Reflexos da pandemia: suspensão de aulas presenciais compromete alfabetização
Levantamento aponta que número de estudantes de 6 e 7 anos que não sabem ler ou escrever cresceu 66%
O número de crianças de 6 e 7 anos que ainda não sabem ler ou escrever no Brasil cresceu 66% na pandemia, conforme dados divulgados pela organização Todos Pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostrou que de 2019 para 2021, esse número passou de 1,4 milhão para 2,4 milhões, atingindo o maior índice desde 2012. Embora em Juiz de Fora ainda não haja dados específicos sobre o impacto da pandemia na alfabetização, pesquisadores e profissionais da área da educação já notam os reflexos na aprendizagem dos alunos. Em entrevista à Tribuna, especialistas refletem sobre quais são os possíveis caminhos para reverter esse cenário.
Entre os desafios da alfabetização durante a pandemia está a dificuldade de aproximação dos professores com os alunos. É o que aponta a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e líder do grupo de estudos e pesquisa Alfabetize, Luciane Magalhães. De acordo com ela, a alfabetização é uma etapa que demanda interação face a face, troca entre os pares e reflexão conjunta sobre a língua escrita para compreender seu funcionamento. A pesquisadora ressalta que muitos professores conseguiram realizar este trabalho junto às suas turmas, via aulas remotas, com o apoio das famílias, e mesmo com todos os desafios, muitas crianças aprenderam a ler e escrever.

No entanto, segundo Luciane, o maior problema foi detectado nas periferias e nas escolas públicas, uma vez que as famílias não tiveram acesso aos materiais oferecidos pelas escolas. “A falta de acesso a recursos tecnológicos para acessar as informações foi um dos obstáculos enfrentados, ao lado de famílias em que os responsáveis não tinham condições de acompanhar seus filhos no processo de aprendizado”, aponta. Ainda de acordo com os dados da Pnad, entre as crianças que pertencem à parcela das 25% famílias que moram em domicílios mais pobres no país, 51% não sabem ler e escrever, enquanto entre as famílias 25% mais ricas, essa parcela é de 16,6%.
“Pude acompanhar o trabalho de algumas alfabetizadoras que passavam horas e horas, durante as semanas, planejando atividades, gravando aulas em suas próprias casas, enviando mensagens por WhatsApp, disponibilizando todo material no Facebook, além de xerox das atividades, mas que pouco conseguiram, uma vez que somente cerca de 10% das famílias tinham condições de dar retorno deste trabalho. As desigualdades sociais afloraram durante a pandemia. Quem tinha recursos comprou celular, notebook, pacote de dados, pagou professores particulares, dentre outras ações, mas aqueles que já lutam com dificuldade para alimentar diariamente sua família, foram os maiores prejudicados”, argumenta Luciane.
‘O risco maior é uma geração inteira pouco letrada’

Segundo o professor do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernando Tavares, que também é pesquisador, o resultado da Pnad já era esperado, pois já se estimava que haveria impactos na aprendizagem. Entretanto, para ele, a preocupação é maior com a possibilidade de evasão escolar. “O maior temor não é o atraso na alfabetização ou em qualquer outro desenvolvimento de imediato, porque isso é normal que aconteça, faz parte dos períodos sem aula, que não são inéditos na história. (…) Um leve atraso na alfabetização ou uma queda nas notas são esperados, e isso pode-se recuperar a médio prazo – que corresponde a dois ou quatro anos. O que é muito preocupante é a evasão escolar, pois os riscos e probabilidades de evasão estão altíssimos”, diz.
A Tribuna mostrou, em reportagem publicada no início de fevereiro, que o número de alunos matriculados nas escolas de Juiz de Fora em 2021 apresentou uma queda de 8.975 estudantes em relação a 2019. Os dados têm como base os três últimos anos do Censo Escolar, pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). De acordo com o levantamento, 100.097 alunos efetuaram matrícula em escolas juiz-foranas em 2021, enquanto que, no ano anterior, foram 108.520 estudantes matriculados. Em 2019, esse número era de 109.072, apontando queda de 8,22% de lá pra cá.
O nível de ensino que apresentou o menor número de matrículas foi justamente a educação infantil, com 5.610 alunos a menos em 2021 em relação a 2019. No ano passado, foram 14.054 alunos matriculados, frente a 18.566 em 2020 e 19.664 em 2019, apresentando uma queda acumulada de 28,5%. Esses dados e as informações disponibilizadas pelo Pnad apontam para a existência de grandes impactos na escolarização das futuras gerações, para os especialistas. “O risco maior é uma geração inteira pouco letrada, pouco educada e pouco formada, o que vai impactar na maior probabilidade de desemprego, no menor crescimento da economia, na queda da produtividade e da inovação”, analisa Fernando.
Além disso, outro fator destacado pelo pesquisador é a reprovação escolar, que afeta diretamente a motivação do aluno em continuar indo na escola. Fernando explica que quando o estudante para de frequentar as aulas e decide retornar após um determinado tempo, ele já está praticamente reprovado, seja por faltas ou notas, e se a escola não criar mecanismos de recuperação, a criança acaba perdendo a interação com a turma e volta no ano seguinte para fazer a mesma série ainda mais desmotivada.
“O grande risco é a destruição de sonhos e projetos de vida, a interrupção de trajetórias. Gerações mais jovens inteiras com menos escolaridade e sem acreditar que um dia conseguirão atingir o mesmo nível de escolaridade que atingiriam se não tivesse acontecido a pandemia. O problema não é demorar a aprender, porque as crianças que continuarem na escola aprenderão, (…) a dificuldade é não perder essas crianças, colocá-las na escola e não interromper suas trajetórias.”
Um olhar para novos caminhos
Fernando Tavares é pesquisador do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), e desde junho de 2020 coordena a pesquisa “Escolarização e Pandemia: análise de trajetórias e equidade”, que busca sistematizar os dados escolares e contrastar com bases sociais para projetar possíveis cenários mais promissores, mais realistas e mais negativos.
De acordo com ele, os estudos mostram que o impacto de longo prazo trazido pela pandemia tende a ser diminuído quando há medidas de recuperação e recomposição dos conteúdos. Segundo o pesquisador, a expectativa é de que em 2024 e 2025, as redes de ensino que tomarem as providências necessárias, provavelmente irão recuperar os estragos desse período. Entretanto, é preciso que se tenha essa recuperação em mente. “O retorno às aulas em 2022 não é uma simples volta às aulas de férias, mas sim a retomada das esperanças e do futuro do Brasil. Por isso, é preciso um esforço adicional.”
O primeiro passo, segundo o especialista, é não deixar nenhuma criança fora da escola. Entre as alternativas para incentivar a retomada dos estudantes estão a busca ativa, aulas de reforço e recuperação paralela. O segundo ponto é acolher as crianças nas escolas da forma como elas estiverem. “Algumas vão ter conseguido avançar, outras não. As desigualdades tendem a se elevar, teremos crianças com dificuldades do retorno às aulas, de se ambientar novamente àquela rotina, dificuldades de enturmação… Mas é preciso acolhimento para superar as dificuldades.”
Diagnóstico
Fernando e Luciane corroboram que uma ferramenta é essencial neste momento: a produção de um diagnóstico de conhecimento das turmas para ver em qual estágio cada criança está no seu processo de desenvolvimento. “O tempo que passou não se recupera, o que se perdeu ficou para trás. É momento de começar ou recomeçar, de ver onde estamos, em que fase as crianças se encontram. Não adianta somente avançar na escolaridade, é preciso saber ler, escrever, compreender, interpretar, usar a cultura escrita na escola e na vida”, orienta Luciane.
Para o pesquisador Fernando Tavares, os números da Pnad alertam ainda para a necessidade de desenvolver ações para mudar essa realidade. “Temos que parar com a ideia de que está tudo bem e não está acontecendo nada, que a vida vai continuar igual, pois não vai. É preciso sim dar uma atenção mais especial à escolarização das crianças, especialmente das crianças mais novas, e o que esse número aponta é que é preciso reagir, ter coragem e fazer algo novo”, afirma.
Projeto Alfabetize visa a ampliar debate sobre letramento
Na tentativa de encontrar um novo caminho, Luciane criou o grupo Alfabetize em 2009, com a intenção de ampliar os debates sobre como ensinar crianças a ler e escrever. Ao longo dos anos, o projeto despertou a atenção de profissionais da educação, para além dos docentes e estudantes da universidade, interessados nos estudos da alfabetização. Com isso, o objetivo passou a ser também a formação inicial e continuada de professores alfabetizadores por meio de oficinas e outras ferramentas disponibilizadas tanto pelo Governo federal, quanto pela UFJF.

Nos últimos anos, o projeto coordenou os programas de formação continuada Pró-Letramento e Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, alcançando mais de 200 municípios da região. Com a pandemia, atividades específicas de alfabetização e letramento, como a escolha de livros infantis nas bibliotecas das escolas, precisaram ser adaptadas, e todas as ações que antes eram feitas de forma presencial foram modificadas.
Em 2021, o Alfabetize desenvolveu, em parceria com a Secretaria de Educação e o Colégio de Aplicação João XXIII, o curso “Oficina de Alfabetização e Letramento”. Para 2022, o grupo irá oferecer uma oficina de alfabetização para professores e alunos, por meio de um projeto que irá unir professoras e coordenadoras pedagógicas da escola pública com alunos de graduação da Pedagogia para planejar a alfabetização, com base em atividades práticas e confecção de jogos e materiais para auxiliar as crianças no aprendizado da leitura e da escrita.
Além disso, Luciane também pretende criar projetos, em parceria com a Secretaria de Educação e com o Colégio de Aplicação João XXIII, para atender as escolas da cidade. Porém, só será possível colocar a ideia em prática conforme a disponibilidade do grupo de professoras do Alfabetize. “A procura é muito grande. Em 2020 tivemos mais de 200 professores inscritos, e só pudemos atender a duas turmas de 40 por falta de professores para ministrar as aulas. O ideal seria termos turmas de 25 professores. No entanto, estudaremos a possibilidade de novas turmas de até 40 professores.”









