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Jovem tetraplégica voltou a mover os braços após tratamento inovador

Jovem tetraplégica recupera movimentos dos braços após tratamento inovador com polilaminina e emociona pela sua história.


Por Leticia Florenco

16/07/2026 às 10h23

Jovem tetraplégica voltou a mover os braços após tratamento inovador
Crédito: Arquivo

Aos 19 anos, a carioca Júlia Magalhães tinha planos de iniciar uma nova fase da vida.

Moradora da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, ela sonhava em cursar Psicologia, conhecer diferentes culturas e construir novos caminhos longe da rotina que conhecia.

Mas, em janeiro deste ano, um acidente enquanto seguia para a Barra da Tijuca, onde se despediria de amigos antes de uma mudança para Fortaleza, transformou seus projetos de maneira inesperada.

O impacto provocou uma grave lesão na medula espinhal e deixou Júlia tetraplégica, condição que compromete os movimentos dos braços, pernas e do tronco.

A jovem conta que só compreendeu a dimensão da situação quando despertou no hospital.

Naquele momento, percebeu que sua vida havia tomado uma direção completamente diferente e que precisaria enfrentar uma nova realidade.

Busca por alternativas levou família até pesquisa pioneira

Após receber o diagnóstico, familiares e amigos iniciaram uma intensa busca por tratamentos que pudessem oferecer alguma possibilidade de recuperação.

Foi durante essa procura que encontraram o trabalho desenvolvido pela professora doutora Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A cientista é responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, uma substância criada a partir de uma versão modificada da laminina, uma proteína naturalmente presente no organismo humano, especialmente relacionada à formação e organização dos tecidos.

O objetivo da pesquisa é investigar a capacidade da substância de estimular processos de regeneração dos tecidos nervosos e favorecer a recuperação de movimentos após lesões na medula espinhal.

Polilaminina representa uma nova esperança para pacientes com lesão medular

Em 16 de fevereiro, Júlia passou a integrar o grupo de pacientes que receberam a aplicação da polilaminina no Brasil. Ela se tornou a 23ª pessoa submetida ao tratamento experimental e a quarta no estado do Rio de Janeiro.

A aplicação foi realizada uma única vez, durante procedimento cirúrgico, diretamente na região afetada pela lesão.

Desde então, cada pequena mudança passou a representar uma conquista para a jovem. Movimentos considerados simples ganharam um novo significado, principalmente por simbolizarem avanços em uma jornada marcada por desafios físicos e emocionais.

Entre os sinais de evolução observados por Júlia está a recuperação de movimentos nos braços, resultado que trouxe ainda mais motivação para continuar o processo de reabilitação.

Rotina de recuperação exige disciplina e muita dedicação

Após o tratamento, Júlia passou a seguir uma rotina intensa de recuperação. De segunda a sexta-feira, participa de sessões de fisioterapia comandadas pela profissional Danielle Domingues.

Os exercícios envolvem fortalecimento muscular, atividades com bicicleta elétrica, uso da mesa ortostática, equipamento que auxilia pacientes a permanecerem em posição vertical e treinamento respiratório para fortalecimento do diafragma.

Além da parte física, a jovem também realiza acompanhamento psicológico, considerado fundamental para lidar com as mudanças provocadas pelo acidente.

Segundo a fisioterapeuta Danielle, os avanços acontecem aos poucos, mas quando observados ao longo dos meses mostram uma evolução significativa.

Cada movimento recuperado representa uma vitória e reforça a importância de novas pesquisas voltadas para pessoas com lesões neurológicas.

Entre limitações e conquistas, jovem mantém esperança

Apesar dos avanços, Júlia relata que o caminho de recuperação não é simples. O desgaste físico e emocional faz parte da rotina, mas ela busca manter o foco em pequenos objetivos diários.

Aprender novas habilidades, compartilhar sua experiência e ajudar outras pessoas que enfrentam situações semelhantes passaram a fazer parte da sua nova realidade.

Um dos maiores desafios, segundo ela, é o processo de adaptação. Atividades comuns, como sair de casa ou observar a movimentação das pessoas pela varanda, passaram a ter novos significados.

A jovem afirma que momentos simples mostram a dimensão das mudanças, mas também reforçam sua determinação em continuar acreditando na recuperação.

Sonho de cursar Psicologia continua, mas ganhou novo significado

Antes do acidente, Júlia tinha como grande objetivo ingressar na faculdade de Psicologia e conhecer diferentes países. Esses sonhos permanecem vivos, mas agora dividem espaço com uma nova meta: voltar a andar.

Para ela, a pesquisa da polilaminina representa algo maior do que uma possibilidade individual de recuperação.

A jovem acredita que participar do estudo também significa contribuir para o avanço da ciência e ajudar futuras gerações de pacientes com lesões na medula.

Mesmo sabendo que os resultados podem levar tempo, Júlia considera que cada informação obtida pela pesquisa pode abrir novos caminhos.

Ciência brasileira investiga regeneração da medula espinhal

O trabalho coordenado por Tatiana Sampaio é desenvolvido no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.

A pesquisa busca compreender como a polilaminina atua no processo de regeneração neural, principalmente em situações envolvendo traumas na medula espinhal.

A substância foi inspirada em componentes naturais do corpo humano e tem como foco estimular o ambiente necessário para que células nervosas possam se reorganizar após uma lesão.

O estudo representa uma das linhas mais promissoras da ciência brasileira na busca por alternativas para pacientes que perderam movimentos após acidentes graves.

Estudo clínico recebeu autorização da Anvisa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início do estudo clínico com a polilaminina para avaliar sua segurança em pacientes com trauma medular.

A primeira fase da pesquisa envolve voluntários com lesões agudas na medula espinhal torácica, entre as vértebras T2 e T10.

O objetivo inicial é analisar como o organismo reage ao tratamento e compreender melhor os efeitos da substância.

Para especialistas, pesquisas desse tipo são fundamentais para ampliar o conhecimento sobre o sistema nervoso e desenvolver novas possibilidades terapêuticas.