensagem de que coisas ruins, infelizmente, acontecem, mas há também uma maneira de enxergar que as coisas podem melhorar. A gente perde, às vezes, de um lado na vida, mas ganha do outro. Mostrar que a gente não pode perder a esperança.

– Foi preciso muita pesquisa para escrever o livro. Quais fatos aconteceram de verdade e que foram levados para “Mariana”?

– Muita gente me pergunta: a Mariana é real? Não. A história da Mariana e da família dela é totalmente ficcional. Mas sobre o momento da tragédia, ali tem muitos fatos que foram pesquisados. Entrei em contato com pessoas via internet. Eu li a respeito. Uma cena que me deixou muito sensibilizada e que eu coloquei no livro é quando uma menina está fugindo com a mãe da lama, volta para pegar o cachorro e, por pouco, não é levada pela enxurrada. Os fatos que constam na parte da tragédia, a pilha de sapatos que eles recebem de doação, as doações que vão chegando e rapidamente vão sendo utilizadas. Esses fatos foram pesquisados e realmente aconteceram.

O que foi mais difícil durante o processo: deparar-se com a dura realidade do povo de Mariana e levá-la para o papel ou dar conta da ficção?

– A parte de pesquisar e entrar em contato. É muito emocionante, mexe muito com a gente. Sou uma pessoa bastante sensível. Ouvir determinados relatos, receber determinados dados e trabalhar aquilo depois no texto de forma a não pesar a mão – porque é para criança e adolescente -, não ficar um texto extremamente emotivo e não errar a mão de não colocar determinados pontos que precisam ser colocados, é mais difícil. A ficção foi tranquilo, porque eu já tinha feito outros textos antes.

Quando o livro foi escrito, você não sabia como nem quando essa tragédia iria terminar. E ela deixou marcas não só na natureza, mas nas pessoas também. Os personagens do seu livro terminam repletos de esperança de que dias melhores virão. Esse desfecho é totalmente fictício ou você ouviu isso de moradores de Mariana?

– Ouvi dois relatos em geral. Alguns que até desistiram de Mariana, saíram de lá, tentando uma nova vida, mas, mal ou bem, com esperança de outra vida em outro lugar. E outros que ainda estão acreditando que a cidade vai se recuperar, que vão voltar os turistas e que vão receber as indenizações. Então, há dois lados. Como já falei, como é um livro infantojuvenil, quis reforçar a esperança de que coisas melhores acontecerão, de que a cidade vai ser reconstruída. Na época em que eu escrevi, ainda era tudo muito recente. O livro ficou pronto logo no início de 2016, antes dos seis meses da tragédia. Muita gente me pergunta se não poderia ter um “Mariana 2”, contando como foi depois, o que aconteceu, falando sobre a reconstrução da cidade e a questão de as famílias estarem esperando ainda. Por enquanto, ainda não penso nisso. Quem sabe mais para frente? Apesar de novos fatos, acho que a história fecha bem ali.

 – O livro chegou à sexta edição e já está sendo vendido na Alemanha, Inglaterra e Suíça. A que se deve o sucesso da obra? Parece-me que a história, ainda que ambientada em uma pequena cidade de Minas Gerais, aguça a curiosidade dos leitores, pois o mundo todo se comoveu com aquele desastre…

– Exatamente. Foi um desastre que foi noticiado mundialmente. Muita gente ficou sabendo, mesmo quem não estava lá se sensibilizou com a história, porque tem a questão ambiental e do drama humano. Participei até de uma reportagem no Canadá que estava falando sobre como os indígenas da região foram atingidos pela tragédia de Mariana. Aí eles citam o livro. Não é uma questão que coloco no livro, mas que coincidiu ali por ter material sobre a tragédia. Lá fora, acho que comentam ainda mais sobre a tragédia do que a gente mesmo. Então, eu acredito que, por isso, esse interesse de como isso repercutiu na vida e no cotidiano das pessoas.

-Um outro livro seu, “Lucas o garoto gamer”, traz a história de um menino tão viciado em jogos de celular que todo o resto na vida dele acaba ficando em segundo plano. Já “A lua que eu te dei” trabalha o bullying. São duas obras que abordam temas importantes na atualidade. Além de entreter, sua literatura tem que ter um propósito educativo?

– Fui educadora durante muitos anos, professora de língua portuguesa, formada em Letras. Estive ali na escola na coordenação de área, trabalhando projetos de incentivo à leitura. Quando fui escrever, é claro que isso acaba impresso na nossa literatura. Meu objetivo não é uma literatura didática. É uma literatura mesmo, mas quero trazer temas que vejo muito na geração atual. A questão do vício em games, que é algo que a gente presencia demais na sala de aula, com alunos quer chegam sem dormir. Saem da aula e só querem game, game, game; a questão do bullying, que a gente sabe que, infelizmente, é recorrente na sala de aula, trazendo consequências gravíssimas; e a questão de Mariana, que fala sobre um acontecimento recente, que os jovens, às vezes, não têm consciência de como uma tragédia dessa atinge as famílias e de como isso vai repercutir na vida das pessoas. Foram temas que foram surgindo, que eu vejo de importância e que vou trazendo. Faço muitos projetos em parcerias com escolas que adotam meus livros, faço palestras com as crianças e, muita cidades do Norte, Nordeste e de outros lugares em que a gente não pode estar presente, faço videoconferências.

– Já que se dedicou durante muitos anos à sala de aula, podendo atuar na seleção de livros didáticos e paradidáticos que seriam usados por seus alunos, como você avalia esse material que é produzido hoje para crianças e adolescentes? Ás vezes, parece-me que as publicações estão distantes do que eles querem ler.

– A seleção é bastante difícil, você tem que levar em contar uma série de fatores, porque a gente quer agradar o leitor, é claro. Não adianta indicar um livro que o leitor vai deixar de lado, ou nem vai se interessar por ele. Ao mesmo tempo, o que, às vezes, os leitores querem, não é bem literatura, porque muitos livros que eles estão lendo hoje em dia não podem ser levados para a sala de aula. Então, você tem que fazer uma peneira para ir buscar, mas tem muito material interessante. O que eu acho é que há pouca divulgação. Infelizmente, a mídia valoriza determinados livros, e você fica sem acesso a títulos legais que estão sendo produzidos, mas que, às vezes, não têm em uma livraria, em uma revista que indica livro nem em um jornal. Acho que falta um pouco disso. Aí você tem que ir atrás mesmo. Eu ia atrás de distribuidora de livros e catálogos de editoras, para buscar o que está sendo produzido.

Sala de Leitura

Quinta-feira, às 9h40, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010)

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“Mariana”(Inverso, 110 páginas)

 

 

 

 

 

 

 

 

“Lucas o garoto gamer” (Inverso, 112 páginas)

“A lua que eu te dei”(Editora Appris, 102 páginas)

 

 

 

 

 

 

“A noite chegou… e o sono não vem” (Franco Editora,12 páginas)

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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