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Projeto oferece atendimento nutricional para pessoas que vivem com HIV

O “Nutrição Positiva”, desenvolvido pela UFJF, em parceria com a UFF, ajuda a melhorar a qualidade de vida dos pacientes através da alimentação


Por Nayara Zanetti, estagiária sob supervisão da editora Regina Matta

13/03/2022 às 07h00

Pensando em oferecer atendimento nutricional gratuito para pessoas que vivem com o vírus HIV, o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Renato Moreira Nunes e a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Aline Silva Aguiar criaram, em 2019, o projeto Nutrição Positiva (@nutricaopositivabr). A iniciativa, realizada em parceria com com a Secretaria Municipal de Saúde de Juiz de Fora, desenvolve atividades com os pacientes do Centro de Testagem e Aconselhamento do Departamento Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis/Aids (DST/Aids).

De acordo com Renato, são registrados, por ano, em média 300 novos casos de pessoas que vivem com HIV em Juiz de Fora e região. Com a ausência de nutricionistas no atendimento ambulatorial do sistema de saúde pública do município, os pacientes ficam desassistidos em relação à dieta alimentar que contribui para uma melhora no quadro e uma maior adesão ao tratamento. Com isso, o Nutrição Positiva foi elaborado para tentar suprir essa demanda e avaliar os dados antropométricos do paciente, como peso corporal e altura, para prescrever a dieta especializada conforme a necessidade de cada pessoa e, em último caso, também oferecer serviços fisioterápicos.

Suplementação anti-inflamatória para fortalecer o intestino

Mais de 60% das pessoas que vivem com HIV apresentam sinais e sintomas de transtornos gastrointestinais, aponta Renato, que também pesquisa sobre o tema na UFJF. Entre os sintomas, o paciente pode ter diarreia, aumento do número de alergias, síndromes fúngicas, como candidíase e dermatite na pele. A nutrição vai auxiliar a fortalecer o intestino, retirando os alimentos inflamatórios da dieta do paciente, como óleo de soja, temperos industrializados, comidas industrializadas ricas em conservantes, e substituindo por alimentos anti-inflamatórios, como azeite, cúrcuma, alecrim, frutas, verduras, entre outros.

O nutricionista explica que os pacientes com HIV que tomam os antirretrovirais ficam com o vírus inativo, mas continuam promovendo um processo inflamatório, chamado de metainflamação. Essa inflamação de baixa intensidade e crônica acaba provocando outras doenças, principalmente doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e dores musculares. “A nutrição entra modulando essa inflamação. Nós tiramos os alimentos que são inflamatórios e acrescentamos alimentos ou suplementação anti-inflamatória para que esse paciente possa ter uma vida mais saudável e mais tranquila”, esclarece Renato.

Entre as consequências de viver com a inflamação, estão o aumento de peso e a tendência de evoluir para um quadro de ansiedade ou depressão. Dessa forma, o projeto oferece orientações nutricionais para diminuir o ganho de peso sem restrição calórica, apenas com anti-inflamatórios a partir de alimentos e suplementação, assim como obtém melhoras significativas nos casos de depressão. A atividade colabora para a diminuição de futuras intercorrências na vida do paciente, fazendo com que ocorra uma queda na taxa de abandono do tratamento e, consequentemente, com uma maior adesão ao tratamento, os pacientes ficam indetectáveis e não transmitem os vírus.

A duração do tratamento varia de acordo com as necessidades dos pacientes, porém, a meta é realizar todo o processo de atendimento, orientação e educação nutricional em quatro meses. Nos casos em que o paciente não conseguiu se estabilizar nesse período, ele continua o tratamento até apresentar melhora no quadro e ganhar alta. Após finalizar o atendimento, o paciente pode buscar os serviços em qualquer momento quando sentir algum sintoma. “É importante lembrar que hoje o paciente que vive com HIV, quando ele está tratado, tem a capacidade de viver cinco anos a mais do que quem não vive com HIV. Por isso, é fundamental ter uma alimentação equilibrada para que ele possa ter uma velhice saudável e com mais disposição para viver”, ressalta Renato.

Com o aumento da insegurança alimentar, notada pela equipe do projeto, a forma de prescrever a dieta nutricional precisou se adaptar para atender todas as realidades. No caso dos pacientes em situação de rua, os coordenadores do projeto, junto com uma assistente social, fazem o encaminhamento para serviços que oferecem alimentação gratuita em Juiz de Fora.

Atualmente, o Nutrição Positiva conta com cerca de 3,3 mil pessoas cadastradas e, ao longo desses três anos, já atendeu quase 300 pessoas. A fila de espera para conseguir o atendimento é de aproximadamente três meses. Além do Renato e da Aline, a equipe é formada por sete estudantes da UFJF que acompanham os atendimentos.

Nutricao positiva 2 arquivo pessoal
Professor Renato Moreira Nunes (de cabelos grisalhos) ressalta a importância da alimentação para prevenir transtornos gastrointestinais, comuns nas pessoas que convivem com o HIV (Foto: Arquivo pessoal)

Tabus e recomendações

O grupo também produz materiais educativos e realiza a tabulação dos dados coletados durante a consulta, com autorização do paciente, para conscientizar a população sobre a doença. Segundo o pesquisador, atualmente, a maioria dos pacientes é formada por adolescentes que iniciam a vida sexual sem orientação, pessoas com mais de 40 anos, principalmente mulheres, e idosos. “O ambulatório ajuda a desmistificar estigmas e estereótipos que cercam a doença, primeiro por meio da presença de um nutricionista fazendo o acolhimento e depois com a divulgação das atividades, que ajudam a população a entender que qualquer pessoa pode estar sujeita a viver com HIV.”

Renato reforça o uso de preservativos durante as relações sexuais para prevenir o contagio e destaca, nos casos em que a pessoa tem conduta de risco ou para quem teve relação sexual sem o uso de preservativos, o uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ou PEP (Profilaxia Pós-Exposição), sob orientação médica – lembrando que esses medicamentos não previnem a exposição a outras doenças sexualmente transmissíveis.

“A ideia do projeto é mostrar para a população que sim, é possível viver com HIV, é normal, não tem grande problema se você faz o tratamento, mas ter um acompanhamento nutricional faz bem para qualquer pessoa. As pessoas vão viver normal, terão uma vida saudável, também vão ter uma vida sexual saudável e filhos que não nascerão com HIV”, afirma.

Atendimento

Para ter acesso aos atendimentos do projeto Nutrição Positiva da UFJF, o paciente deve telefonar ou ir até o Centro de Vigilância em Saúde, localizado na Rua Antônio José Martins, 92, no Morro da Glória. O telefone do Departamento Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis/Aids é (32) 3690-7576. O atendimento acontece na quarta-feira, das 8h às 11h, e na sexta-feira, das 8h às 11h e das 13h às 16h.