Ouça agora

Da pesquisa ao palco: Jesser de Souza fala sobre o poder do teatro como espelho da humanidade

Artista do LUME Teatro reflete sobre ética, criação e o papel da arte como espaço de encontro, questionamento e transformação social


Por Mariana Souza

28/10/2025 às 07h00

jesser
(Foto: Divulgação)

Referência no estudo das danças populares brasileiras, o ator e pesquisador Jesser de Souza é bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atua, desde 1994, no LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais. Com uma trajetória marcada pela investigação do corpo e da expressividade cênica, ele se dedica à criação de um treinamento inspirado em ritmos, gestos e tradições do povo brasileiro.

Durante sua passagem por Juiz de Fora, na última semana, Jesser conversou com a Tribuna sobre o cenário atual do teatro no país, as transformações nas linguagens de atuação e a importância de valorizar as manifestações culturais populares como fonte de pesquisa e criação artística. O pesquisador também refletiu sobre os desafios de manter a arte viva em tempos de mudanças sociais e tecnológicas, reafirmando o papel da arte como espaço de resistência, diálogo e celebração da diversidade cultural brasileira.

Você já esteve em Juiz de Fora em outras ocasiões, sempre em atividades ligadas ao teatro. Como tem sido sua relação com a cidade ao longo dessas visitas e o que mais chama sua atenção na cena teatral local?

Jesser: A gente viajou muito ao longo desses anos, mas eu me lembro de ter vindo a Juiz de Fora duas vezes. Uma delas foi há muitos anos, quando apresentamos o espetáculo “Parada de rua”, e isso faz mais de 20 anos. Naquela época, eu também dei um curso de treinamento para atores, voltado a espetáculos de rua, chamado “O ator na rua”.

Inclusive, muitas pessoas que participaram desse curso, hoje, são profissionais do teatro aqui em Juiz de Fora. O Léo Cunha, por exemplo, acabei de assistir ao espetáculo “Doce árido” e fiquei encantado. Um trabalho belíssimo, de um requinte e uma sofisticação extraordinários.

Fiquei muito feliz, porque ele foi meu aluno naquela época. Não que o espetáculo seja bom por isso, claro (risos), mas é muito gratificante ver alguém continuar trabalhando e estudando tantos anos depois. 

Estou muito feliz de retornar a Juiz de Fora depois de mais de 20 anos e perceber que existe aqui um movimento teatral muito potente, muito vigoroso.

E o próprio pessoal da Sala de Giz, que me convidou outras vezes, que é um grupo de teatro de Juiz de Fora. Eles fazem um trabalho extraordinário. São atores daqui, de uma qualidade impressionante, e escolheram permanecer na cidade, apostar aqui, fazer teatro aqui. É um grupo de altíssima competência, e admiro muito essa escolha de permanecer e produzir arte no próprio território.

Você retornou a Juiz de Fora para ministrar uma oficina de aprofundamento com um grupo que já vem se reunindo há alguns anos. Qual é a proposta desse trabalho e como tem funcionado essa dinâmica de encontros itinerantes entre diferentes cidades?

Alguns alunos que já fizeram cursos comigo pediram oficinas de aprofundamento, então este grupo específico já se reúne há algum tempo – para alguns, é o terceiro encontro. Tem gente que fez curso comigo em 2019, outros em 2020, outros em 2023.

A gente procura se encontrar em lugares diferentes a cada vez. Desta vez foi aqui, em Juiz de Fora. O Felipe Moratore e o Bruno Kioça, que também já foram meus alunos em cursos anteriores, cederam o espaço deles, uma sala de trabalho da Sala de Giz, e nos reunimos aqui. Para a oficina, vieram pessoas de Juiz de Fora, São João del-Rei, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo, Recôncavo Bahiano, Fortaleza, Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e Campinas.

É importante dizer que essas oficinas são organizadas pelos próprios participantes, sem nenhum apoio institucional. A Sala de Giz, por exemplo, cedeu o espaço generosamente para que a atividade pudesse acontecer.

De modo geral, funciona assim: é uma iniciativa das próprias atrizes e dos próprios atores, que se cotizam para viabilizar as passagens, a viagem e tudo mais. Possivelmente, para o próximo encontro, que deve ser em Fortaleza, o grupo vai tentar algum edital, para que a gente consiga apoio e possa ficar todo mundo no mesmo espaço, num formato mais de retiro. Esse tipo de imersão funciona muito melhor.

O teatro brasileiro reúne muitos movimentos e linguagens diferentes, mas ainda enfrenta dificuldades de incentivo. Como você percebe esse paralelo entre a força criativa dos grupos e a falta de apoio que o setor enfrenta?

Eu sinto o teatro hoje no Brasil como um cenário de muita diversidade. Existem muitas formas de se fazer teatro e muitos movimentos acontecendo. Há um movimento muito forte de teatro de rua, outro de teatro de grupo, e vários grupos longevos que mantêm o mesmo elenco há anos. Isso é muito bonito de ver. Por outro lado, sinto uma falta muito grande de incentivo do governo. Existem alguns editais, mas me parece muito insuficiente.

Na Europa, por exemplo, o Lume já foi a mais de 30 países, e o fato de viajarmos muito permite conhecer diferentes realidades e cenários possíveis. Em lugares como Portugal e França, é comum – na verdade, é uma conquista dos artistas – que exista um tipo de apoio do governo. Eles têm o que chamam de trabalho intermitente. Nos períodos em que o artista não está em cartaz ou trabalhando, ele recebe uma ajuda financeira para sobreviver, porque quando a gente ensaia nem sempre há cachê, e quando está criando, não está apresentando.

Nos últimos anos, os festivais de teatro têm enfrentado mudanças. Como você avalia o papel desses eventos? O que se perdeu e se transformou em relação às edições de décadas passadas?

Uma coisa que eu sinto também é que, antigamente, os festivais de teatro eram muito mais frequentes no Brasil. Hoje em dia, ainda existem grandes festivais, mas o esquema está cada vez mais sucateado, com menos verba para que aconteçam.

Eu me lembro que, há uns 15 ou 20 anos, os artistas participavam e permaneciam durante todo o festival, não apenas na data da apresentação. Hoje, normalmente, a gente chega em um dia, apresenta no outro e vai embora em seguida.

Antes, os festivais tinham esse caráter de criar redes entre os grupos. Eles permaneciam juntos, e isso gerava outras relações, outras possibilidades de interação e de cooperação mútua. Isso se perdeu um pouco. Eu sinto que já foi melhor e que ainda poderia ser melhor hoje.

O teatro sempre exigiu do ator uma entrega técnica e humana muito particular. Como você avalia o papel e a responsabilidade do artista cênico em um contexto em que fronteiras entre arte e entretenimento parecem cada vez mais tênues?

O ofício do ator no teatro demanda um trabalho muito grande, não só do ponto de vista técnico e da elaboração artística, mas também do ponto de vista humano. Eu acho que todo ser humano que se aventura na carreira da arte, especialmente na arte da representação, tem – ou deveria ter – um compromisso muito grande com o tipo de comunicação, com o tipo de mensagem, entre aspas, ou com a informação que leva ao público.

Eu não tenho objeção alguma a que modelos ou influenciadores sejam atores de teatro também, mas o que me interessa é saber que tipo de teatro essas pessoas produzem. Eu só consigo entender o teatro com “T” maiúsculo quando ele se propõe a ser arte com “A” maiúsculo, e não apenas entretenimento.

Você costuma dizer que o teatro é um espaço de encontro e reflexão sobre a existência humana. Como você avalia o papel da arte e do teatro em meio às transformações sociais e culturais do país?

Costumo dizer que o teatro é um pretexto para que seres humanos se encontrem e, por um lapso de tempo por uma ou duas horas, o tempo de duração de um espetáculo, possam se abstrair da realidade concreta do dia a dia para refletir justamente sobre essa realidade, sobre como nos relacionamos no mundo, como sociedade e como indivíduos, no micro e no macro das relações. O teatro, para mim, é esse lugar de reflexão.

A gente cria uma série de subterfúgios, de distrações – o texto, a luz, a música, o figurino, o cenário, a dramaturgia, as palavras -, mas tudo isso é um mero pretexto para que a gente se encontre e reflita sobre a nossa existência, sobre as questões que falam da nossa humanidade. O teatro é o lugar de reflexão da nossa existência.

Nós somos comunicadores com um potencial muito grande. O teatro tem um poder de comunicação enorme, porque, além da informação racional, ele atua em um lugar muito sutil das percepções do espectador. A gente manipula o afeto do espectador.

E isso exige um compromisso ético muito grande. É preciso ter responsabilidade ao se propor a fazer teatro, porque, de alguma forma, estamos elaborando a percepção de alguém em um nível afetivo, para além da compreensão racional. O teatro tem uma camada de comunicação que é subliminar.

Eu costumo diferenciar arte e entretenimento. A arte tem uma função que não é meramente entreter. Ela pode até entreter, mas não é essa sua função principal. O entretenimento pode estar presente em um espetáculo como estratégia de comunicação, mas o propósito da arte é muito mais profundo do que apenas entreter uma plateia por um lapso de tempo.

Como você enxerga as novas gerações de artistas que vêm surgindo no teatro brasileiro? De que forma elas têm assimilado – e transformado – essa visão do teatro como arte e compromisso humano?

Existe toda uma geração que vem passando pelo Lume e por outros grupos longevos como nós, e que tem disseminado esse pensamento do teatro enquanto arte, para além do entretenimento. Essa geração vem sendo moldada por esse olhar, na direção de um teatro que tem compromisso, e de um artista que se aprimore como ser humano.

Eu costumo dizer que o ator e a atriz trabalham a vida toda em busca de se tornarem seres humanos profissionais, na medida em que visitam todos os seus lados, desde os mais sublimes até os mais perversos. É preciso fazer esse exercício para colocar isso em cena, ampliando a potência de ser, elaborando os recantos e recônditos escondidos de nós.

Na arte, essa proposta nos faz refletir sobre nós mesmos, sobre nossa natureza humana e sobre as escolhas que fazemos. Eu escolho ser ético, generoso e afetuoso, embora, por conta do meu trabalho, tenha visitado lugares perversos e egoístas, que escolho não usar no cotidiano, apenas na cena.

A arte tem um potencial muito grande, não só de transformação da sociedade, mas também do próprio artista, se ele tiver esse pensamento e olhar para sua arte como um espaço de aprimoramento de si e do mundo ao redor.

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli