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Quem tem medo da morte?


Por Daniela Arbex

15/09/2019 às 07h00

Eu não sei se vocês costumam falar sobre a morte. Na minha casa, esse nunca foi um tema tabu. Primeiro por causa da minha visão de mundo, pois acredito que o espírito sobrevive a morte do corpo físico. Depois porque o olhar para a continuidade da vida me faz ter esperança no futuro e responsabilidade não só comigo, mas com o próximo. Não quero criar mais problemas para amanhã, porque a ideia é ser hoje melhor do que ontem. Por isso, não consigo entender a intolerância que tem dominado a sociedade e transformado o outro em inimigo. Estamos craques na arte de odiar quem sequer conhecemos.

Minha mãe não é espírita como eu, mas, por via das dúvidas, ela se esforça para acreditar em alguma coisa além da matéria. Diz crer em uma algo superior. O nome disso para mim é Deus, mas ela chama de força maior. Tudo bem. Cada um nomeia do jeito que quiser.

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O fato é que a gente tem conversado muito sobre a vida, sobre as escolhas que fazemos e as consequências dessas escolhas. De uma maneira leve, a gente sempre fala da morte. Não raro, me divirto muito com os planejamentos da Dona Sônia para sua passagem. Recentemente, minha mãe me contou que ela e o meu padrasto compraram um plano crematório. E explicou:

– Tenho claustrofobia, filha. Não quero nem pensar em ficar debaixo da terra.
– Mãe, mas você não vai ficar. Só o corpo fica.
– Sei não. Por via das dúvidas, prefiro ser cremada. Pelo menos, se eu tiver perto do meu corpo vai ser rápido.
E ela continuou me contando sobre seus planos:
– Quero ser cremada com uma música bem linda do Ivan Lins.
Dei uma gargalhada.
– Sério, mãe? E combina?
– Sério. E não precisa ir buscar minhas cinzas não. Porque lá eles devem misturar as cinzas de todo mundo.
A esta altura, nós duas estávamos rindo muito, embora eu soubesse que ela estava falando sério.
– No velório, filha, você não me deixa sem maquiagem. Mas maquiagem leve, por favor, não é aquela coisa igual ao filme que eu vi, quando a mulher do pastor ficou maquiada igual “piriguete”.
– Teve isso, mãe?
– Teve sim. Uma coisa horrível, mas muito engraçada. Morri de rir. Pode ser batom cor de boca. Vermelho nunca. Você sabe que eu não gosto. Ah… e outra coisa. Não põe cravo no meu caixão, não, porque detesto aquele cheiro. Quero orquídeas.
– Enfeitar caixão com orquídea, mãe? É muito caro, provoquei.
– Vai pro inferno, ela brincou com o que restou de sua formação católica.

Aquela foi uma tarde divertida. É muito bom rir da gente mesmo e ter a certeza que o amor entre mãe e filha supera qualquer dificuldade. Sempre penso em como a vida é interessante. Ela nos devolve o que a gente distribui.

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